Bachelard: na encruzilhada entre Ciência e Arte

PorCarlos Bellino Sacadura,27 jul 2026 8:14

Gaston Bachelard ocupa um lugar essencial na cultura contemporânea: numa época que tende a reduzir a cultura a saberes especializados, renunciando aos panoramas globais do pensamento que as grandes sistematizações do mundo antigo, medieval e moderno apresentavam, continuamos a procurar o que seria para o nosso tempo o equivalente ao que foram, para a sua era, pensadores como Platão e Aristóteles, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, ou Descartes e Kant, capazes de abranger o essencial do saber das suas respectivas épocas.

Além disso, a deriva positivista fez equivaler o conhecimento científico ao saber no seu todo, desvalorizando as humanidades. Sem adoptar um sistema totalizador, Bachelard evitou o reducionismo, reconhecendo o valor dos dois campos – o científico e o humanístico – na nossa configuração do saber. A linguagem científica é a da matemática e da geometria, na qual está escrito o livro da Natureza, conforme a formulação de Galileu. A linguagem das artes e humanidades é a da expressão. Ambos - o conhecimento científico e o humanístico – contribuem para a doação de inteligibilidade e sentido ao mundo; contudo, Bachelard separa as suas respectivas esferas, podendo haver algo que os liga – a criatividade. A progressão no conhecimento não corresponde tanto a uma acumulação de dados, mas sobretudo a uma reconfiguração do nosso modo de ver o mundo.

Desde a infância que Bachelard se rodeava de livros e de terrenos, de leituras e trabalhos agrícolas, por isso para ele pensar era um modo de trabalhar tanto com os sentidos como com as ideias, num mundo onde, diversamente do platónico, o sensível e o inteligível se interconectavam. Enquanto Descartes pretendia afastar tanto o mundo enganador dos sentidos como o dos sonhos, Bachelard ia ao encontro tanto da sensibilidade como do sonho ou do devaneio – um modo de sonhar acordado, tornando-se tão racional como sonhador, ou tão material como intelectual. Platão pretendia inscrever o seu pensamento no céu das ideias, afastando-o da matéria ou do sensível, enquanto Bachelard pensava a materialidade da terra, da água, do ar e do fogo, que já configuravam o universo dos pré-socráticos. O pensar por si próprio que as luzes consagraram sob o modo do direito a um exercício autónomo da razão deve, para Bachelard, ser complementado por um direito de sonhar correspondendo a uma dimensão da imaginação tão importante como a da racionalidade, que o levou a conceber tanto uma filosofia da imaginação científica como da imaginação estética. Claro que o imaginário das ciências, embora construindo livremente modelos do Universo, tem como limite o seu controle através da experiência, ainda que esta não permita comprová-los, mas apenas refutá-los, como afirma Popper. Já a liberdade de criação artística não tem limitações senão as dos materiais ou linguagem em que se exprime. Mas ambos integram a nossa capacidade para nos libertar de uma realidade imediata e conduzir a mundos de conceitos e imagens para lá do real e em rotura com a experiência quotidiana, como a do espaço e tempo na teoria da relatividade ou a do realismo na estética surrealista. Bachelard (…) descobriu na força da imaginação a fonte comum da descoberta científica e da criação artística, não separando na sua biblioteca ideal os livros de ideias e os livros de imagens poéticas. Apesar dos que pretenderam ver na sua vida e obra uma evolução (…) da dimensão científica para a poética, defendemos a tese da unidade do seu pensamento como uma ponte entre filosofia e poesia. (Jean-Claude Margolin) Na estética cabo-verdiana a vertente surrealista introduzida pela poesia de Jorge Carlos Fonseca pode ser vista como uma reivindicação dos direitos do imaginário ou de um sobre-real face ao realismo da Claridade. O poder da linguagem para nos encerrar num determinado mundo não é menor do que o de libertar-nos dele e inventar novos mundos: o seu papel é o de formar imagens que ultrapassam a realidade, que a cantam. Ela inventa a nova vida, ela inventa o novo espírito. O mundo não existe poeticamente senão reinventando-se.

A ideia de um saber que não reflecte o real como um espelho mas recria-o, desenvolve-se tanto na ciência contemporânea como na arte, que rompem com o chamado senso comum e instauram os mundos surreais da física quântica ou da relatividade geral, suspendendo noções tão habituais como as de espaço, tempo, simultaneidade ou causalidade, reinventando o mundo. Por isso, enquanto hoje se recomenda tanto que se abandonem os devaneios poéticos da juventude, a favor de uma dedicação às formações tecnocientíficas, Bachelard faz um apelo à poesia como propedêutica à formação filosófica e científica. Ele próprio aprendeu com os poetas surrealistas a não descrever a realidade mas redescreve-la com um novo olhar poético, científico e filosófico: Essa reinvenção do mundo e essas imagens que ultrapassam a realidade, Bachelard encontrou-as sobretudo nos poetas surrealistas ou nos que, como Lautréamont, são geralmente considerados como seus precursores.

