Espaços com história VI

PorAdriana Carvalho,23 abr 2020 18:54

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Percorro quase todo o edifício. Salas de aulas, amplas umas, pequenas outras, a evidenciar o aperto em que vive a colmeia, todas, porém bem arejadas e limpas – sobretudo limpas. Paredes sem «malcriadices». Carteiras sem borrões.... (…).

Os balneários, as próprias instalações sanitárias, o mobiliário revelam cuidados a destacar. Não direi o mesmo das salas dos professores, mal mobiladas, nem da Biblioteca, mal apetrechada, como acontece com as aulas de Ciências, da falta de um ginásio. Baltasar [Lopes da Silva] explica-me que se trata da eterna causa da frustração das nossas coisas – a falta de verba. E na verdade não se pode atribuir outra às deficiências.

O Reitor é o primeiro sacrificado. O seu gabinete é o mais pequeno e o mobiliário o menos confortável. Na secretária uma cadeira que me pareceu giratória, mas tão tosca, tão velha e pequena que me confrange entrever a figura alta do reitor encafuado nela.

E pensarmos nós que com 50 contos durante cinco anos tudo isto se modificaria

(Bento Levy, Cabo Verde: Boletim de Propaganda e Informação, fevereiro de 1955, p. 10)

É-me grato evocar o ambiente onde Baltasar Lopes da Silva foi aluno, professor e reitor, no mês de celebração dos professores cabo-verdianos que culmina em 23 de abril, dia do seu nascimento.

Esta oportunidade foi-me facultada por Bento Levy (diretor do Boletim que estamos a citar) que numa ida a Mindelo – com “o intento de ver se conseguia que o Dr. Aníbal, como afectuosamente lhe chamam, lhe salvasse um dente com a sua perícia consumada”1 – visitou o Liceu Gil Eanes.

Combinou com o Reitor a visita desejada: “Tinha uma vaga ideia de um estabelecimento entaipado pelos correios e estes pelo liceu. O tapume desapareceu. Os CTT têm agora um edifício próprio, diga-se de passagem muito aceitável, e o liceu ocupa tudo o que lhe pertence. Construção sólida, ampla – era o antigo quartel – mas insuficiente”.

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Era o antigo quartel

O edifício foi destinado a instalações militares. A construção do primeiro piso do Quartel teve início em 1859 e terminou em 1873.2 Em frente ao Quartel Militar encontrava-se já pronto o então chamado Largo da Parada, circundado por um muro.Na década de vinte [do século passado], depois da construção das instalações da tropa no Morro Branco, começou a transformação do Quartel do Corpo da Polícia e Guarnição para nele se instalar a Estação Postal e foi construído um andar sobre o corpo central do edifício para a Repartição Superior dos Correios e Telégrafo.3

Um estabelecimento entaipado pelos correios e estes pelo liceu

Na mesma época, o Liceu precisava com urgência de novas instalações, dado que a casa do Senador Vera-Cruz (que o acolheu em 1917) deveria ser entregue ao seu proprietário.4 Decidiu-se a sua transferência para o edifício do Quartel, onde foi instalado em janeiro de 1921. A partir desse ano e até 1950, Liceu e Correios partilharam o edifício com inconvenientes mútuos.

O natural ruído que as crianças fazem nos intervalos é nocivo para os serviços do Telégrafo e o ruído da carimbagem dos selos no correio perturba o funcionamento das aulas. Além disso a manutenção de gente em frente dos correios, principalmente, nos dias de mala5, não é de molde a criar condições muito propícias a funções docentes.

(Relatório do Reitor José Diogo Luiz Terry, 1944-45, p. 1)

Em 1958, o Reitor Baltasar Lopes da Silva expôs ao Governador as consequências perniciosas desta coabitação para o liceu, cuja “frequência duplicou”:

Saído de sucessivas adaptações (quartel, depois, simultaneamente, liceu e direcção dos serviços dos correios, de que não se desprendeu ainda totalmente). O prédio, se lá ia dando “tant bien que mal” conta do seu recado quando a frequência se situava na ordem dos 300 alunos, está contraindicado agora (um agora que vem de há cerca de oito anos) que o liceu é mais procurado e a frequência duplicou.

