Cabo Verde e a hora crioula

PorManuel Brito-Semedo,2 mar 2026 8:41

​A realização, em finais de Maio, da primeira Cimeira das Nações Crioulas por iniciativa da Presidência da República sugere que Cabo Verde entra numa nova fase da sua reflexão sobre a crioulidade.

Mais do que um encontro internacional, o momento convida a pensar se essa experiência histórica, durante muito tempo tratada sobretudo pela literatura e pelo ensaio, poderá tornar-se referência para a acção política e para a projecção atlântica do país.

Entre a memória e a celebração

Visto das ilhas, onde o horizonte é sempre mar e distância, o calendário adquire uma espessura própria. A anunciada Cimeira das Nações Crioulas, prevista para finais de Maio por iniciativa da Presidência da República, confere a esse tempo um significado que ultrapassa a circunstância diplomática. A realizar-se entre a memória da liberdade evocada em Abril e a celebração da independência em Julho, a cimeira situa-se simbolicamente nesse intervalo em que o país se pensa antes de se celebrar. É um tempo de balanço discreto, em que a memória ainda pesa e o futuro ainda não se fixou.

Colocar a crioulidade nesse horizonte temporal sugere a intenção de a situar não apenas no plano cultural, mas também no da consciência histórica do país. Durante muito tempo, foi sobretudo palavra da literatura, da reflexão ensaística e da antropologia – uma palavra que ajudava a compreender quem éramos quando ainda não sabíamos bem como dizer-nos. A sua entrada no vocabulário institucional do Estado indica uma deslocação significativa: aquilo que servia para interpretar o passado começa a ser convocado para orientar o futuro. Essa deslocação não é neutra, porque implica transformar uma categoria de interpretação numa categoria de acção.

O facto de a iniciativa partir da Presidência da República transforma o encontro num gesto de Estado. A crioulidade atravessa, assim, a distância entre a página escrita e a esfera do poder, passando da conversa intelectual para a linguagem das instituições. Esse movimento pode ser lido como reconhecimento de uma experiência histórica que sempre definiu Cabo Verde: a arte de viver entre mundos, de transformar a escassez em invenção e a distância em relação, de fazer da vulnerabilidade uma forma de adaptação.

Mas a data também aconselha prudência. Maio situa-se num tempo intermédio do calendário simbólico nacional e recorda que a crioulidade não é um conceito abstracto, mas resultado de processos históricos densos, feitos de encontros, conflitos e adaptações sucessivas. Se o encontro souber preservar essa complexidade, poderá abrir caminhos de diálogo entre sociedades que partilham experiências semelhantes. Caso contrário, arrisca-se a reduzir uma história exigente a uma fórmula diplomática.

Da palavra à política

Uma das questões que a cimeira inevitavelmente coloca é a passagem da crioulidade do plano da palavra para o da política. Durante décadas, funcionou sobretudo como chave de leitura do país e da sua formação histórica. A possibilidade de se tornar referência de cooperação internacional traduz uma mudança de escala que exige cautela e lucidez, num contexto global marcado por tensões identitárias e reconfigurações geopolíticas.

Por um lado, pode favorecer a criação de redes de colaboração nas áreas da educação, da cultura, da investigação e da mobilidade académica. Por outro, pode expor o conceito ao risco de simplificação, transformando uma realidade histórica complexa num rótulo demasiado amplo. A crioulidade sempre resistiu a definições estreitas porque nasce de processos abertos e inacabados, como o próprio percurso das ilhas, onde cada geração reinventa a herança recebida.

Cabo Verde tem, contudo, condições singulares para promover esse diálogo. Pela sua história, pela extensão da sua diáspora e pela sua posição atlântica, o arquipélago habituou-se a existir como lugar de passagem e de encontro, onde nada chega intacto e tudo se transforma. A cimeira poderá reforçar essa vocação, afirmando o país como ponto de convergência entre sociedades que aprenderam a viver na intersecção de culturas e línguas, entre pertença local e circulação global.

Uma oportunidade atlântica

Realizada nesse período, a cimeira pode contribuir para afirmar Cabo Verde como espaço de encontro entre culturas crioulas dispersas, reforçando a sua vocação atlântica – esse lugar onde as ilhas sempre aprenderam a fazer do mar não uma fronteira, mas uma ligação. O essencial será que a crioulidade não surja apenas como tema de discursos, mas como princípio orientador de iniciativas concretas, capazes de traduzir a memória em projecto e a afinidade cultural em cooperação efectiva.

Se conseguir transformar em cooperação duradoura aquilo que hoje surge como intenção política, o encontro poderá marcar um novo momento na forma como o país se relaciona consigo próprio e com o mundo. Caso contrário, ficará como mais um episódio simbólico, lembrado apenas pelo calendário, sem alterar as dinâmicas profundas que moldam o espaço atlântico.

No fundo, a escolha de finais de Maio recorda que a crioulidade continua a ser uma experiência em construção, feita de memória e de expectativa. Talvez seja isso que melhor a define: uma maneira de habitar a distância sem a deixar tornar-se ausência, de viver entre margens sem renunciar à procura de um centro. Como as ilhas, separadas e ligadas ao mesmo tempo, a crioulidade existe nessa tensão entre dispersão e pertença.

Talvez a hora crioula de que agora se fala seja, antes de tudo, a de um país que aprende a reconhecer-se na sua própria travessia. Como as ilhas, separadas e ligadas ao mesmo tempo, Cabo Verde continua a procurar o seu centro entre a memória e o futuro.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1265 de 25 de Fevereiro de 2026.

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Autoria:Manuel Brito-Semedo,2 mar 2026 8:41

Editado porAndre Amaral  em  2 mar 2026 9:19

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