«Forças Expedicionárias a Cabo Verde na II Guerra Mundial» de Adriano Miranda Lima

PorOndina Ferreira,31 mar 2020 10:32

​Começo por recomendar vivamente a leitura do livro «Forças Expedicionárias a Cabo Verde na II Guerra Mundial» de autoria de Adriano Miranda Lima. É que se trata, na minha opinião, de uma das mais interessantes narrativas, sobre a historiografia da instalação e da vivência nas ilhas, de Barlavento de Cabo Verde, das Forças militares expedicionárias portuguesas ao Arquipélago nos idos anos 40 do século XX.

O contingente militar foi distribuido pelas ilhas de São Vicente, Santo Antão e Sal. O livro dá conta com pormenores bem elaborados e seriamente fundamentados, dessa grande movimentação de homens em solo ilhéu e com uma missão. A missão de defender o Arquipélago de eventuais ataques e/ou invasão dos beligerantes na II Grande Guerra Mundial.

Ao contrário do que o leitor possa pensar, não se trata de uma descrição militar fria, antes pelo contrário, objectiva sim e colorida no melhor sentido do vocábulo. Cheia de cor local, de calor humano, de peripécias pitorescas a propósito de um ou outro acontecimento à volta do foco principal, numa retrospectiva histórica cativante- para os interessados em analisar a nossa História - sob vários ângulos.

Sobre o autor, Adriano Miranda Lima – cabo-verdiano, natural da ilha de São Vicente. Coronel reformado do Exército português, colaborador de alguns jornais, revistas e blogues, tanto cabo-verdianos como portugueses. Gostaria de acrescentar que para além da excelência da sua escrita, estamos perante alguém que investiga com seriedade e expõe com inquestionável honestidade intelectual. Digo isto sem hesitar, pois que com provas dadas nos inúmeros artigos, ensaios e livros que ele vem publicando os quais, reitero, atestam as qualidades de uma escrita cuidada, concisa e assertiva.

Retomando o livro, as ilhas de São Vicente, Santo Antão e Sal foram os quartéis e os locais onde se instalaram repartidamente, mas de forma desigual em números, os 5.820 homens que cá chegaram com a importante missão de defesa das ilhas atlânticas, da eventual cobiça dos contendores da II Guerra Mundial e isto enquanto eram também enviadas tropas para os Arquipélagos dos Açores e da Madeira. Aliás, o Despacho do Ministério da Guerra, acentuava a urgência e a necessidade de defesa das ilhas atlânticas portuguesas, até como garantia da neutralidade de Portugal face à contenda mundial.

Convém recordar que a ilha de São Vicente acordou de súbito numa manhã de Maio de 1941 com a chegada de quase 6 mil jovens, o que foi um acréscimo de cerca de 39% em termos demográficos para uma ilha que contava à época com cerca de 15 mil almas.

Imagine-se a brusca reviravolta na vida da então pequena urbe, Mindelo, com a instalação, a movimentação e a circulação desses jovens militares pela cidade!

Daí que o foco da atenção narrativa do autor esteja mais fortemente virado para aquilo que sucedeu em São Vicente, onde coube o maior número ( mais de 3.000) do contingente dos militares vindo da então Metropóle – naturalmente mais do que nas restantes duas (Santo Antão e Sal).

Mas há ainda a referir um dos motivadores deste livro. E o autor encarrega-se de no-lo explicar entre outros dois por ele mencionado que o levaram a organizar a presente obra. Ei-lo, (cito): “...Porém , outra circunstância particular e não menos relevante é o facto de eu ter nascido na ilha – São Vicente – onde as Forças Expedicionárias mais se projectaram, irradiando o seu mantra pela cidade do Mindelo e pela ilha como um todo...

O leitor é convidado ao longo dos capítulos e das páginas do livro, a entrar, a partilhar e a vivenciar a atmosfera física e social de Mindelo daquela época. Tempos e vivências que curiosamente se prolongaram até muito mais tarde na memória mindelense.

A marca das influências da tropa expedicionária em São Vicente, estendeu-se ao longo do tempo e ficou impregnada de forma indelével no imaginário dos mindelenses, em certos usos e determinados costumes.

