Turismo de Cabo Verde: retoma ou continuação da queda?

PorVictor Fidalgo,25 abr 2022 9:29

Consultor e Promotor de Negócios
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​Como já é costume (positivo) o INE publicou o seu relatório sobre o estado do turismo em 2021 e a Inforpress trouxe ao público o resumo do documento, infelizmente, pela negativa, com o sensacional título:

“Em 2021, a hotelaria registou mais de 169 mil hóspedes, correspondendo a uma diminuição de 18,4% face ao ano de 2020”.

Para começar, em vez de “mais de 169 mil hóspedes” deveria escrever “apenas 169.068 hóspedes”. Já aqui, a diferença na mensagem é muito grande. A segunda frase permite interpretar que estamos a recuperar algo perdido e que continuamos ou pelo menos desejamos alcançar um nível mais elevado do alcançado até então. Mas o interessante é que no mesmo resumo do INE se afirma uma outra grande verdade e, quiçá, muito mais importante: “em todos os trimestres de 2021, verificaram-se acréscimos significativos nos hóspedes e nas dormidas face ao ano 2020, excepto no primeiro, que se verificou um decréscimo de 93,% e 97,4% respectivamente”.

Estas duas afirmações são verídicas, mas ao mesmo tempo, são aparentemente contraditórias ou difíceis de perceber, por muita gente, se quem de direito não se der ao trabalho de trazer uma análise ou explicação profissional, para o grande público. Recordamos que, na edição nº 1060 do semanário Expresso das Ilhas, de 23 de Março, o Ministro do Turismo e dos Transportes apresentou as grandes linhas do Programa Operacional do Turismo, onde os objectivos definidos baseiam-se no pressuposto que estamos em plena retoma do sector, deixando prever que esta tendência vai se manter. E isso é verdade. Aliás, o Ministro fixou o ambicioso objectivo de 1,26 milhões de turistas já em 2026. Além do aspecto quantitativo, o Ministro apontou também elementos qualitativos que enformarão o novo turismo que Cabo Verde pretende. Por isso, a retoma tem que ser dinâmica e robusta. Para o ser, os principais actores devem estar cientes dos seus deveres e acreditar nos objectivos e metas traçadas. O optimismo tanto dos investidores como dos operadores do sector é muito importante. Aqui, entendo que o Instituto do Turismo deveria dar-se um pouco ao trabalho de analisar os dados publicados pelo INE, e trazer uma explicação/interpretação correta para a compreensão do grande público, a fim de a confiança e a esperança se manterem firmes e focadas nos objectivos fixados pelo governo e corresponderem aos anseios do próprio cidadão comum. Digo isso, porque depois da crise da Covid-19, mesmo os céticos passaram a reconhecer o impacto positivo do turismo na vida de todos os caboverdianos, de Santo Antão à Brava. Aliás, hoje todas as ilhas querem cada vez mais turismo. E isso é muito positivo, constituindo um desafio para todos, Governo, Municípios, empresários e consumidores do turismo.

Afinal que se passa com a retoma?

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O quadro nº1 mostra-nos que entre 2012 e 2019, o turismo, à excepção do 2014, teve sempre um crescimento estável. A partir de 2014, a taxa de crescimento foi sempre igual ou superior a 7%, perfazendo uma média de 6% para o período e constituindo o principal motor da dinâmica do crescimento da economia nacional. Este crescimento robusto foi bruscamente interrompido, a partir de Março de 2020, com o lock-down mundial, forçado pela generalização global da Covid-19. O turismo parou em todos os países e Cabo Verde não poderia constituir uma excepção.

Se compararmos os anos económicos 2020 e 2019, houve de facto uma queda de -75%. Essa tendência para a queda, como não podia deixar de ser, continuou até ao 3ª trimestre de 2020. Em 2021, como diz o relatório do INE, houve uma queda de 18% com relação ao ano anterior. Vemos assim uma clara redução da tendência para a deterioração do fluxo turístico. E assim foi. As várias medidas de proteção e de confinamento tomadas pelo Governo, foram tão positivas que já no 4º trimestre de 2020, alguns operadores e hoteleiros solicitaram e obtiveram a autorização do Governo de Cabo Verde para uma abertura suave e progressiva do nosso mercado.

