Reimaginar, Cabo Verde e a narrativa das Grandes Nações Oceânicas

PorPaulo Veiga,10 jun 2026 14:10

No Dia Mundial dos Oceanos, é tempo de mudar o paradigma

“O oceano é História” -Derek Walcott, Nobel da Literatura

Há palavras que chegam no momento exacto. Reimaginar é, hoje, a palavra das Nações Unidas para o Dia Mundial dos Oceanos. "beyond the World we know" (para além do Mundo que conhecemos), fixa uma nova relação com o oceano.

É um convite, mas para Cabo Verde, é mais do que isso. É um imperativo. Porque o oceano não é, para nós, um recurso a explorar ou uma fronteira a defender. É a nossa origem, o nosso destino, a nossa identidade mais profunda. E reimaginá-lo significa, antes de tudo, reimaginar a nós próprios.

O paradigma que nos aprisiona

Durante décadas, Cabo Verde foi classificado, nas instâncias internacionais, como um "Pequeno Estado Insular em Desenvolvimento", SIDS na sigla inglesa. A expressão tem uma intenção benigna de reconhecer as vulnerabilidades específicas dos Estados insulares, a sua exposição às alterações climáticas, a sua dependência de economias externas, e os custos acrescidos da insularidade.

No entanto as palavras têm peso, e "pequeno" e "em desenvolvimento" constroem, ao longo do tempo, uma narrativa de periferia, ou seja, de fragilidade estrutural. Uma definição de quem recebe e não de quem lidera, de quem reage às mudanças do mundo e não de quem as antecipa. É uma narrativa que, mesmo quando bem-intencionada, nos coloca sempre na posição de objeto da história, raramente de sujeito.

Chegou o momento de mudar esta narrativa, não por orgulho retórico, mas sim por necessidade estratégica.

A narrativa das Grandes Nações Oceânicas

Cabo Verde tem uma área terrestre de cerca de quatro mil quilómetros quadrados, sendo a sua Zona Económica Exclusiva, o espaço marítimo sobre o qual exerce direitos soberanos, uma área que cobre mais de 700.000 quilómetros quadrados de oceano. Somos, no sentido mais literal da palavra, uma nação oceânica. A terra é o ponto de partida, e o oceano é o território.

Esta perspectiva não é apenas uma mudança de vocabulário. É uma mudança de paradigma. As Grandes Nações Oceânicas, conceito que proponho como alternativa ao SIDS, não são definidas pelo que lhes falta em terra. São definidas pelo que possuem no mar: biodiversidade incomparável, rotas estratégicas, recursos ainda por cartografiar, e séculos de conhecimento sobre como habitar o oceano sem o destruir.

Num mundo em que o oceano se torna cada vez mais central para a segurança alimentar global, para a regulação do clima, para a produção de energia e para a conectividade entre continentes, ser uma Grande Nação Oceânica não é uma consolação pela ausência de território continental. É uma vantagem competitiva no século que está a ser construído.

Cabo Verde no mapa do Oceano

Temos uma relação com o mar que nenhum manual de economia azul consegue ensinar. Está na morna, nessa música que contém ao mesmo tempo a saudade de quem partiu e a esperança de quem ficou à beira do cais. Está nas gerações de cabo-verdianos que construíram as suas vidas em movimento, navegando entre ilhas e continentes, entre línguas e culturas, carregando consigo a certeza de que a distância não separa, conecta.

Esta herança é um activo estratégico de primeira grandeza. Num mundo que debate como governar o oceano, quem tem autoridade moral para liderar essa conversa? Não são os países que olharam para o oceano apenas como recurso. São os países que o habitaram, que o conhecem por dentro, e que construíram sobre ele, durante séculos, a sua identidade colectiva.

Cabo Verde está entre esses países. E o Dia Mundial dos Oceanos de 2026 é o momento certo para assumirmos esse papel com ambição e sem complexos.

Um momento histórico que não podemos desperdiçar

O mundo está a mover-se. O Tratado do Alto Mar, aprovado sob os auspícios das Nações Unidas, representa o maior avanço na governação oceânica desde a UNCLOS. O compromisso 30x30, proteger pelo menos 30% dos oceanos do planeta até 2030, ganha força política em todos os continentes. A economia azul emerge como um dos sectores de crescimento mais promissores das próximas décadas. As áreas marinhas protegidas tornam-se moeda de influência diplomática.