Na memória literária, através de um deles Manuel Ferreira, Furriel à data dos acontecimentos descritos no livro, e mais tarde para nós, nome destacado na Historiografia literária cabo-verdiana que se entrosou de forma profunda na sociedade mindelense. Casou com a cabo-verdiana Orlanda Amarílis, também ela escritora. Adriano Miranda Lima, reconhecendo a importância desse vulto da cultura cabo-verdiana, dedicou-lhe um capítulo particular, demonstrativo e ilustrativo da forma como Manuel Ferreira pôde conhecer, perscrutar e entender como se de um natural fosse, a História, a Literatura e a cultura cabo-verdianas.

Do mesmo modo, o autor destaca também a insigne figura do médico militar Dr. Baptista de Sousa, um cirurgião competente e empenhado não só para os militares que aí adoeceram, mas também para a população civil que a ele acorria. Lembremo-nos de que a penicilina só chegaria a São Vicente e a Cabo Verde pela primeira vez em 1945. O livro dá conta disso. Mas atenção que o foco desta narrativa, «Forças Expedidcionárias a Cabo Verde na II Guerra Mundial» abrange fundamentalmente o período compreendido entre 1941 e 1944 ano do fim da missão militar, mesmo antes do fim da Guerra. Isto porque, como narra A. Miranda Lima, se conclui que os beligerantes jamais estiveram interessados na ocupação do território mas sim do seu mar, onde havia muita movimentação de submarinos.

Continuando com o Dr. Baptista de Sousa, convém salientar que este médico competente e honesto ousou, no estrito desempenho da sua profissão, de forma corajosa, denunciar a situação de fome que assolava as ilhas. E fê-lo de tal modo reiterado que foi vítima dessa sua coragem, pois no tempo da Ditadura era proibido dizer “que se morria de fome nas terras do Império” (cito o autor).

É que o Dr. Baptista de Sousa escrevia nas certidões de óbito, e continuou a fazê-lo até ao fim da sua comissão de serviço em Mindelo - mesmo depois de ter sido repreendido pelas autoridades - de forma clara e legível, registando a expressão “fome crónica” como causa de morte do paciente. Estou a seguir o autor.

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Daí que, no dia da sua partida para Lisboa, não causou espanto a emocionante e a espontânea despedida que o povo de São Vicente lhe prestou, acudindo em multidão ao cais de embarque, acontecimento que o livro descreve com algum pormenor. Interessante é que nessa despedida não se incorporaram apenas populares, mas também figuras gradas da sociedade mindelense da época. Exemplificando, o Dr. Adriano Duarte Silva - deputado , cidadão benemérito, e grande defensor das causas das ilhas - o Juíz da Comarca, entre outras entidades de relevo de Mindelo. Aproveito para dizer que o livro está bem documentado em fotografias da época sobre este e outros acontecimentos.

Reza a crónica, que não mais se terá repetido na urbe mindelense tão grandiosa manifestação de gratidão. Hoje Dr. Baptista de Sousa é patrono do Hospital de Mindelo.

Uma vez regressado a Lisboa, dada a sua firmeza na denúncia da fome, enfrentando e contrariando as autoridades, foi prejudicado, penalizado nas promoções e nas colocações de forma ostensiva.

Outras duas figuras que mereceram destaque no livro foram, a primeira, a do Capitão Oliveira que é descrito como um militar de alto recorte humanitário. Ele terá instituído como uso e costume militar e pela primeira vez em Cabo Verde, a distribuição das «sobras do rancho» ordenando à despensa militar, da Companhia que ele comandava que aumentasse os géneros alimentícios na cozinha e que as sobras fossem distribuídas aos muitos miúdos e adultos famintos que se abeiravam dos muros do Quartel. Terá com isso minorado ou mesmo salvo da fome mortal muita gente. Quando lerem o capítulo hão-de de perceber como o gesto do capitão Oliveira foi tocante e humanitário.

O interessante é que, de acordo com o livro, o Capitão Oliveira sugeriu e pediu aos comandantes dos outros aquartelamentos em S. Vicente que fizessem o mesmo.

