É preciso fazer acontecer o Plano Nacional de Leitura

PorAntónio Ludgero Correia,1 ago 2022 8:16

“… ocasionalmente, sob a influência da tentação, até mesmo o melhor entre nós adia os prazeres mais elevados em favor dos mais simples. Todos nós, por vezes, cedemos ao impulso da preguiça.” John Stuart Mill

Tive acesso ao Plano Nacional de Leitura e tive o privilégio de fazer o papel de debatedor em um painel montado na Sala de Leitura da Livraria Pedro Cardoso.

O Plano me pareceu ser um ótimo instrumento de trabalho. Com backdoors que permitem novas entradas para o seu aprimoramento; a ideia de comissões para avaliar os livros que receberão o selo PNL; o balaio de Sophia (uma cesta de livros selecionados para as bibliotecas escolares); etc.

Estou convicto, porém, de que para além da deslocação dos livros até aos potenciais leitores serão também necessárias ações tendentes a atrair os candidatos para o livro e para a leitura, a modos de casar a disponibilização dos livros e dos facilitadores de leitura com um certo desejo, uma certa ânsia, uma boa motivação, capaz de levar o público-alvo a se mover em direção ao livro e a se disponibilizar para a leitura.

E creio também que, sendo o PNL uma iniciativa do Estado, não poderá cair na tentação de segmentar os utentes. Os destinatários não poderão ser apenas aqueles que integram o sistema de ensino. Para que o Plano seja efetivo deve estender sua ação também àqueles que, por vicissitudes várias, se encontrem forem do sistema, não importando se foram alijados ou se se atiraram borda fora. Daí que mais do que bibliotecas escolares haverá necessidade de bibliotecas públicas municipais, o que faria das Câmaras Municipais parceiras incontornáveis do Plano Nacional de Leitura e conferindo ao Poder Local um papel ainda mais determinante do que aquele que vem preconizado na versão atual do PNL.

Mas o maior problema é que, por aqui, os planos, por melhores que pareçam ser, não chegam a dar bons frutos. Aliás, os resultados chegam a estar na contramão das expectativas geradas.

Vejamos as lutas que temos travado contra três grandes VÍCIOS.

Na luta contra o Tabaco, por exemplo, utiliza-se, inclusive, a chamada, no maço, em letras garrafais, ‘FUMAR MATA’. Mas continua a haver fumantes, muitos fumantes, e começa-se bem cedo no vício. A verdade é que não se fuma menos, apesar das mazelas deixadas pelo vício da nicotina: bolsos se esvaziando, pulmões se deteriorando, bafo-de-onça, and so on.

Na luta contra o abuso do álcool, e apesar do relativo sucesso da campanha lançada pela Presidência da República – MENOS ÁLCOOL, MAIS VIDA, a verdade é que se continua a abusar do álcool, começa-se a beber cada vez mais cedo, enfim, um pacote de constatações estatísticas que nos deixam de cabelo em pé: absenteísmo, a cirrose hepática, a convulsão nos lares, crises de caráter, a demência, etc. E, claro, o bafo-de-onça que afasta a parceira (ou o parceiro) do leito.

E no que concerne à luta contra o consumo de substâncias psicotrópicas, nem leis mais duras, nem ações policiais, nem a perda de património e, não raras vezes da própria vida, desmobilizam traficantes e consumidores. Apesar do preço relativamente alto dos produtos, mormente para os padrões locais, assiste-se ao incremento de gente comprando e vendendo drogas. Da mais inofensiva como a cannabis ao mais viciante como o crack, o consumo continua, mau grado a ação de ONGs que buscam apoiar aqueles que caíram nas malhas das substâncias psicotrópicas.

Já o cenário em relação a VIRTUDES se manifesta o inverso.

As diversas campanhas em favor do livro e da leitura, com destaque para a campanha presidencial LER MAIS, PARA ESCREVER E FALAR MELHOR, não conseguiram atrair mais pessoas para o livro e para a leitura. Vem agora o Plano Nacional de Leitura, que promete, mas que nos leva a ponderar acerca do que fazer, DESTA FEITA, para passarmos do plano das intenções para uma realidade em que se leia mais e se comece a ler mais cedo. Que, por aqui, a beleza do plano não garante nada. A não ser que queiramos, de forma visceral, que o PNL aconteça. Vamos, portanto, ter de ousar, de pensar fora da caixa, para fazer o plano acontecer.

Porquê os vendilhões de vícios continuam atraindo fregueses, apesar das campanhas oficiais, e não só, contra o tabaco, o álcool e as drogas?

Porque é que o livro não penetra, a leitura não avança, apesar das campanhas oficiais, e não só, sendo certo que ninguém – NUNCA, JAMAIS e EM TEMPO ALGUM – tenha feito campanha contra?

Pode chocar que se ponha TABACO, ÁLCOOL, DROGA e o LIVRO E A LEITURA em pratos de uma mesma balança, mas creio que precisamos ser chocalhados de forma a que sejamos capazes de questionar as nossas estratégias e os nossos métodos, tendo presente as estratégias dos vendilhões de vícios.

Independentemente do que se possa pensar das estratégias e dos métodos desses vendilhões, a verdade é que eles têm sido bem mais eficazes. Têm levado a água aos respetivos moinhos, apesar da oposição das autoridades e das ONGs.

E que métodos são esses?

No que ao tabaco diz respeito, as primeiras “passas” são oferecidas gratuitamente; facilmente se acha alguém que oferece um cigarro; se não se tem dinheiro para um maço de tabaco, sempre se pode comprar “um” cigarro. Aos candidatos ao vício é estendido um tapete vermelho.

No que se refere ao álcool, é tudo muito idêntico: nhu toma un kuza li (de borla, of course); nas fornalhas a falta de dinheiro não chega a ser obstáculo ao consumo, já que ali o grogue é oferecido gratuitamente; com 10$ se consegue uma dose generosa de aguardente, em boa verdade uma zurrapa pouco menos que intragável; enfim, entrada franca para o vício. E foi um Deus nos acuda quando Luis Cabêlo anunciou que o grogue ia acabar no dia 15. Os aficionados respiraram de alívio quando descobriram que se estava perante um “fake news”.

As drogas. É consabido que as primeiras doses são oferecidas, GRATUITAMENTE, aos potenciais consumidores. Pode-se estranhar, no começo, mas quando entranha… a solução é comprar para continuar a consumir: ‘dja nhu odja ma kuza ta funsiona; gosi gô, si nhu krê un doza nhu tem ki kunpra’. E nasce um novo acólito.

Estes métodos são condenáveis? Pode-se até achar que sim.

Mas, funcionarão para o bem? Para a democratização do livro e para a promoção da leitura, por exemplo? Pourquoi pas?

Gosto do Plano e desejo que o Plano Nacional de Leitura aconteça. O que fazer? Pessoalmente, desceria aos infernos, e voltava, se isso fosse determinante para o sucesso do plano, para que os livros certos cheguem às pessoas, na hora certa, e que elas estejam motivadas para começar a ler.

A bola agora com os cidadãos, para a sua contribuição sobre a melhor forma de fazer o PNL acontecer. Que não basta ler o plano, cruzar os dedos e esperar que tudo dê certo.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1078 de 27 de Julho de 2022. 

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Autoria:António Ludgero Correia,1 ago 2022 8:16

Editado porAndre Amaral  em  16 ago 2022 9:20

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