Espaços com história IV

PorAdriana Carvalho,16 fev 2020 8:53

Não contávamos com arquitectos como Licínio Cruz e o jovem Óscar Niemeyer, mas tínhamos o projectista Luís Mello, o engenheiro Tito Esteves e os mestres Armando Barros, Tito Barros e Manuel ‘Nené d’Antão’ Fortes e beneficiávamos de trabalhadores que se entregaram de corpo e alma à acção para nos deixarem as marmorites que fazem do Liceu [da Praia], mais do que um simples espaço de estudo, uma obra de referência da cidade. Jorge Carlos Fonseca¹

O tão esperado liceu

Como se analisou na crónica “Espaços com história III” (EI, 8 de janeiro de 2020), o ensino secundário na Praia – ainda na dependência do Liceu Gil Eanes com sede em Mindelo (1955 a 1960) – era ministrado em instalações provisórias e inadequadas. Foi, desde então, projetada a construção de um edifício condigno. Em fevereiro de 1956 o Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação anuncia que, “com grande contentamento geral iniciaram-se no passado dia 23 os trabalhos de construção do grandioso edifício para as instalações do Liceu”.

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   Perspetiva do edifício do Liceu da Praia, linóleo de Luís Melo (Mocidade, 22 de abril 1956)

O Conselho Escolar da Secção do Liceu Gil Eanes na Praia agradeceu ao Governador “as magníficas e modernas instalações de que passou a dispor” (idem, julho de 1960). Porém, não seria a Secção a beneficiar das novas instalações, mas o tão esperado Liceu da Praia, criado por um decreto de 24 de setembro de 1960 e, dois anos mais tarde, denominado Liceu Adriano Moreira.

Investido do título de reitor, José Marques de Oliveira (antes vice-reitor da Secção), na cerimónia de abertura das aulas regozijou-se com a “massa de estudantes de Cabo Verde que pelas salas deste Liceu hão de passar no futuro” e, em particular, com os que “hoje têm o privilégio único de pisar pela primeira vez os pavimentos brilhantes deste Liceu” (idem, novembro 1960). Um desses estudantes, Jorge Brito, quatro décadas mais tarde, recordaria que passou “sete anos nesse liceu sem lhe ocorrer perguntar quem era Adriano Moreira2 e muito menos a razão por que puseram o nome de alguém vivo à linda e frondosa construção, considerada uma joia de arquitetura e o liceu mais imponente do império colonial português”3.

O edifício inspira-se numa linguagem arquitetónica de representação do imaginário colonial patente nos painéis em azulejaria no interior e no padrão, com forma de vela de navio, no largo frente ao liceu.

Auditório – salão – plenário

O neoclassicismo dominante na traça arquitetónica é interrompido por um elemento modernista no auditório, a pintura mural da autoria de Pedro Gregório Lopes. Nessa moldura, nos saraus culturais aqui realizados, a par da retórica apologética oficial, os alunos ouviram Gabriel Mariano dissertar sobre a insularidade e o terra-longismo e poemas de Jorge Barbosa declamados por ele mesmo (1964). Foi-se assim modelando um sentido de emancipação que precedeu o epílogo do liceu colonial.

Durante o Governo de Transição para a Independência, em 24 de abril de 1974, por proposta da Pró-Associação dos Estudantes, o Liceu recebeu o nome de Domingos Ramos, herói da luta de libertação nacional. Após a independência, o auditório com a identidade de salão Josina Machel4 continuou a congregar a comunidade académica em momentos de celebração, a ser sala de leitura e local de reuniões do conselho de professores e dos alunos organizados em associação.

Por ser o maior espaço coberto da cidade, o salão acolheu as sessões da Assembleia Nacional Popular, que não dispunha na época de edifício próprio (Reis, 2019, p. 97)5. Até 1984, foi sede dos debates parlamentares6, onde se aprovaram questões de política interna e externa e acordos de cooperação económica, técnica e cultural com vários países e instâncias internacionais. “Muitos foram os alunos que assistiam, de pé, às sessões da Assembleia Nacional numa atitude cívica exemplar” (idem, p.97)

Segundo Henrique Oliveira, reitor do Liceu após a independência7, a solenidade do salão, símbolo do poder político e pedagógico, progressivamente, foi sendo profanada pela banalização do seu uso por instituições e entidades públicas e privadas para a realização de festas de confraternização.

Três salas e um corredor

Uma das dificuldades na instalação de instituições educativas de grande porte em Cabo Verde foi a falta de edifícios adequados para os fins a que se destinavam. Aconteceu com o primeiro liceu da Praia (1860), com o Seminário-Liceu (1866), com o Liceu em Mindelo (1917) e com o Curso de Formação de Professores do Ensino Secundário (1979).

Carlos Reis, então Ministro da Educação, elucida que em 1979 “para obviar o aflitivo problema de falta de instalações que havia na cidade da Praia, teve-se que recorrer a três salas do Liceu Domingos Ramos, para instalar provisoriamente o Curso de Formação de Professores do Ensino Secundário, tendo a secretaria funcionado num espaço de aproveitamento de um corredor”8.

Nota final

Uma página de jornal é ínfima para conter as histórias vividas no Liceu. Num tempo longo, muitas se terão passado nas salas de aula, na biblioteca, nos laboratórios, no recreio, no ginásio, no auditório-salão, no gabinete dos reitores-diretores, nos corredores e muros exteriores. O fascínio que as histórias encerram justificam a revivificação dos objetos que se foram deteriorando (em particular o espólio dos laboratórios), dos lugares que se foram fechando e de um património (in)corpóreo que se foi desvanecendo.  

___________________________________________________

1 Prefácio do livro Memórias do Liceu da Praia (2013), organizado por M. A. Carvalho e L. Gomes.

2 Adriano Moreira era na época Ministro do Ultramar Português. Cf. Portaria de 8 de setembro de 1962, o Liceu passou a denominar-se Liceu Adriano Moreira.

3 In Pereira, Sara (ed.) (2006). Memórias do liceu português.

4 O nome de Josina Machel “guerrilheira moçambicana e primeira esposa de Samora Machel” tinha sido alternativa na escolha do patrono do liceu após a independência” [Reis, Carlos (2019). A educação em Cabo Verde: um outro olhar p. 90].

5 Op. acima referida.

6 As duas primeiras sessões da ANP (4 e 5 de julho de 1975) foram realizadas no salão da Câmara Municipal da Praia. A 3.ª sessão (1976) no salão do Liceu da Praia; a 4.ª e 5.ª (1977) no salão da Câmara Municipal de Mindelo; a 6.ª, 7.ª, 8.ª e 9.º sessões (1978-1981) no salão Josina Machel, bem como as primeiras sete sessões da II Legislatura (1981-1984); as 8.ª e 9.ª sessões (1984-1985) no Centro Social 1º de Maio. Em outubro de 1985 foi inaugurado o Palácio da ANP. (Inf. organizada por Albertina Graça, Diretora dos Serviços de Documentação e Informação Parlamentar)

7 Após a independência a gestão do Liceu foi entregue a uma Comissão Diretiva presidida por Henrique Oliveira, que manteve as funções e o título de reitor. (Informação do próprio, 29/01/20)

8 “Subsídios para a memória do ISE”. In Carvalho, M. A. (2019). O ensino superior: génese e desenvolvimento.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 950 de 12 de Fevereiro de 2020. 

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Autoria:Adriana Carvalho,16 fev 2020 8:53

Editado porFretson Rocha  em  22 set 2020 23:21

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