Claridade e a Invenção de um Olhar Próprio

PorManuel Brito-Semedo,9 fev 2026 10:10

Depois de evocar a palavra como condição de liberdade e de regressar ao tempo em que pensar já era um acto de coragem, importa dar um passo mais fundo: compreender Claridade não apenas como revista ou geração, mas como o gesto intelectual que ensinou Cabo Verde a olhar-se a partir de si próprio.

A revista Claridade não foi apenas um acontecimento literário. Foi um gesto intelectual fundador num tempo em que pensar Cabo Verde a partir de si mesmo implicava romper silêncios, enfrentar convenções e contrariar leituras impostas. Num contexto colonial marcado pela escassez material, pela marginalidade política e pela invisibilidade cultural, Claridade representou uma tomada de palavra que foi, desde o início, um acto de coragem.

Mais do que propor uma estética, os claridosos inauguraram uma atitude: olhar a sociedade cabo-verdiana na sua concretude histórica, recusando explicações abstractas e essencialistas. É nessa atitude – mais do que em textos isolados – que reside o seu legado mais duradouro. Lida à distância, Claridade pode ser compreendida como o primeiro grande momento de uma leitura crioula do país, ainda antes de o conceito se tornar corrente.

Esse gesto ganha maior relevância quando se compreende o lugar periférico que Cabo Verde ocupava no imaginário colonial português. Não apenas como colónia menor em termos administrativos ou económicos, mas como espaço frequentemente tratado como excepção, desvio ou apêndice. Pensar Cabo Verde “por dentro” era, por isso, um acto de afirmação intelectual que rompia com a lógica de tutela simbólica imposta pela metrópole.

Pensar o país a partir da experiência

Quando Claridade surge, em 1936, Cabo Verde era frequentemente descrito a partir de fora: como colónia menor, espaço de transição, território sem densidade própria. A literatura produzida até então oscilava entre o exotismo folclorizante e a acomodação aos cânones metropolitanos. Faltava uma escrita capaz de assumir o quotidiano cabo-verdiano como matéria legítima de reflexão crítica.

O exotismo, ao transformar a realidade insular em curiosidade pitoresca, esvaziava-a de densidade histórica. A acomodação, por sua vez, reproduzia modelos estéticos e temáticos alheios, anulando a possibilidade de uma voz própria. Contra este duplo impasse, Claridade introduz uma ruptura silenciosa, mas profunda: escreve-se sobre o que se vive, com as palavras que a experiência exige.

Os claridosos escreveram sobre a seca, a fome, a emigração, a insularidade e a língua do povo. Ao fazê-lo, deslocaram o centro da enunciação. Cabo Verde deixou de ser objecto de descrição e passou a ser sujeito de pensamento. Este deslocamento é decisivo: inaugura uma leitura do país a partir da experiência vivida, não de modelos importados.

A presença recorrente da seca e da fome nos textos claridosos não corresponde a um gosto pelo miserabilismo. Trata-se de reconhecer esses fenómenos como dados estruturantes da experiência histórica cabo-verdiana. A seca surge como condição que molda comportamentos, relações sociais e formas de imaginação; a fome, como experiência colectiva que organiza memórias, deslocações e estratégias de sobrevivência. Ao nomear o real sem o embelezar nem o esconder, Claridade inscreve a literatura no campo do conhecimento social.

Mais do que denunciar, a escrita claridosa observa. Mais do que proclamar, descreve. Essa escolha confere à revista uma força crítica particular: a crítica nasce da atenção ao real, não da retórica ideológica. Trata-se de uma ética do olhar, que devolve dignidade intelectual ao quotidiano cabo-verdiano.

Crioulidade em acto: língua, literatura e sociedade

É significativo que os claridosos raramente utilizem o termo crioulidade. Ainda assim, o que fazem é profundamente crioulo no sentido histórico do termo. A atenção à oralidade, à língua crioula, à adaptação social e à ambivalência identitária revela uma compreensão intuitiva da sociedade cabo-verdiana como resultado de processos de crioulização.