Não esquecer que a chegada das Forças Expedicionárias a Cabo Verde coincidiu com uma época terrível, crítica de seca e de fome e que a Mindelo acorriam famílias e pessoas famélicas das ilhas vizinhas de Santo Antão e de São Nicolau, duas ilhas, entre as que mais sofreram com a Fome. Logo, o generoso acto do Capitão Oliveira é naturalmente digno de louvor. Tudo isto vem descrito e narrado no livro.

A segunda figura foi a do Cabo Francisco Lopes, que em Mindelo passou a ser conhecido como “Chico da concertina” . Este militar era presença assídua em festas, bailes e piqueniques a convite até dos músicos locais.

Há uma passagem no livro de que vos recomendo a leitura, que o Cabo Francisco Lopes faz na primeira pessoa, em que ele evoca saudosamente a sua integração nas noites mindelenses da época de uma forma viva. Crónica quase oral, viva, sugestiva e que diz muito dos convívos musicais e festas da época em Mindelo.

De facto, a penetração e o entrosamento das forças expedicionárias na população de São Vicente foram profundas e deixaram marcas indeléveis como já aqui referi. As festas, os convívios, os piqueniques fora de portas, para os quais os militares eram convidados, os namoricos e os casamentos de sargentos e de oficiais com as moças da cidade. As ligações ocasionais ou prolongadas dos praças e soldados, com as raparigas da cidade e/ou dos arredores e de que resultaram filhos, uns reconhecidos, outros não, constituíram as diversas formas de interacções sociais entre o corpo expedicionário estacionado na ilha e a população mindelense.

Aconteciam também, e amiúde, com pompa e circunstância, grandes desfiles e/ou paradas miltares que davam vida à cidade, e deslumbravam a população que a eles assistia. Encontrámo-los ilustrativamente descritos e narrados no livro.

Na minha opinião de leitora é, exactamente, a história do impacto dos militares na sociedade local que ocupou lugar de eleição no livro.

De facto, Adriano Miranda Lima retrata e ilustra factos e figuras com tal realismo e proximidade que o leitor se sentirá quase participante.

Por um lado, a boa convivência e, por outro lado, a ajuda material que aqueles militares prestaram à população de São Vicente, ocuparam atentamente o autor na sua narração.

Claro, que de caminho, o livro dá conta também das escaramuças e das querelas havidas entre os rapazes locais e os militares metropolitanos – assim se dizia à época - regra geral, por causa das moças que estes últimos conquistavam. Não se esqueçam que estamos a falar de forasteiros jovens, muito jovens, na faixa etária dos vinte e poucos anos, a maior parte deles.

Abro aqui um pequeno parêntesis para uma curiosidade, que é não ter sido por acaso que o mindelense é quem mais adquiriu (em termos relativos e proporcionais) – minha impressão, colhida em informações em que não houve rigor estatístico, vale dizer – que adquiriu, repito, sem grandes dificuldades a nacionalidade portuguesa, na grande procura que houve após a independência, uma vez que ainda haveria um bisavô, um avô ou, mesmo um pai português militar da década de 40, que remonta à estada da tropa expedicionária em São Vicente.

Fecho a curiosidade e o parentesis e volto ao livro para finalizar e reiterar que a sua leitura se torna igualmente aprazivel, quando lemos as cartas, os testemunhos e os depoimentos nele contidos e que são autênticas memórias escritas na primeira pessoa, pelos protagonistas, sobre a passagem por Cabo Verde em missão militar, memórias essas, guardadas e conservadas pelos descendentes a que o autor teve acesso. Factos e histórias que tanto impacto tiveram na vida daquela geração cabo-verdiana e portuguesa que os vivenciou.

Mesmo, mesmo a terminar, dizer que Mindelo conservou em bom estado alguns aquartelamentos, muros e vedações defensivos, à época construidos, e até mesmo o talhão militar no Cemitério de Mindelo, onde repousam os restos mortais dos 68 jovens militares portugueses que aí sucumbiram por doença. O livro traz o obituário.

Por tudo isto, vale a pena ler o livro «Forças Expedicionárias a Cabo Verde na II Guerra Mundial»! Garanto-vos que o prazer da leitura, sempre procurado pelo leitor, estará muito presente ao longo dos capítulos da obra. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 955 de 25 de Março de 2020. 

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Autoria:Ondina Ferreira,31 mar 2020 10:32

Editado porSara Almeida  em  4 jan 2021 23:20

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