Estas janelas não ficam abertas para sempre. Cabo Verde tem a posição geográfica, a legitimidade histórica e a visão estratégica para ser um actor decisivo nesta nova ordem oceânica, não como receptor de decisões alheias, mas como arquiteto activo da sua construção.

O que nos falta, muitas vezes, é a coragem de assumir essa narrativa sem o reflexo condicionado de quem se habituou a ouvir que é pequeno, periférico e dependente.

Da visão à acção: construir a Grande Nação Oceânica

Quando desenhamos uma narrativa, para ser mais do que discurso, precisamos de a ancorar de forma concreta. E aqui, em Cabo Verde, há trabalho a fazer, urgente, específico e possível.

O primeiro imperativo é a literacia oceânica. Não podemos reivindicar o estatuto de Grande Nação Oceânica se as nossas crianças não conhecem o mar que as rodeia. O programa Escola Azul, que tem aproximado o oceano das salas de aula, merece ser apoiado e aprofundado no contexto cabo-verdiano, com currículos adaptados à nossa realidade insular, às nossas espécies, às nossas correntes e à nossa história marítima. Uma criança que cresce sabendo o nome dos corais que vivem a cem metros da sua praia não é apenas um cidadão mais informado, é um guardião do oceano em potência.

O segundo imperativo é transformar esse conhecimento em acção comunitária. As comunidades costeiras de Cabo Verde, de Santo Antão à Boavista, do Fogo a São Nicolau, possuem um saber ancestral sobre o mar que nenhuma universidade substitui. É preciso formalizar esse saber, certificar esses guardiões, e dotá-los de ferramentas, científicas, digitais e económicas, que lhes permitam proteger o oceano e, ao mesmo tempo, construir meios de vida sustentáveis a partir dele. A economia azul não nasce nos relatórios, ela nasce nas comunidades, no pescador que sabe onde estão os cardumes e em que época do ano, na mulher que conhece as marés melhor do que qualquer instrumento de medição, e na juventude costeira que, se lhe dermos as ferramentas certas, pode transformar esse conhecimento em empreendedorismo, em emprego digno, em futuro.

O terceiro imperativo é a continuidade e o reforço de iniciativas como a Ocean Week, que já demonstrou ser capaz de mobilizar e de criar pontes entre a academia, o sector privado, a sociedade civil e o poder público em torno da visão oceânica. Estas plataformas não são apenas eventos, são o laboratório vivo de uma nação que está a aprender a pensar o seu futuro a partir do mar. Reimaginar Cabo Verde exige estas apostas. Não amanhã. Agora.

Reimaginar é um acto político

A palavra que as Nações Unidas escolheram para 2026 não é inocente. Reimaginar pressupõe que a imaginação anterior era insuficiente. Que o enquadramento com que olhámos para o oceano, como recurso a explorar, como ameaça a gerir, como fronteira entre nações, já não serve o futuro que queremos construir.

Para Cabo Verde, reimaginar o oceano é reimaginar o nosso lugar no mundo. É perguntar que tipo de nação queremos ser no século XXI? Qual é a nossa contribuição única para os desafios da humanidade? Como transformamos a nossa posição no Atlântico em influência política e em prosperidade partilhada?

Estas perguntas não têm resposta fácil, mas exigem, antes de tudo, que nos recusemos a ser definidos pelas categorias que outros criaram para nós. Pequeno Estado Insular em Desenvolvimento é uma descrição. Não é um destino.

O Oceano é a nossa grandeza

Derek Walcott, o poeta das ilhas do Caribe que ganhou o Prémio Nobel da Literatura, escreveu numa das suas obras mais célebres estas palavras que carrego comigo "The sea is History". Para os povos insulares, o mar não é apenas geografia. É memória, resistência, identidade e visão de futuro.

Na semana em que se celebra o 8 de Junho como Dia Mundial dos Oceanos, proponho que Cabo Verde assuma, com convicção e com orgulho, a narrativa das Grandes Nações Oceânicas. Não como slogan e sim como projecto político e como visão de civilização.

Porque não somos pequenos, nunca fomos, e porque o oceano não é o nosso limite, mas sim, a nossa grandeza.

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Autoria:Paulo Veiga,10 jun 2026 14:10

Editado porAndre Amaral  em  10 jun 2026 18:19

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