Só não vemos na ciência a mudança e inovação continuada porque a história das ciências foi quase esquecida, em proveito do estudo do seu estado actual. A arte torna-se consciente das suas formas mutáveis quando apreendemos a sua história, onde proliferam os estilos, cânones e gostos. Mas a ciência também apresenta múltiplos modelos ou paradigmas que a tornam livre e aberta. Vejamos o caso da Física e do modo como se reinventou desde Aristóteles a Galileu, ou de Newton a Einstein. É por isso que Bachelard elaborou uma filosofia do novo espírito científico, longe do pensamento dogmático e assumindo uma índole heterodoxa, como defende Eduardo Lourenço. O modo bachelardiano de pensar aparenta-o ao ensaio: mais do que a uma visão definitiva do mundo, devemos aceitar a provisoriedade do conhecimento científico, a sua abertura à formulação de novas perspectivas. Os direitos do intelecto e da razão não devem, em Bachelard, diminuir os da imaginação, o que levou Jean Hyppolite a caracterizar o seu pensamento como um romantismo da inteligência. Embora imbuído do espírito científico, Bachelard não deixa de ter uma inspiração alquímica: o mundo não é apenas algo que dá que pensar, à maneira cartesiana, mas dá a ver, a sonhar e a imaginar. A investigação científica e a imaginação estética complementam-se para lá da sua polaridade, dinamizando e complexificando o mundo. Com elas, Bachelard descobre uma rede de conceitos e imagens em transformação que o afastam das visões redutoras dominantes no seu tempo, as que reduziam o mundo aos efeitos das forças económicas ou sociais. Não há uma causa única para a dinâmica do mundo, mas uma rede de causas complementares e fluxos interdependentes.

Entre as filosofias da subjectividade e as da objectividade, Bachelard efectua uma partilha do mundo entre sujeito e objecto do conhecimento onde o sujeito se inscreve no mundo e este é estruturado pelo sujeito. O mundo não está perante nós como um objecto passivo, mas como algo que nos provoca e suscita os nossos afectos ou reflexões. Quando enfrentamos essa provocação do mundo, devemos esquecer o que julgamos já saber, em função de um saber por-vir, que nos torna em aprendizes de um olhar que se abre a novos olhares ou modos de ver o mundo. Não há uma verdade primeira nem última, mas uma verdade em processo, em rectificação ou reformulação. Em vez do conforto ou segurança dos sistemas totalizadores que respondem a tudo, devemos confrontar-nos com a inquietude ou incerteza a que nos remete a perplexidade de um mundo enigmático sempre por decifrar. A ciência não descobre um mundo que está aí, já feito, mas constrói um mundo a fazer através dos seus conceitos, métodos e lógicas. Quando pensamos estar perante uma descrição definitiva do Universo, como a enquadrada pela geometria euclidiana de um espaço rectilíneo, vemos que outras geometrias emergem, como a do espaço curvo enquadrando a relatividade geral.

Ao contrário do racionalismo enquanto forma final da razão e convergência em torno de um determinado modelo de racionalidade, o sobreracionalismo bachelardiano configura-se como um pensamento onde é sempre possível divergir, como afirma na Filosofia do Novo Espírito Científico: O que caracteriza o sobreracionalismo é a sua capacidade para divergir, ou para se ramificar. A história da ciência não a compromete com uma tradição a continuar Os mundos da ciência, da filosofia e da arte são os da criação e não da continuidade. Na escola aprendemos a continuar um conhecimento transmitido pelos mestres e disciplinas que representam um saber formatado, preparando assim alunos que repetem o que lhes é dito. Seria precisa uma escola, não do pensamento conformista, mas do pensamento crítico e criativo. O espaço da poesia na educação deveria ser repensado se não quisermos ter um comportamento e pensamento condicionado e limitado na sua autonomia e criatividade. Tal como o erro não é o oposto ao correcto, porque é pela rectificação dos erros ou pelas sucessivas tentativas que vamos construindo o conhecimento.

A ciência, a filosofia e a religião representam uma procura de luz: a velocidade da luz é a medida adequada para o tempo cosmológico, mas a luz do pensamento e do espírito é a de A chama de uma vela, vacilante mas ainda assim para iluminar a vida. O ensino positivista dominante na actual educação esquece essa que é a lição de Bachelard: a ciência e o espírito, o pensamento científico e as humanidades, as ciências e as letras, devem por igual iluminar e formar o nosso espírito.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1286 de 22 de Julho de 2026.

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Autoria:Carlos Bellino Sacadura,27 jul 2026 8:14

Editado porAndre Amaral  em  27 jul 2026 9:20

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