No campo já se assume: mais um mau ano agrícola

PorChissana Magalhães,3 nov 2018 9:28

​A esperança de que as chuvas registadas este ano trouxessem um cenário mais animador para os agricultores e criadores já se desvaneceu. Quem trabalha no sector e acompanha de perto a vida no campo diz sem rodeios: as colheitas estão comprometidas. Pasto, dependendo da zona, há algum. Mas todos falam em racionamento. A água continua a ser o recurso mais cobiçado agora que, comprometida que está a agricultura de sequeiro, cada vez mais famílias se viram para o regadio.

Percorrendo as estradas do interior de Santiago salta logo à vista a diferença na paisagem quando comparada a igual período do ano passado. Onde antes vimos terra árida, nua ou com tufos de palha ressequida a despontar aqui e ali, gado escanzelado a deambular e tanques vazios, desta vez registamos um cenário de cartão postal: muito verde, “pés” de milho já crescidos, vacas e cabras com bom aspecto e até alguns tanques cheios de água.

No entanto, a esta altura já é sabido que as chuvas de Setembro e início de Outubro não foram suficientes para garantir o ano agrícola. A colheita do milho e do feijão está, para a maioria dos agricultores, comprometida. Em regiões mais húmidas, como o concelho de Santa Catarina, poderá salvar-se alguma coisa. Os milheirais, comparados com os de Santa Cruz, estão maiores e mais viçosos.

“Ainda é cedo. Do ponto de vista da produção agrícola ainda é cedo para dizer que o ano está garantido. Mas ainda assim está melhor que o ano passado. Pelo menos em relação ao pasto, penso que está garantido. O pasto é uma grande preocupação já que é mais custoso; não existem linhas de crédito institucionalizadas”, diz-nos Felisberto Veiga, presidente da Associação Comercial e Agrícola de Santiago Norte que congrega cerca de 60% das associações agrícolas dos seis municípios de Santiago Norte.

Já com vários anos de existência a Associação Comercial e Agrícola de Santiago Norte tem no seu histórico a promoção da Feira Internacional Agro-pecuária de Assomada.

Um dos maiores desafios da Associação é trabalhar na formação dos agricultores promovendo “os melhores procedimentos em relação à pecuária e à agricultura”. O objectivo maior é a transformação do mundo rural, fazendo as famílias que se dedicam à agricultura aderirem a iniciativas empresariais de modo a que a agricultura de subsistência vá evoluindo para algo mais organizado, onde o saber fazer da região seja potencializado.

Neste momento trabalham na identificação de áreas agrícolas para a criação de um parque agro-industrial onde o cultivo de pasto seja a principal actividade. Investir na produção de pasto é estratégico já que é mais lucrativo para as famílias. Estas ganham mais com a criação de gado bovino e caprino do que com a produção de hortícolas, garante Veiga.

“O projecto-piloto já foi aprovado pela Câmara Municipal de Santa Catarina, está avançado e deverá concretizar-se nos próximos cinco ou seis anos com o parque agro-industrial”.

Um dos resultados esperados é que ajude a fixar os jovens no interior. Para isso contam também com o envolvimento da Universidade de Santiago, com sede em Assomada, através da criação de cursos ligados ao sector agro-industrial.

Veiga, ainda que mais optimista do que outros interlocutores com quem conversamos, deixa alertas.

“O ano passado foi dramático, com a seca. Ainda temos muito que aprender. Faz sentido aprendermos a precaver-nos, guardar pasto e usar de forma racionada. O mundo rural tem as suas especificidades, sobretudo Santiago Norte. São seis municípios, 120 mil habitantes, e a população maioritariamente reside no meio rural”.

Coincidentemente, no dia em que estivemos em Assomada – cidade que, do ano passado para este ano, registou uma impressionante mudança de aspecto, com as ruas mais limpas e organizadas e um notável crescimento no parque habitacional – preparava-se na praça central uma feira agro-pecuária com todos os municípios da ilha representados.

