Carlos Moedas: “A Europa precisa de Cabo Verde e Cabo Verde precisa de Europa”

PorNuno Andrade Ferreira,2 dez 2018 10:12

Carlos Moedas, Comissário Europeu
Carlos Moedas, Comissário Europeu

​O comissário europeu da Investigação, Ciência e Inovação, Carlos Moedas, passou por Cabo Verde na semana passada. Na Praia, anunciou o reforço da participação de cientistas cabo-verdianos em programas financiados pela União Europeia. Em São Vicente, assinou com o Governo um documento que abre portas à cooperação na área da investigação marinha.

À margem do programa de três dias, o responsável europeu falou com o Expresso das Ilhas e Rádio Morabeza sobre os novos caminhos da cooperação europeia e os desafios do mundo digital.

O que é que o oceano pode representar para um país como Cabo Verde, muito maior no mar do que em terra?

Aquilo que representa é uma oportunidade extraordinária na ciência e na inovação. O mar ainda está muito pouco explorado. Como muitos cientistas costumam dizer, conhecemos muito menos do fundo do mar do que da superfície da lua. Esse conhecimento pode trazer-nos grandes descobertas para aquilo que são os desafios que temos hoje, por exemplo, na área da medicina. O mar sempre nos inspirou.

Portanto, temos uma oportunidade extraordinária e Cabo Verde situa-se num triângulo muito interessante entre Europa, África e Estados Unidos, junta o Norte com o Sul, o Este com o Oeste.

Abrem-se portas para novas colaborações?

Sim, colaborações entre as universidades e as empresas. A investigação não pode ser feita só através das universidades e dos centros de investigação, mas também pelas próprias empresas. Cabo Verde será parte dessa rede. A inovação não é só tecnológica, é também inovação de processos, de como é que vamos criar novos produtos. Tudo isso será feito em conjunto e Cabo Verde participará como parte da família.

Há aqui uma mudança de paradigma, daquilo que era a cooperação entre a Europa e o continente africano.

Sim, eu acho que a ideia da União Europeia é mudar para um paradigma de colaboração entre iguais. Eu tenho muita experiência nisso, porque temos uma grande aliança sobre doenças – tuberculose, SIDA e outras – que fazemos com 13 ou 14 países africanos, e essa aliança funcionou por ser uma aliança entre iguais. Ou seja, não é a Europa a dizer o que é que os países africanos têm que fazer, porque esta solução, historicamente, nunca funcionou. É um intercâmbio em que todos ganham. A Europa precisa de Cabo Verde e Cabo Verde precisa de Europa. Portanto, é uma relação de iguais. Como diz, e bem, é realmente uma mudança de paradigma em que a ciência e o conhecimento são a melhor maneira de testar esse novo paradigma de cooperação e colaboração.

O documento que assinou com o Governo, em São Vicente, está também relacionado com o workshop em que participou, na Praia, sobre o Horizonte 20/20. De que forma Cabo Verde entra neste programa europeu, de 80 mil milhões de euros?

Cabo Verde, neste momento, já recebeu quase 250 mil euros do programa Horizonte 20/20. O país tem participações em projectos europeus, tem bolseiros. O ponto aqui é multiplicar por dois ou por três, para que possa participar mais, ter mais cientistas a participarem e ter esta noção de que estamos a abrir caminho para outras cooperações, sabendo que Cabo Verde já tem um estatuto muito especial, muito querido, na União Europeia. O mundo está a tornar-se mais volátil e os países como Cabo Verde, que são estáveis, que são símbolo de respeito dos direitos humanos, que são símbolo de uma democracia estável, tornam-se mais importantes e isso é bom para Cabo Verde, porque pode diferenciar-se pela sua normalidade institucional, a sua democracia e as suas gentes. Este é um país que tem altos quadros, muito competentes.

Ligar inovação e desenvolvimento económico é o caminho para África?

É o futuro de todos nós. A economia linear, em que eu produzia, depois tinha produtos e tinha desperdício, tinha lixo, esse conceito não vai funcionar no futuro, porque não é sustentável. A Europa tem-se posicionado numa certa liderança na bio-economia, na economia circular, que é exactamente a transformação de uma economia de desperdiço para uma economia que usa o desperdício como matéria prima e cria essas circularidades. O desenvolvimento só pode acontecer se for sustentável.

