A guerra na Ucrânia e o tabuleiro mundial geopolítico

PorJosé da Graça,3 out 2022 7:41

Estamos perante um mundo em mudanças. A afirmação com que iniciamos este artigo pode parecer corriqueira. No entanto, ela decorre de uma realidade cujas raízes são bem mais profundas e complexas do que aquelas que um olhar menos atento pode abranger.

Nos últimos anos, as grandes dificuldades que o mundo tem enfrentado, apenas desnudam as fragilidades e limitações da nossa capacidade de resposta, aos desafios constantes que se nos colocam nas mais diversas áreas.

O assunto que trazemos hoje para análise, prende-se com alguns aspetos do mundo atual e da vida internacional, esta, visivelmente, em profundas alterações, de algum tempo a esta data.

Escolhemos como ponto de apoio a nossa análise, para este artigo: a Guerra na Ucrânia.

Sabemos, no entanto, que existe a tentação, do ponto de vista metodológico/analítico, de se olhar para um fato e procurar racionalizá-lo de uma forma muito episódica, expugnando-o do seu contexto conjuntural e até estrutural.

Propomos aqui analisar a referida guerra, sobretudo, com a preocupação de a inserir, num contexto mais vasto de múltiplos acontecimentos, mergulhando-nos na profundidade das suas causas, num exercício que nos obriga a alargar a dimensão temporal e a evitar o aprisionamento no tempo curto, na perspetiva do malogrado e conceituado cultor da História Nova, Fernand Braudel. Contudo, não deixaremos de olhar para os aspetos que lhe são mais imediatos.

Escusado será dizer, pois, que nessa tentativa de racionalização, a História constituirá um dos nossos recursos basilares.

Ligamos a essa forma de abordagem dos acontecimentos uma outra, a que nos é dada pelo prisma da Geopolítica, esta disciplina importante, mas, muitas vezes incompreendida e odiada, e por outras mal utilizada, quando não grosseiramente manipulada, porém indispensável para a compreensão das questões internacionais.

De facto, sem a Geopolítica não podemos entender, de todo e com a profundidade necessária, o comportamento internacional dos Estados, estes que, indiscutivelmente, continuam a ser os principais atores do sistema internacional, mas, sobretudo perceber o daqueles com efetivo poder estrutural, capaz de tornar disfuncional o sistema internacional vigente, aceitando a aplicação da teoria dos sistemas às circunstâncias da vida no mundo.

Podemos afirmar que apenas se pode compreender a Guerra na Ucrânia, também, com recurso à História, procurando, por essa via, inseri-la num quadro mais alargado, no tempo e no espaço, a fim de reconstituir a conjuntura sobre a qual queda, num contexto em que se toma em consideração um rol de acontecimentos e visões que têm animado a política internacional, de alguns anos a esta data, os quais podemos ir buscar as suas causas na Primeira Guerra Mundial, causas essas acentuadas pela Segunda Guerra Mundial e, mormente, durante o período da história da Humanidade, denominado Guerra-fria.

O que se passa neste momento, na Europa de Leste, só poderá ser, pois, compreendido, com base numa racionalidade assente nestas premissas.

Senão, vejamos.

Com a Primeira Guerra Mundial, assistimos, na Europa do Leste e Central, a umas profundas alterações políticas, marcadas, essencialmente, pela fragmentação de dois grandes impérios, o Otomano e o Austro-Húngaro, a par de dois fatos, também, importantes: o desaparecimento do Czar de todas as Rússias e a derrota militar de uma Alemanha que ficou de «rastos».

Estavam assim criadas condições ideias para que, nestas regiões do mundo, antigamente subordinadas a poderes centrais fortes, viessem a surgir situações políticas muito complicadas, motivadas, essencialmente, por disputas territoriais, exacerbadas por motivações étnicas de cunho marcadamente nacionalista, condimentos de que o pan-eslavismo e o pangermanismo se tornaram exemplos incontornáveis.

Se considerarmos a Segunda Guerra Mundial um corolário da Primeira, pelo contexto criado pelos armistícios e ressentimentos deixados, como a História nos ensina, ela não poderia deixar de imprimir as suas consequências a nível das relações internacionais e da política mundial.

Esse conflito, de efeitos e extensão internacionais, afetou sobremaneira a estrutura de poder do sistema internacional e, por arrastamento, o comportamento dos atores internacionais de natureza estatal, mormente aqueles possuidores do poder estrutural, na linguagem académica de Susan Strange (1997).