Foi ali que encontramos Benjamin Veiga Mendes, agricultor de Santa Cruz. Sem rodeios logo nos transmitiu que a situação naquele concelho não augura dias bons proximamente.

“Não vai haver nada para colher. Mesmo a palha é pouca. E água também”, dispara.

Praga

Também ele deixa o alerta de que o pasto que há é para usar com parcimónia e guardar o mais que se poder. A angústia vivida no ano passado, em que muitos viram o seu gado perecer ou dele tiveram que se desfazer ao desbarato deixou sequelas.

O agricultor queixa-se também da praga da lagarta de cartucho de milho, ainda que reconheça que a situação não esteja tão má quanto poderia.

Manuel Afonso, delegado do Ministério da Agricultura em Santa Cruz, confirma o que nos adiantara o presidente da Associação Comercial e Agrícola de Santiago Norte: os técnicos do Ministério estão há muito no terreno a acompanhar os agricultores e a orientar o combate à praga que chegou ao país no ano passado.

“No ano passado [a praga] já tinha dado sinais mas, como o milho de sequeiro não se desenvolveu passou logo para o milho de regadio. Este ano já está outra vez a atacar e nos temos estado no terreno, junto dos agricultores para dar combate. Já estávamos preparados para isso. É uma praga nova em Cabo Verde então pode se dizer que estamos ainda num processo de aprendizagem e temos tido contacto com outros países que já convivem com a praga. Não tem sido fácil, pois ataca por todo o lado e ao mesmo tempo. Assim o tratamento também tem que ser em simultâneo, em todo o lado”, relata o técnico.

Nesse momento, diz que é seguro dizer que estão a dar bom combate à praga. Em Santa Catarina, o presidente da Associação Agro-pecuária de Santiago Norte, confirma e elogia o trabalho feito pelas delegações do Ministério.

“Estivemos com eles no terreno e vimos que os agricultores, em relação à praga, estão mais optimistas”.

No entanto, o delegado de Santa Cruz alerta que a praga – que quando não controlada compromete o chamado olho do milho - é do tipo que não se consegue eliminar totalmente. Só o que se pode fazer é controlar e tentar impedir que passe para novas áreas ou que prejudique a produção.

Outro aspecto ressaltado pelo técnico é a importância de optar pelo uso de métodos naturais no seu combate.

“Introduzir inimigos naturais da lagarta, como “joaninhas” e pequenas moscas e parasitas. Educar os agricultores para evitar uso de pesticidas inapropriados e sim recorrer aos biológicos, como extracto de milho, etc. Aliás, os métodos naturais são muito mais baratos. O recurso a pesticidas é extremamente custoso”, avisa.

Depois do mau ano agrícola passado, o Ministério começou cedo a preparar a campanha de 2018/2019. As primeiras acções levadas a cabo, segundo o nosso entrevistado, foram a identificação de agricultores que precisavam de sementes e a distribuição das sementes. Milho e feijão foram distribuídos com a devida antecedência, a sementeira fez-se normalmente. Só que, uma vez mais, a chuva tardou.

“Só as chuvas de Setembro, que até caíram com alguma regularidade, não são suficientes. Pelo menos aqui, no concelho de Santa Cruz, podemos dizer que a perda da cultura do milho é irreversível. Feijão sim, se chover mais um pouco podemos ter feijão”.

Em Santa Cruz também o pasto foi o que rendeu com as chuvas de Setembro. Os agricultores, avisados, estão a racionar e a buscar formas de o conservar. Manuel Afonso conta que no ano anterior ao da seca havia pasto mas, ninguém se preocupou em guardar. Então veio a seca e foi o que se sabe.

“Este ano estamos a passar palavra e a ensinar como guardar, como conservar, para pelo menos terem pasto ao longo do ano”.

São, segundo o delegado, mais de 3 mil agricultores a quem a delegação dá assistência nessa área onde Santa Cruz e São Lourenço dos Órgãos fazem fronteira. A maioria são famílias com pequenas parcelas e produção limitada. Há alguns produtores com terrenos maiores e uma produção, normalmente, mais robusta e organizada.

