"Até ao final de abril, não teremos mais medicamentos", afirmou Rodrigue Alitanou, da ONG médica Alima, a partir do seu escritório em Dakar.
O conflito no Médio Oriente, com o consequente aumento dos custos dos combustíveis e os desafios logísticos no Estreito de Ormuz, está a agravar as tensões sobre o fornecimento humanitário de medicamentos em África, num setor já severamente impactado pelos cortes de financiamento dos últimos anos.
O diretor de operações desta ONG médica, que opera em 13 países africanos, dá o alarme sobre a gravidade da situação: "Se isto durar um mês e meio, dois meses, estes alertas traduzir-se-ão em impactos diretos na continuidade das nossas atividades".
África importa mais de 70% dos seus medicamentos e mais de 90% dos seus ativos farmacêuticos e Alitanou está preocupado com o aumento dos custos de importação devido à escalada dos preços dos combustíveis.
"Um custo adicional de 2.000 dólares significa menos 200 crianças a receber tratamento para a subnutrição", disse, recordando que isso já acontece no Sudão, na República Democrática do Congo e está a começar a acontecer na maioria dos países".
Na encruzilhada entre a Ásia, principal produtor de medicamentos, e África, o Médio Oriente é a porta de entrada preferencial para o abastecimento do continente.
Vários centros de distribuição humanitária na zona franca do Dubai viram as suas operações interrompidas, afetando o transporte logístico para África.
No Dubai, o centro de logística de emergência da Organização Mundial de Saúde (OMS), que fornece medicamentos a mais de 150 países em todo o mundo, teve de cancelar remessas no início do conflito devido ao encerramento do espaço aéreo e teve de rever as suas rotas de abastecimento.
"Os prazos de entrega são mais longos porque não podemos passar por Ormuz e temos de contornar o Cabo da Boa Esperança, sobretudo com navios de carga, o que encarece o processo e acrescenta 15 dias a um mês ao tempo de entrega", explica Damien Dubois, coordenador de aprovisionamento da MSF Supply, um dos centros de compras dos Médicos Sem Fronteiras (MSF).
Um porta-voz do Fundo Global de Luta contra a SIDA, Tuberculose e Malária, contactado pela AFP, "está já a verificar atrasos e aumento de custos", embora a organização ainda não tenha observado qualquer escassez.
"Até à data, não estamos a falar de uma escassez de medicamentos devido ao conflito, mas sim de uma pressão adicional sobre uma fragilidade já existente, com o risco de levar à escassez em certas regiões vulneráveis", sublinha Anne Sénéquier, codiretora do Observatório Global de Saúde do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS).
Foto: depositphotos
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