O que se seguiu após o término da Segunda Guerra Mundial e o início da chamada Guerra-fria, com contornos definidos e bem vincados, a partir do ano de 1947, ajuda-nos a entender o que se passa neste momento na Europa de Leste, tendo como elemento central de análise a Guerra na Ucrânia.

Na verdade, este conflito explicável, sobretudo, por resultantes de abordagem geopolítica, e estamos já, também e obviamente, no domínio da geoestratégia, desenvolve-se, indiretamente, entre dois grandes atores internacionais, a Rússia e os EUA, apresentando-se como a continuação do embate geopolítico entre estes, agora por “meios quentes”, ou seja, pela via do empenhamento de meios militares em larga escala, tendo como palco o território ucraniano.

Gostaríamos de deixar claro que não queremos, com isso, dizer que se trata de um conflito militar direto entre o Estado Norte Americano e a Federação Russa. Longe disso. Contudo é evidente um forte empenhamento dos EUA para que as forças ucranianas tenham melhores desempenhos no teatro das operações contra as tropas enviadas por Kremlin.

Impõe-se-nos, antes de continuarmos, a revisitarmos, um pouco a História, em busca de fatos que nos poderão ajudar na elucidação de aspetos da nossa análise. A conflitualidade internacional das últimas oito décadas, aproximadamente, como a Polemologia nos tem ensinado, mostra-nos que a partir de um determinado momento nascia um novo conflito na arena internacional, animado pelo afrontamento geoestratégico, sem choques bélicos diretos, entre as duas grandes potências sobrantes da Segunda Guerra Mundial, os EUA e a URSS.

O pomo da doutrina norte-americana, e é bom que isso seja aqui referenciado, no pós-guerra e no quadro do embate geoestratégico com a União Soviética, durante a dita Guerra-fria, era o de procurar fixar esta unidade política “comunista”, no centro do continente euroasiático-mackinderiano, impedindo-a de expandir-se, sobretudo para os territórios a ocidente e para zonas ribeirinhas, evitando, assim, que alcançasse o mar quente e aberto, e, por conseguinte, águas navegáveis, fundamentais para a projeção de poder e de força além-fronteiras.

Escusado será dizer, pelas suas ações, que os EUA temiam o surgimento de uma potência que pudesse representar um desafio efetivo e poderoso ao seu projeto global de potência de alcance mundial, numa altura em que a URSS parece saber interpretar esse papel de potência desafiante.

Aceitar que isso pudesse acontecer era admitir a necessidade de tudo fazer para que a União Soviética nunca viesse a representar o tal risco importante para a América do Norte, na consecução dos seus grandes objetivos estratégicos, na cena mundial e na manutenção da sua hegemonia internacional. Nada, entretanto, que, geopolíticos como Mahan (1840-1914) e Mackinder (1861-1947), lá atrás no tempo, não tivessem alertado a potência do mar, na sede das teorias por eles tecidas.

Spykman (1893-1943), contudo, foi quem viria a desenhar a teoria em que acabaria por assentar toda a estratégia norte­-americana do pós-Guerra. É ele que, baseado no longo telegrama do Sr. X, emitido a partir de Moscovo e dirigido à Casa Branca, criou as bases para um racional de resposta e reações a qualquer tentativa de expansão da União Soviética, para o entorno marginal do continente euroasiático-mackinderiano e, a partir daí, estabelecer zonas de influência e pontos de apoio, em diversas regiões do globo, favoráveis ao seu expansionismo.

Se Mackinder, logo após a Primeira Guerra Mundial, já afirmava que o «Oeste da Europa e a América do Norte» constituíam uma comunidade com fins estratégicos comuns contra o poder terrestre, num contexto em que a URSS já é identificada como aquela potência desafiadora, com a teoria e propostas spykmanianas, inspiradas em Mahan e Mackinder, com maior clareza os EUA começaram a ver que era através de “comunidades com fins estratégicos comuns” que poderiam isolar o bloco soviético. Foi, assim, que declaradamente, puseram em marcha a sua estratégia para fazer frente às «pretensões» de Moscovo.

A criação de organizações político-militares, nomeadamente, a NATO (OTAN), o CENTO e o SEATO, patrocinadas pelos EUA e abraçadas pelos seus aliados europeus e asiáticos, demonstra isso, num contexto em que se afirma a doutrina de contenção, containment, que tinha como objetivo central impedir que a URSS rasgasse a marginal da grande massa terrestre mackinderiana, em direção ao mar aberto, e assim ter o mundo à sua frente.