Os países africanos podem ter duas escolhas: podem dizer “vamos fazer como fizeram os europeus, porque temos direito a isso”, mas têm uma oportunidade muito maior, que é não cometer os mesmos erros, essa oportunidade de fazer a ligação da economia com o desenvolvimento, dar esse salto extraordinário directamente para a bio-economia.

O comissário Carlos Moedas defendeu em São Vicente que o multilateralismo é fundamental para combater as alterações climáticas. Ora, o multilateralismo é difícil se os principais protagonistas não concordarem com a ideia.

Acho que o multilateralismo, como existia, está numa grande crise e, no fundo, está a morrer. Quais sãos os exemplos multilaterais que têm funcionado nos últimos anos? Eles não são exemplos demultilateralismo entre países, estranhamente. O Global Fund foi o grande fundo que se utilizou para combater a SIDA e foi feito entre países, sistema privado, ONG e cidadãos. A COP 21 é outro exemplo em que os estados foram apenas uma parte da solução. No mundo digital as pessoas querem fazer parte da solução, querem co-desenhar a solução. Há filósofos de ciência política que chamam estes sistemas de polilaterais. É uma redundância, porque entre multilateral e polilateral apenas muda a palavra, mas essa mudança do conceito, estados mais organizações não governamentais, mais empresas, mais pessoas será o futuro do multilateralismo.

Veio a Cabo Verde também para falar de empreendedorismo e startup. Que exemplos é que podemos trazer da Europa, o que correu bem e o que correu mal?

Daquilo que eu vi durante esses anos, há que começar o sistema pela base, ou seja, pela educação, e a maneira como nós, desde tenra idade, vamos educando os nossos jovens para a criação de empresas, para uma cultura de não ter medo de falhar, de interdisciplinaridade. A minha geração era uma geração que não pensava em criar empresas. O que não funcionou na Europa foi que o sistema educativo não se adaptou a essa velocidade, sobretudo no incentivo positivo. Os nossos sistemas de ensino foram criados exactamente para criar o medo de falhar, medo de falhar num teste, de uma resposta errada, medo de perguntar ao professor, medo de chumbar. Depois, aquilo que o mundo digital nos ensinou é que as fronteiras físicas deixam de ter valor. O Napoleão dizia que a geografia é o nosso destino e eu acho que o mundo digital veio mudar esse paradigma. O nosso destino é a conectividade e essa conectividade não depende da minha posição geográfica, mas dos cabos que eu tenho para me ligar aos vários pontos do mundo. Podemos ter empresas em Cabo Verde que têm os clientes todos fora de Cabo Verde.

Esta é uma porta aberta para a atracção de investimentos?

Sim, eu acho que a atracção de investimentos faz-se, exactamente, pelo caminho que Cabo Verde tem feito, que é a estabilidade. O mundo dos negócios e as startup não querem instabilidade, nem querem incertezas. “Venham e invistam porque isto vai ser estável, daqui a 10 anos cá estaremos, temos instituições democráticas, temos Estado de Direito”. Isso é uma grande vantagem.

A União Europeia está a negociar com os países africanos o futuro quadro de cooperação, após acordo de Cotonou, que termina em 2020. A ciência e inovação devem constar do próximo quadro geral de cooperação entre continentes?

Temos que ver como é que podemos, com África, olhar para aquilo que é o futuro da transformação digital. Eu diria que existem quatro áreas fundamentais, que obviamente dependem daquilo que se está a fazer a nível negocial: a alimentação, a saúde, a energia e a água. Estes são os quatro sectores que vão ter a maior transformação digital, onde estão os desafios e todos estão interligados. A Europa não pode estar sozinha, pois estes desafios só podem ser resolvidos em conjunto com aqueles que nos podem trazer sabedoria e conhecimentos diferentes.

No início de Novembro, numa entrevista à Rádio Renascença, ouvi-o dizer que, mais do que o Brexit, preocupa-o a situação de Itália. Continua a manter a mesma ordem de preocupações?

Essa é uma pergunta difícil, porque realmente temos tantas preocupações, está tudo a acontecer ao mesmo tempo. O Brexit é um facto consumado, a escolha é do povo britânico e devemos respeitar. A Itália é um grande país na Europa, é parte daquilo que são os valores mais fundamentais da nossa história e custa-me, de certa forma, como político, ouvir os ataques constantes ao projecto europeu vindos de certos políticos italianos. Isso preocupa-me no longo prazo.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 887 de 28 de novembro de 2018.

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,2 dez 2018 10:12

Editado porJorge Montezinho  em  10 dez 2018 3:22

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