Sindicatos com reservas quanto a promessas de início de aulas sem sobressaltos

PorSara Almeida, Fretson Rocha,18 ago 2019 7:01

O Ministério da Educação afirma estar convicto de que tudo o que está já a ser feito vai garantir um início do ano lectivo tranquilo. Já outros “actores” da Educação, nomeadamente os sindicatos, mostram-se esperançosos de que tal aconteça, mas manifestam alguma reserva quanto às promessas da tutela. Entretanto, foram já analisadas as avaliações do ano lectivo que acabou, com vista a identificar e colmatar os pontos fracos do sistema educativos.

Tudo está a ser feito para que, aprendendo com os erros passados, o início de ano lectivo decorra sem os problemas verificados nos anteriores, destacadamente os atrasos na colocação de professores e na distribuição dos manuais.

A garantia foi dada na semana passada pela ministra da Educação, Maritza Rosabal, que falava aos jornalistas no final do II Conselho Alargado para preparação do ano lectivo 2019/2020.

De acordo com a governante, o processo de colocação dos professores arrancou este ano mais cedo, por forma a estar concluído antes do dia 23 de Setembro, data de começo das aulas. Paralelamente estão a ser adoptadas outras medidas para colmatar eventuais falhas.

“Por exemplo, nenhum professor é transferido até ter um substituto porque vimos que isso cria” constrangimentos, apontou.

No que diz respeito aos manuais, a ministra da Educação avança que a maior parte dos cerca de 40 livros escolares já está a ser impressa. “Há 11 que vão entrar agora no processo de impressão e que não são impressos em Cabo Verde”, por uma questão de maior celeridade. De qualquer forma, está previsto que todo o material esteja disponível também até o dia 23.

Sindicatos reticentes

Os sindicatos dos professores, por seu turno, não obstante darem o “benefício da dúvida” à tutela, mostram-se reticentes quanto às previsões da mesma.

“Temos algumas reservas, porque a prova de conhecimento [dos professores] que deveria acontecer no dia 10 de Julho só aconteceu a 19, e não conhecemos a razão”, expôs, o vice-presidente do Sindicato Nacional dos Professores (SINDEP), Jorge Cardoso, à Rádio Morabeza.

No que toca aos manuais, são também colocadas reservas “porque sempre que se questiona a questão dos manuais, eles (o Ministério da Educação) aparecem a dizer que os manuais estão disponíveis. Não acreditamos nisso, devido às várias afirmações falsas que foram feitas durante os últimos anos”, acusou.

A Federação Cabo-verdiana dos Professores (FECAP), também em declarações à Rádio Morabeza, mostrou-se igualmente expectante face ao prometido, acrescentando que isso constituiria de facto “uma mudança de paradigma”.

“Se as propostas apresentadas ao público pelo Ministério da Educação acontecerem, para nós é mudança de paradigma. Se todos os alunos conseguirem o seu professor ou professora no primeiro dia de aula, para nós é mudança de paradigma. Se não houver problemas com manuais, é mudança de paradigma. É isso que a gente quer”, sublinhou o líder da FECAP, João Cardoso.

Ambos os sindicatos levantaram também, no âmbito das expectativas para o próximo ano lectivo, a questão de situações pendentes relativas à classe docente, nomeadamente os subsídios pela não redução da carga horária aos professores do ensino básico e reclassificações desde 2015. Para os sindicatos, estas são pendências que têm de ser resolvidas, sendo que os professores estão preparados para lutar pelos seus direitos.

O ano lectivo 2019/2020, que tem como lema “Juntos pela qualidade sem deixar ninguém para trás” arranca no início de Setembro, estando o acto central de abertura marcado para dia 20 de Setembro, uma sexta-feira. As aulas começam, como referido, na segunda-feira seguinte, dia 23.

Resultados 2018/2019

Durante o II Conselho Alargado para preparação do ano lectivo 2019/2020 foram analisados os resultados e estatísticas do ano que terminou.

Entre os instrumentos em destaque nessa análise, estão as provas de aferição nacional, aplicadas ao 2.º e 6.º ano de escolaridade, e que, recorde-se, são provas que não avaliam o aluno nem professores, servindo antes como instrumento para medir a qualidade do sistema educativo.

Nessa área, entre os resultados, Maritza Rosabal destaca que “a performance das crianças da 2ª classe, na lecto-escrita é muito boa”. Tal parece mostrar que o método das 28 palavras para aquisição do mecanismo da leitura e escrita foi uma escolha que está a dar bons frutos.

Contudo, já no que toca ao funcionamento da Língua, as provas demonstram “algumas dificuldades” na compreensão do mesmo. Para a Ministra este é um indicador importante pois “permite melhorar os instrumentos” de ensino por forma a colmatar esse ponto fraco.

Sobre estas provas de aferição, professores ouvidos pelo Expresso das Ilhas, avaliaram-nas de “bastante fáceis”, pelo que seriam expectáveis bons resultados.

Em sentido inverso, vários professores e pais contestam a dificuldade das provas de avaliação, estas sim, parte do processo avaliativo do aluno e que foram aplicadas este ano. A objecção prende-se em concreto com a prova de Matemática do 4.º ano, que conteria matéria não constante no programa.

A ministra discorda e aponta os resultados positivos. Assim, segundo a governante, “nesta prova já se introduzem elementos de lógica um bocadinho diferentes do que aquilo que se estava a fazer anteriormente. Os professores estavam muito preocupados, mas surpreendentemente os resultados são bons”.

“Estamos num processo de mudança e há muitos elementos novos que às vezes resultam até mais difíceis para os próprios docentes do que para os próprios alunos como a introdução do desenvolvimento do pensamento lógico, etc.”, considera.

Ainda sobre questões avaliativas, outra queixa ouvida pelo Expresso das Ilhas por parte de professores, em particular professores do secundário, foi a exigência, já perto do final do primeiro trimestre, de uma série de parâmetros de avaliação que alguns consideram ser demasiado subjectivos, sobrecarregarem os professores e servirem apenas para inflacionar as notas dos alunos e facilitar as aprovações.

A ministra tem outro entendimento e destaca a importância de introduzir esses parâmetros, como o trabalho de grupo e relações de sociabilidade, para que de facto essas competências possam também ser desenvolvidas.

“O que se está a fazer é introduzir elementos que lhe deem objectividade a estas questões” e que façam com que estas realmente sejam tidas em conta, refere.

Entretanto, os resultados mostram uma taxa de aprovação de mais de 95% do 1.º ao 4.º ano de escolaridade, 86% do 5.º ao 8.º e de 80% no secundário (3º ciclo).

“Há concelhos que tiveram muito melhores resultados do que outros, que houve um aumento, mas em geral são bons, e há outros concelhos que a nível do ensino secundário que já vimos que há que aprofundar as medidas”. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 924 de 14 de Agosto de 2019. 

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Autoria:Sara Almeida, Fretson Rocha,18 ago 2019 7:01

Editado porDulcina Mendes  em  21 set 2019 22:19

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