(…) O liceu não tem recreios, não tem campos de jogos, não tem ginásio; (…) não tem salas de estudo para os rapazes e raparigas e são a grande maioria que não dispõem em suas pobres casas de alojamento para prepararem as suas lições; a disposição do edifício é tal e o acanhado das suas proporções de tal maneira, que basta que um professor falte ou que aconteça uma interrupção nos tempos lectivos do horário do dia para que não haja dentro dele silêncio «exterior» indispensável à boa leccionação.

(Relatório, 1957-58, pp. 38/39).

O liceu em tempo de guerra

Durante a Segunda Guerra Mundial as ilhas atlânticas foram cenário da disputa das potências beligerantes6, tendo Portugal – apesar de alegada neutralidade – reforçado a defesa militar.Em Cabo Verde foi montado um dispositivo que abrangia mais de 5.000 homens que integravam as Forças Expedicionárias portuguesas. Os contingentes chegaram à ilha de S. Vicente em 1941-42 tendo a maioria dos militares aí permanecido até finais de 1943.

Uma das companhias ocupou salas do Liceu, o que veio perturbar o inicio do ano letivo 1941-42 7. A situação agravou-se “quando o edifício do Município foi cedido para instalação hospitalar do Corpo Expedicionário e a Câmara, por falta de outro edifício disponível, instalou os seus serviços nalgumas dependências do Liceu, para onde transitaram também as escolas primárias e o gabinete da Assistência”8 e nele “foi ainda instalada uma enorme oficina para o fabrico das botas da tropa”9.

As circunstâncias excecionais da ocupação do Liceu Gil Eanes e as inevitáveis tensões e limitações geradas afetaram o desenvolvimento da instituição educativa.

O liceu ocupa tudo o que lhe pertence

Apesar da libertação dos espaços ocupados pelos Correios e outras repartições, o Reitor Baltasar Lopes não se conformou com “as condições do edifício, a sua insuficiência para acomodar a população escolar que procura o Liceu” e considerou que “salvo melhor juízo, se impõe a construção de um novo edifício”10.

No dia 8 de outubro de 1967, Baltasar Lopes – símbolo da cultura intelectual que marcou a vida do instituição que liderou por duas vezes11 – proferiu numa oração de sapiência na cerimónia de inauguração do novo edifício construído em Chã do Cemitério: “O liceu cinquentenário despede-se hoje da sua velha casa, onde se instalou em 1921. Amanhã serão ditas as palavras necessárias na inauguração de um edifício novo, hoje cabe uma palavra de saudade e de justiça em intenção deste edifício compósito, feito de crescente ao sabor das circunstâncias”12.

Este é o último (Re)corte dos Espaços com história. Termino esta série com dúvidas e desencanto: Valerá a pena recuperar memórias passadas, em particular, nestes dias intensos de incertezas? É um mero diletantismo intelectual? Vislumbra-se alguma utilidade? De imediato, apenas a omnipresente ‘resistência, persistência e regeneração’ das instituições educativas face às adversidades, ontem como hoje.

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1 Bento Levy acrescentou: “Nós não temos na Praia um dentista e quem estiver aflito que vá a S. Vicente…” (Boletim Cabo Verde, fevereiro 1955, p. 9).

2 Ministério da Habitação e Obras Públicas (1984). Linhas gerais da história do desenvolvimento urbano da cidade de Mindelo. Ed. Ministério da Economia e Finanças, p. 38

3 Idem, p. 170.

4Ofício n.º 155, 17 de novembro de 1920, doc. do ANCV.

5 Dia de distribuição da correspondência chegada.

6 Só em 1941 os alemães afundaram 30 navios mercantes das Forças Aliadas nas águas próximas de Cabo Verde” [Lima,Adriano Miranda (2020). Forças expedicionárias a Cabo Verde na II Guerra Mundial, p. 24].

7 Ofício extra, 24 de setembro de 1942. Doc. do Arquivo Histórico de Cabo Verde – ANCV.

8 Ofício do Reitor José Diogo Luiz Terry, 23 de maio de 1942. Idem.

9 Lima, 2020, p. 91.

10 Relatórios referentes a 1951-52 e a 1953-54, p. 1.

11 Foi Reitor nos anos 1949 a 1960 e 1965 a 1969.

12 O Arquipélago, 12 de outubro de 1967.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 960 de 22 de Abril de 2020. 

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Autoria:Adriana Carvalho,23 abr 2020 18:54

Editado porClaudia Sofia Mota  em  24 out 2020 23:21

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