A distância entre Moçambique e Cabo Verde tornou-se pequena

PorAntónio Monteiro,4 ago 2019 9:48

O presidente da Cruz Vermelha de Moçambique esteve na passada semana na Praia para assistir ao mega show beneficente “Nu Kanta pa Moçambique” e para agradecer ao governo e à congénere cabo-verdiana a campanha de solidariedade a favor das vítimas dos dois ciclones que atingiram este país da costa oriental africana.

À margem dos encontros mantidos, Avelino Mondlane conversou com o Expresso das Ilhas sobre a situação nas regiões afectadas.

Quais são as suas primeiras impressões da Cidade da Praia?

As primeiras impressões são boas. É uma cidade típica africana que regista um desenvolvimento positivo. É uma cidade muito dinâmica. Já a partir do aeroporto verifiquei que estão em curso uma série de construções o que significa que há muito trabalho que está sendo feito.

Em que âmbito se encontra na Cidade da Praia?

É no âmbito da solidariedade que o povo cabo-verdiano fez e está a fazer em prol das vítimas do ciclone Idai que se abateu sobre o Centro e Norte de Moçambique. Como se recorda, no mês de Março, Moçambique foi fustigado por um ciclone com efeitos bastante devastadores que atingiu quatro províncias de Moçambique, nomeadamente Sofala, Manica, Zambeze e Inhambane. Um mês depois fomos vítimas de um outro ciclone [Kenneth] que atingiu a região Norte. Então houve um esforço levado a cabo pela Cruz Vermelha de Cabo Verde no sentido de enviar uma equipa médica que reforçou bastante os trabalhos de socorro às vítimas que estavam a decorrer no terreno. Portanto, estou aqui para agradecer todo o apoio que o povo de Cabo verde prestou às vítimas do ciclone. Estou aqui também para assistir ao concerto beneficente “Nu Kanta Pa Moçambique”, nesta linha de solidariedade do povo cabo-verdiano para com as vítimas dos dois ciclones.

Como aprecia o gesto deste pequeno país para com as vítimas dos ciclones?

Normalmente não se mede o esforço de solidariedade pela dimensão, mas pelo acto em si. Há muitos países que não fizeram aquilo que Cabo Verde fez, especialmente a campanha contínua liderada pelo governo de Cabo Verde em coordenação com o movimento da Cruz Vermelha cabo-verdiana que começou com o envio de doze médicos e se estendeu por uma solidariedade mais ampla através do envio de medicamentos, roupas, etc.

O que é que as duas instituições podem aprender uma com a outra?

Penso que é uma aprendizagem mútua. Por exemplo, a Cruz Vermelha de Moçambique é uma Sociedade Nacional bastante ampla, mas acredito que em termos de experiência e actividades desenvolvidas no terreno verifica-se uma grande diferença em relação à nossa congénere. A Cruz Vermelha de Cabo Verde cobre áreas de acção social que nós deixamos para trás e que se nota que é muito necessário, nomeadamente a questão do amparo aos idosos e o apoio à pré-infância. Na área do treinamento para os primeiros socorros estamos agora numa fase de re -iniciação. Temos equipamentos obsoletos e neste aspecto a Cruz Vermelha de Cabo Verde mostra-se um pouco mais flexível. Portanto, em todos esses aspectos as duas sociedades podem apreender alguma coisa com a outra.

Nos primeiros dias da passagem do ciclone Idai houve campanhas de solidariedade a favor das vítimas da catástrofe. Moçambique continua ainda a precisar de ajuda?

Sim, as pessoas que foram afectadas pelo ciclone continuam a precisar de ajuda, não só em termos materiais, mas também psicológico, porque os dois ciclones tiveram um efeito devastador nas regiões por onde passaram. Centenas de pessoas, senão milhares ficaram sem abrigo e sem saber como recomeçar as suas vidas. Já para não falar de infraestruturas básicas que ficaram destruídas.

Em quê é que Cabo Verde pode ainda ajudar?

Penso que Cabo Verde, neste caso concreto a Cruz Vermelha de Cabo Verde, pode ajudar em termos de conhecimento e a sua experiência em como lidar com algumas catástrofes que já passaram por cá. Também na partilha de ambições em áreas específicas. Estou a falar da transferência de conhecimento entre a Cruz Vermelha de Cabo Verde e a Cruz Vermelha de Moçambique. Em relação ao país propriamente penso que todo o apoio é ainda válido, porque se as pessoas já deixaram os abrigos temporários, há muitos ainda que vão necessitar de assistência. O que eu recomendaria e acho importante neste momento é a transferência de conhecimento; também acho muito importante a vossa experiência na resiliência em casos de catástrofes naturais. Acho que a prontidão para enfrentar catástrofes desta natureza é muito mais importante que a mentalidade de mão estendida, sempre à espera de alguma coisa. Penso que isso conta muito e que podemos aprender isso convosco.

Decorridos quatro messes, o dia-a-dia das pessoas nas regiões afectadas pelos ciclones já regressou à normalidade?

Já está. Há cerca de um mês foi entregue a última escola que abrigava deslocados. Então as crianças dessa escola já retomaram as aulas; os hospitais estão a ser reabilitados e penso que nos próximos meses as infraestruturas sociais irão regressar ao seu funcionamento normal.

Esta tragédia ajudou a aproximar mais os dois países?

Aproximou, efectivamente. Nós fazemos parte da CPLP e dos PALOP, fomos colónias de Portugal, temos em comum a língua portuguesa, embora geograficamente estejamos distantes um do outro. Foi muito mais fácil colocar médicos e outros técnicos cabo-verdianos em Moçambique do que de um país nosso vizinho. Esta interacção continua sendo levada a cabo com intercâmbio musical e outros tipos de apoio a serem mobilizados como o envio de medicamentos e roupas. Quer dizer, a distância entre Moçambique e Cabo Verde tornou-se pequena com esta situação.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 922 de 31 de Julho de 2019. 

Concorda? Discorda? Dê-nos a sua opinião. Comente ou partilhe este artigo.

Autoria:António Monteiro,4 ago 2019 9:48

Editado pormaria Fortes  em  15 set 2019 23:22

pub.
pub.

Últimas no site

    Últimas na secção

      Populares na secção

        Populares no site

          pub.