Com a TDT “a concorrência passa a estar na qualidade do conteúdo”

PorAndre Amaral,8 mai 2021 8:07

O processo de transição do sinal de televisão analógico para o digital praticamente concluído. Nesta entrevista ao Expresso das ilhas, o PCA da Cabo Verde Broadcast aponta o que vai mudar no mercado televisivo nacional e destaca a possibilidade de surgimento novos canais de televisão tanto regionais como nacionais.

Em que fase estamos na transição do sinal analógico para a Televisão Digital Terrestre?

O processo está bastante avançado. Iniciámos o processo de desligar o sinal analógico no ano passado, aqui na ilha de Santiago, depois tivemos de o suspender e retomámos, recentemente, no dia 23 de Abril. Nesse dia o processo foi concluído aqui na ilha de Santiago, no Maio e em parte da ilha do Fogo. No dia 27 fechamos na ilha de São Vicente, Sal e São Nicolau e no dia 30 foi a vez de Boa Vista, Fogo e Brava e vamos terminar o processo de desligar o sinal analógico, dia 25 de Maio, em Santo Antão.

No fundo o que muda com esta transição para o digital?

A partir de agora as pessoas passam a ter televisão em sinal apenas digital. Todos têm que ter essa mudança do analógico para o digital para que possam continuar a ter o sinal da televisão em casa em sinal aberto.

Uma das fases deste processo é a aquisição das boxes. A transição é feita automaticamente?

Não há necessidade de qualquer subscrição. Como eu disse este é um projecto que visa a difusão de canais em sinal aberto para substituir o antigo sistema de televisão analógica em sinal aberto. E isto é feito automaticamente. Uma pessoa a partir do momento em que tiver o seu equipamento preparado em casa pode ser um televisor moderno, já com receptor digital integrado com a norma adoptada no país, automaticamente pode sintonizar o seu aparelho receptor e receber os canais que estão a ser difundidos. As pessoas com televisões mais antigas ou as televisões modernas que não são compatíveis com a norma adoptada cá em Cabo Verde devem adquirir um pequeno descodificador, também conhecido como box, para fazer essa transição.

Um dos problemas com o sinal analógico era a existência, em vários pontos do país, do que se chama de zonas sombra, sítios onde o sinal analógico não chegava. Isso vai desaparecer com a TDT?

Sim, o objectivo é esse mesmo. Tentar eliminar o maior número de zonas sombra possível. Com a televisão analógica havia muitas zonas onde o sinal não chegava e muitas vezes chegava apenas um ou dois canais. Com o digital é diferente, além de estarmos a alargar a cobertura levando o sinal onde nunca antes as pessoas tinham tido acesso à televisão. Agora levamos mais canais, além daquele canal ou dois canais que as pessoas estavam habituadas a ter, e com muito mais qualidade.

Uma das queixas que se têm ouvido em relação à TDT é que o sinal, mesmo aqui na Praia, tem algumas falhas e que a qualidade de som e imagem não é a melhor...

O sinal funciona perfeitamente. Aqui o problema está, por vezes, nas instalações nas casas das pessoas. Tem muito a ver com a qualidade da ligação. Se a antena é boa, se está bem direccionada, se a fixação está bem feita. É preciso ver se o próprio cabo está totalmente operacional ou se os conectores estão bem feitos. Se o conector não for bem ligado pode provocar curto-circuitos e isso faz com que o sinal vá abaixo. Outra coisa que temos aqui na cidade da Praia: há um outro operador que faz a difusão de canais em sinal aberto e esses canais têm uma qualidade muito menor que a nossa. Muitas pessoas confundem ao receber aqueles canais como se fossem da nossa plataforma. Esses sinais são transmitidos numa tecnologia mais antiga que é a DV BT1 enquanto a nossa é mais moderna, é a DV BT2, que é de segunda geração e mais avançada. A maior parte das televisões que temos no mercado nacional, os plasmas ou LCD, são compatíveis com essa norma antiga e não com a nossa. Então as pessoas, ao sintonizarem, apanham esses canais DV BT que vêm desse operador e que têm uma plataforma de oferta de televisão por assinatura mas que tem dois ou três canais em sinal aberto. As pessoas, muitas vezes, confundem esse sinal com a da TDT.

A TDT vem abrir a possibilidade para que surjam novos canais de televisão.

Sim, essa é a ideia. Fomentar o surgimento de novos canais. Tínhamos verificado que um dos grandes entraves para a entrada de novos operadores no mercado é a implementação de infraestruturas que são muito caras. E há pessoas interessadas em ter canais no mercado mas quando se deparam com a necessidade de implementar uma infraestutura a nível nacional reparam que os custos são enormes, elevadíssimos. E isso faz as pessoas pensar se de facto vale a pena avançar com a implementação de um projecto de televisão. Agora com a TDT as pessoas não têm de se preocupar com a infraestrutura. Só com a produção de conteúdos para o seu canal, porque esta plataforma que temos cá já permite que o operador faça a entrega dos seus canais e ao entregar o seu canal aqui na plataforma ele pode ser difundido a nível nacional em questão de segundos. Pode ser um canal de carácter regional ou nacional, tudo depende da licença que esse operador obtiver junto da autoridade competente.