E nesta guerra contra a Ucrânia, perpetrada pela Rússia, estes aspetos estão assaz presentes. A ação da Rússia é evitar que a NATO se instale no que considera ser o seu “vizinho próximo”, uma região da Europa Oriental que lhe é muito cara, na perspetiva de Kremlin, e na qual procura impor a sua hegemonia.

Tal instalação, pela via do alargamento, representa para a Rússia, aquilatando dos seus pronunciamentos oficiais, uma inequívoca amputação estratégica a si mesma, pois teria às portas a presença do seu arqui-inimigo a cercá-la, o que poderia significar uma ameaça de monta a sua segurança e a sua pretensão de ser um player com poder de influência regional e a nível mundial. E é importante termos em consideração a forma como, ao longo da história, os russos têm reagido aos cercos perpetrados por outras potências, essa forma de reação que deu origem a tese denominada: complexo russo aos cercos.

Ora, os EUA, conscientes do desafio que a Rússia representa para a política internacional da Casa Branca, procuram aproveitar todas as janelas de oportunidade para a enfraquecer estrategicamente, impedindo-a, com o seu inequívoco poderio militar, de desencadear ações que possam perigar a sua hegemonia internacional, conseguida desde o fim da Segunda Guerra Mundial, mas sobretudo e de modo mais marcadamente e inequívoco, a partir da implosão da URSS, em 1990/91, altura em que os EUA passam a constituir a única superpotência restante, inaugurando, portanto, uma nova ordem mundial, de feição unipolar.

É neste quadro de acontecimentos, anteriores e recentes, que a Guerra na Ucrânia deve ser racionalizada, pois o que a Rússia e os EUA procuram são vantagens geopolíticas e geoestratégicas. Washington pretenderá fixar a Rússia na sua atual expressão territorial, num exercício que não é mais do que a continuação da sua estratégia de contenção à epirocracia (potência terrestre, neste caso a Rússia) iniciada no início da Guerra-fria.

A Rússia, por sua vez, esforça-se para expandir a sua influência na Europa Oriental, agindo energicamente no sentido de ver aumentada a sua profundidade estratégica, numa manobra que lhe garanta maior capacidade defensiva e efetiva saída para o mar, através do Sul da Ucrânia, o que envolve, obviamente, a captura da Crimeia e de importantes portos de águas profundas na zona, como os de Odesa, Mykolaiv, Kherson e Mariupol.

E para nós, a conquista do Donbass constituiria o tal corredor estratégico que permitiria a criação de uma espécie de buffer zone, em caso de um conflito armado com o Ocidente e, ainda, possibilitaria a ligação, por terra, de Moscovo à Crimeia e a portos importantes, proporcionando a utilização, sem constrangimentos de maior, do Mar Negro e de Azov, determinantes para o seu projeto geopolítico de projeção além-fronteira.

Na nossa perspetiva, reside aqui a razão fundamental pela qual a Rússia invadiu a Ucrânia e tomou a decisão, muito recente, de proceder ao refendo, embora muito contestando pelo mundo livre, em Donetsk, Lugansk, Zaporíjia e Kherson, com o intuito de associar esses oblasts ao da Federação Russa, numa tática política semelhante a aplicada, em 2014, em relação à Crimeia.

Com o discurso de Putin de 21 de setembro, inaugura-se, indiscutivelmente, uma nova fase da guerra na Ucrânia. A decisão da mobilização parcial de trinta mil reservistas e a referência à possibilidade da utilização de todos os meios bélicos ao seu alcance para alcançar os seus objetivos estratégicos, nesta guerra (presumimos a hipótese do uso de armas nucleares táticas), parecem fazer escalar a guerra e denunciam claras dificuldades que as forças russas estão tendo no terreno. Pelo que temos percebido da atitude russa, em relação a esse conflito, as palavras do presidente russo devem ser encaradas com toda a seriedade. Um qualquer erro no xadrez político-estratégico, poderá ser perigosíssimo para o mundo.

Prometemos continuar a desenvolver este assunto, trazendo novos elementos à volta desta problemática. Assim, no próximo artigo, procuraremos, para além de outros aspetos sobre o já visto, discorrer um pouco sobre os efeitos geopolíticos dessas ocorrências internacionais no Atlântico e como o arquipélago se apresenta, neste contexto, do ponto de vista geoestratégico. 

José da Graça, Tenente-coronel na reforma e Mestre em História, Defesa e Relações Internacionais

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Autoria:José da Graça,3 out 2022 7:41

Editado porAndre Amaral  em  3 dez 2022 23:27

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