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Com efeito, o nível de fluxo turístico mais baixo atingido foi no 3º Trimestre de 2020, um fluxo de apenas 3.701 turistas. Mas no 4ª trimestre, tivemos um fluxo de 9.034, ou seja, um aumento de 144% comparado com o trimestre anterior. Muita gente se lembra da alegria que se via na cara das pessoas, na ilha do Sal e um pouco por todo Cabo Verde, com os primeiros sinais da retoma.

Se o 1º trimestre da 2021, com um fluxo de 12.357 representa ainda uma redução de -96% quando comparado com o 1º trimestre (homólogo) de 2020, também representa, simultaneamente, um crescimento de 37% quando comparado com o 4º trimestre de 2020. Mas já o 2º trimestre de 2021, com um fluxo de 21.357 turistas, representa um aumento de 308% quando comparado com o período homólogo de 2020 e também um aumento de 74%, comparado com trimestre anterior. Igualmente, o 3º trimestre de 2021, representa um aumento de 1181% quando comparado com o 3º trimestre de 2020 e também um aumento de 120%, em comparação com o trimestre anterior. A mesma tendência, se pode verificar no 4º trimestre de 2021. A variação com relação ao 4º trimestre de 2020 foi de 871% (variação homóloga) e de 85% com relação ao trimestre anterior.

Portanto, compilando os dados do INE e interpretando-os de forma dinâmica, a única conclusão a que podemos chegar é que desde o 4º trimestre de 2020, invertemos a tendência para a queda do fluxo turístico e entramos na retoma. Com efeito, nos últimos 5 trimestres, tivemos um crescimento médio de 92% do número de hóspedes. Aguardamos com ansiedade os dados do 1º trimestre de 2022. Sem pretender ser adivinho, ouso antecipar que haverá um crescimento tanto em comparação com o período homólogo (1º trimestre de 2021) como com o trimestre anterior (4º trimestre de 2021).

Assim, a grande questão que se põe é quando atingiremos e ultrapassaremos o nível pré-covid (819.308)? Possivelmente em 2024, atingiremos e poderemos até pensar em ultrapassar ligeiramente o nível de 2019. Pelos poucos projectos de investimentos turísticos em carteira não haverá um boom. Mas nota-se alguma tendência em certos hoteleiros em melhorar a qualidade dos seus estabelecimentos, o que permite prever maior receita por cama ou por turista. O impacto será directo nas receitas do Estado sob a forma do IVA e também nos gastos particularmente nos restaurantes e bares fora dos hotéis. Mas esta tendência, como tive a oportunidade de dizer na minha conversa com o Expresso das Ilhas, edição nº1062, do passado dia 6 de Abril, impõe-nos grandes desafios, no que concerne à melhoria urgente do ambiente físico, onde o nosso produto turístico está localizado. Por outras palavras, um hotel de 4,5 * ou 5* é incompatível com ruas degradadas, pardieiros visíveis nas ruas principais, cães vadios a deambular entre os turistas nas praias ou pelas portas dos restaurantes locais, à espera que um ou outro turista lhes dê um osso do frango que comeu ou mesmo um pedaço de carne.

Acreditamos que uma intervenção assertiva e coordenada das instituições do governo, das autoridades municipais e dos principais actores privados do sector permitirão uma retoma não simplesmente do produto anterior, mas de um produto de maior valor acrescentado num patamar superior e com maior retorno para os investidores e maior impacto económico e social para os caboverdianos. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1064 de 20 de Abril de 2022. 

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Autoria:Victor Fidalgo,25 abr 2022 9:29

Editado porA Redacção  em  25 mai 2022 9:19

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