Baltasar Lopes insistia que o cabo-verdiano não se explicava por uma origem abstracta, mas pela história concreta que o formara – uma história feita de adaptações, resistências e reinvenções constantes. Esta leitura desloca o problema da identidade do campo da genealogia para o da historicidade, antecipando leituras posteriores que viriam a conceptualizar a crioulidade como estrutura social.

A crioulidade, em Claridade, não é celebrada nem tematizada como identidade fechada. Ela é vivida e observada. Surge nas relações sociais descritas, na forma como os personagens falam, nas tensões entre partida e permanência, entre ilhas e mundo. É uma crioulidade em acto, não em discurso.

Um dos gestos mais ousados de Claridade foi a valorização da língua crioula como expressão legítima da experiência cabo-verdiana. Num contexto colonial em que o português era imposto como única língua de prestígio, a atenção à oralidade representava um desafio simbólico profundo. A língua crioula aparece nos textos claridosos como arquivo vivo da experiência social, meio privilegiado de afectos, ironias e resistências.

Este gesto não é isento de ambivalência. A escrita permanece maioritariamente em português, reflectindo as condições históricas do momento. Mas a presença do crioulo, mesmo fragmentária, sinaliza uma ruptura decisiva: a legitimidade do vivido não depende da língua do poder.

Outro traço essencial de Claridade é a recusa da separação rígida entre literatura e conhecimento social. A poesia, o conto e o ensaio funcionam como formas de compreensão da realidade. A literatura não ilustra a sociedade: pensa-a. E fá-lo com instrumentos próprios, capazes de captar nuances que escapam ao discurso puramente académico ou administrativo.

Herança, limites e actualidade de um gesto fundador

Reconhecer o carácter fundador de Claridade não implica ignorar os seus limites. A revista nasce num contexto colonial e carrega as marcas do seu tempo: silêncios sobre certas violências, ausência de algumas vozes, prudência política inevitável. A coragem claridosa foi real, mas historicamente condicionada.

Não se trata de julgar retrospectivamente, mas de compreender. Claridade não podia dizer tudo, nem dizer tudo de uma vez. O seu gesto foi progressivo, feito de avanços cautelosos e de deslocamentos subtis. A crítica política explícita era limitada, mas a crítica cultural foi profunda.

A leitura contemporânea de Claridade deve evitar dois equívocos: vê-la como expressão de um africanismo precoce ou como gesto de afastamento de África. A africanidade, tal como viria a afirmar-se no pós-independência, responde a um tempo histórico diferente. Claridade opera noutro registo: o da observação da sociedade tal como ela se constituiu, no cruzamento entre África, Europa e Atlântico. A crioulidade emerge como forma histórica de mediação, não como escolha ideológica.

É essa leitura que explica a permanência de Claridade como referência incontornável. Não porque ofereça respostas fechadas, mas porque inaugura um método: pensar a partir da experiência, recusar essencialismos, habitar a ambivalência.

É aí, talvez, que Claridade mais nos interpela.

Não como passado encerrado, mas como provocação. Num tempo marcado por novas formas de simplificação identitária e por leituras apressadas da história, o seu legado lembra que a complexidade não é fragilidade, mas condição de verdade.

Conclusão

Claridade foi o momento em que pensar Cabo Verde se tornou possível como acto intelectual autónomo. Sem conceitos acabados, sem programas ideológicos fechados, os seus autores inauguraram uma forma de leitura do país assente na experiência histórica, na mediação cultural e na dignidade do quotidiano.

Nesse sentido, Claridade pode ser lida como o primeiro grande ensaio colectivo sobre a crioulidade cabo-verdiana – ainda sem nome, mas já em prática. O seu legado maior não está nas respostas que deu, mas na pergunta que deixou aberta: como pensar um país a partir de si mesmo, sem o reduzir nem o idealizar?

Essa pergunta permanece. E continua a exigir, hoje como ontem, coragem intelectual.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1262 de 04 de Fevereiro de 2026.

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Autoria:Manuel Brito-Semedo,9 fev 2026 10:10

Editado porAndre Amaral  em  9 fev 2026 10:10

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