Há também a possibilidade de transmissão de rádio, não é?

Sim. Há também essa possibilidade. Temos vindo a ter alguma experiência com algumas rádios que estão na plataforma. O processo é idêntico ao dos operadores de televisão. Desde que seja um operador devidamente licenciado pelas autoridades nacionais seja a rádio nacional ou regional pode ser integrado na nossa plataforma para ser difundido nas regiões onde tem autorização para ser difundido ou nacional se for essa a sua licença.

A Cabo Verde Broadcast, no fundo, cede espaço na plataforma para que os canais de televisão e as rádios transmitam. Isso tem custos para os operadores?

Sim. As empresas deixam de ter custos com as infraestruturas mas devem pagar uma taxa mensal ou semestral, conforme vier a ser definido. Estamos agora a tentar finalizar esses valores que devem ser pagos, porque há uma infraestrutura e há que ter condições para manter essa infraestrutura. Há os custos de manutenção, há sempre um equipamento que pode sofrer uma avaria, depois há os custos operacionais com os técnicos, com as deslocações. Há uma série de custos que devem ser cobertos, por isso cada operador deve pagar um certo valor mensal para colocar o seu canal ou o seu serviço na plataforma.

Em termos tanto de televisão como de rádio têm tido manifestações de interesse para a criação de novos canais de televisão?

Sim. A entidade competente tem recebido propostas. As pessoas têm interesse em ter mais canais de televisão em Cabo Verde.

Quanto a financiamento. Como é que a Cabo Verde Broadcast se financia?

O que está previsto como forma de financiamento é essa cobrança da taxa que falei e que os operadores devem pagar de forma mensal ou semestral conforme vier a ser acordado. Essa é uma das principais fontes de receita para manter a infraestrutura. Também temos uma pequena percentagem da taxa de audiovisual que as pessoas pagam mensalmente. Uma pequena parte é dirigida a nós.

Um dos objectivos da TDT é eliminar as antenas, mas isso não está a acontecer aqui...

A TDT não tem esse objectivo porque a TDT funciona vinculada com as antenas. Nós cá em Cabo Verde o grande objectivo é acabar com a proliferação de antenas. Por exemplo, aqui na Praia, com o sinal analógico, encontramos várias antenas numa só residência porque os canais estão dispersos...

Era dessas antenas que estava a falar.

Como temos os canais dispersos há uma antena para apanhar um sinal e depois temos outra para apanhar outro canal e assim sucessivamente. Com o digital há apenas uma antena que, bem direccionada, recebe todos os canais em pé de igualdade e com melhor qualidade. Isto vai ajudar a acabar com a proliferação de antenas que temos nos centros urbanos sobretudo.

A TDT vem mudar paradigma da televisão em Cabo Verde?

Sim, de certa forma. Porque, como já referi, grande parte do território nacional recebia apenas um ou dois canais e agora passa a ter mais do que um. Antes, na maioria das vezes, os canais não chegavam a algumas localidades e com a TDT isso muda, porque além de chegarem mais canais todos chegam com a mesma qualidade. Antes o factor cobertura era um factor de angariação de publicidade. Agora todos os operadores passam a ter o mesmo nível de cobertura e a concorrência passa a estar na qualidade do conteúdo. Os operadores passam apenas a concentrar-se na qualidade de produção dos seus conteúdos a serem difundidos, porque já não podem competir na cobertura que passa a ser igual para todos.

Esta transição obrigou também a mudanças por parte dos operadores, não foi?

Sim. À partida os operadores deixarão de preocupar-se com as infraestruturas e passam a preocupar-se apenas com a produção de conteúdos. Se antigamente um tinha mais cobertura que o outro isso agora deixa de existir. Os operadores devem ter um novo foco para poderem atrair os telespectadores com programas muito mais atractivos.

A mudança a que me referia era em termos técnicos. Também teve de haver uma transição, por exemplo, para estúdios digitais.

Tem sido um processo que tem vindo a ser feito de forma progressiva. Os operadores também têm vindo a modernizar os seus estúdios de forma a acompanhar a evolução tecnológica e a televisão que temos hoje já não é a mesma que tínhamos há cincou, seis ou sete anos atrás. Desde que este projecto da TDT começou as operadoras têm procurado digitalizar as suas infraestruturas para acompanharem este processo, até porque de outra forma seria um pouco mais complicado.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1014 de 5 de Maio de 2021.

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Autoria:Andre Amaral,8 mai 2021 8:07

Editado porSara Almeida  em  23 set 2021 23:20

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