“Em São Lourenço as culturas parecem melhor, e se chover mais um pouquinho ainda poderá haver produção de milho”.

Entretanto já se sabe que, embora este concelho vá retomar este ano a popular Festa do Milho, ainda não há milho. No ano passado a seca e o desânimo generalizado ditaram a suspensão do evento, o que mereceu críticas de alguns produtores.

Desta vez, embora o anúncio da festa chegasse tarde amanhã, dia 1 de Novembro, todos os caminhos de Santiago levam ao mercado “d’ os Órgãos” onde se irá retomar a festa com promessa de muita música. Milho também vai haver. Ainda que seja o de plantações de regadio ou vindo da ilha do Fogo, conforme adianta à Inforpress um autarca daquele concelho.

Organizada desde 2009, a Festa do Milho é importante pela quantidade de gente que mobiliza e pelos rendimentos que gera. Com isto em atenção, a Câmara de São Lourenço decidiu estender a mão aos outros municípios e convidar produtores dos outros concelhos a marcarem presença. Para colmatar a pouca quantidade de milho haverá outras ofertas gastronómicas, como assados, doçaria, entre outros.

Santo Antão em crise

Na ilha mais a norte a situação é mais dramática. Esta semana, o Presidente de Associação Agro-industrial da ilha de Santo Antão disse em entrevista à Rádio Morabeza que a situação em Porto Novo e no Vale da Garça é de “desespero”. Ali, como já acontecera no ano passado, não choveu. Não se esperam colheitas e nem há pasto.

“A situação é totalmente difícil e de desespero, porque não há água nem pastagem para os animais. Estamos a viver em Santo Antão, e particularmente no Porto Novo, os piores anos de seca de que há memória. Este ano está mais difícil, porque no ano passado ainda havia alguma reserva de pasto mesmo no concelho do Porto Novo, mas neste ano não temos reservas e a situação é alarmante. As culturas sequer chegaram a nascer no concelho do Porto Novo, nem no Vale da Garça”, explicou o entrevistado ouvido por aquela rádio.

Mesmo em zonas que registaram alguma precipitação, como Ribeira Grande e Paul, as esperanças de colheitas já caíram por terra. Os produtores da ilha não quiseram esperar mais e já lançaram apelo ao governo para pôr em marcha um plano de emergência para a ilha, com recursos financeiros e particular atenção à salvação do gado.

Aproveitando a presença do ministro da Agricultura e Ambiente na ilha, os produtores também aumentam a pressão com vista ao fim do embargo aos produtos agrícolas da região, há décadas impedidos de serem escoados para outras ilhas devido á praga de mil-pés.

O Expresso das Ilhas tentou junto do Ministério da Agricultura saber que hipóteses há do embargo a Santo Antão ser levantado em tempos próximos e, entre outras questões, que medidas estão já a ser preparadas para conter os efeitos devastadores de mais um ano de seca, naquela ilha e em todo o país. Mas o que nos foi dito é que só após a conclusão dos relatórios é que informações oficiais seriam dadas a toda a comunicação social.

Para já, conforme noticia a agência noticiosa estatal, o Ministério prepara o alargamento dos furos de água para irrigação dos terrenos em Porto Novo e o seu equipamento com painéis solares de modo a reduzir os custos da água. Estima-se que a ilha se torne a primeira a ter cobertura a 100% de sistemas fotovoltaicos para a produção de água para agricultura.

Ainda este mês Gilberto Silva também falou na dessalinização de água como solução para a agricultura no país. Resta então aguardar para saber o que mais está o governo a preparar para enfrentar mais um mau ano agrícola.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 883 de 31 de Outubro de 2018.

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Autoria:Chissana Magalhães,3 nov 2018 9:28

Editado porAntónio Monteiro  em  16 nov 2018 6:19

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