Efeitos da COVID-19: Creches afectadas financeiramente

PorSheilla Ribeiro,28 jun 2020 8:57

Depois de meses encerradas devido à pandemia da COVID-19, algumas creches já estão a reabrir, enquanto outras estão a preparar o processo de reabertura. Entretanto, para todas há agora novas regras de higienização dos espaços e distanciamento social para tentar minimizar as probabilidades de contágio do novo coronavírus. Tudo isto acarreta custos que, atrelados à redução de crianças, afectam financeiramente os infantários.

A directora da creche Fundação Criança Cabo-verdiana em Achada Santo António, cidade da Praia, Carla Cardoso, diz ao Expresso das Ilhas que, com as regras impostas pelo plano de contingência, tiveram de repensar todas as actividades. Segundo explica, tinham em curso, antes mesmo da declaração do estado de emergência, o próprio plano de contingência. E agora com a formalização do plano para a reabertura, conta, tiveram de se adaptar outra vez e continuar a seguir.

“Antes do estado de emergência já não era permitida a entrada dos pais na creche, recebíamos as crianças na porta. Já era exigida a desinfecção das mãos antes da entrada. Limitamos o número de actividades em grupo, como por exemplo, comemorações de datas. Deixamos de fazer as reuniões dos pais, passamos a contactá-los por telefone ou mensagem... Continuamos a seguir esse plano além de outras regras que agora tivemos de acrescentar, impostas pelo Ministério da Família e de Inclusão Social”, prossegue.

Exemplificando alguma das regras, esta responsável aponta que agora as crianças não entram todas pela mesma porta, havendo três entradas para que não haja aglomeração. Além disso, continua, os pais têm de se dirigir à creche com máscara e também desinfectar as mãos. Quanto aos brinquedos, explica, são desinfectados todos os dias.

“Mesmo as crianças têm sapatos próprios para usar cá dentro. Vêm na segunda e na sexta os sapatos são levados para casa para serem lavados, assim como as batas, os lençóis e outros objectos. Isso para evitar o seu vai-e-vem”, profere explicando que como as crianças têm a idade compreendida entre o zero e os três anos, não usam máscara dentro da creche, até porque representa um risco porque elas tendem a tocar a máscara. Apenas os funcionários usam.

Redução de crianças: consequências

A creche Fundação Criança Cabo-verdiana teve, conforme sua directora, de limitar o número de crianças que recebem por dia, mas ainda assim, não têm crianças suficientes. Segundo revela, antes recebiam entre 80 e 90 crianças por dia e, neste momento, apenas nove.

“Os pais não querem trazer os filhos. Alguns dizem que estão a trabalhar em casa, outros alegam ter adolescentes em casa que, como já não vão para a escola, podem cuidar delas e há aqueles que estão com medo por causa do número de casos na Praia”, completa.

Toda esta situação, tal como sustenta Carla Cardoso, acaba por afectar “bastante” a economia da creche, que viu quase metade do seu pessoal (7 funcionários) ir para casa com os contratos suspensos, por não haver como pagar os salários devido à pouca afluência de crianças. Esta responsável confessa nem saber se irão continuar abertos no próximo mês, pelo que estão a ponderar ir já de férias e reabrir em Setembro.

Carla Cardoso afirma ainda que não receberam apoio do Governo para reforçar as medidas obrigatórias de higiene e limpeza, mas diz que já “está tudo pronto” e “só falta receber”.

Aumento de casos na Praia mantém Jardim Pimpão encerrado

A proprietária do Jardim Pimpão, também em Achada de Santo António, cidade da Praia, Maria Rodrigues, confidencia a este jornal que completou no dia 20 de Junho três meses que estão fechados devido à COVID-19. Conforme diz, continuam fechados porque “ainda há muitos casos na Praia”.

Além disso, acredita esta proprietária que há que se preparar o espaço antes de reabrir, pelo que estão a proceder a trabalhos de pintura, instalação de novos lavatórios e a “todos os procedimentos” que deverão ser levados em conta.

“Depois, há uma outra questão que é a das crianças de zero a três anos de idade no que tange ao distanciamento, que é muito arriscado. Aliás, o distanciamento físico pesa um bocado na decisão de reabrirmos”, argumenta Maria Rodrigues informando ainda que, depois do estado de emergência em Santiago, findo a 29 de Maio, o pessoal que trabalha com ela foi de férias devendo regressar esta quarta-feira, dia 24.

Neste período, conta, aproveitou-se para fazer obras. “Já temos mais ou menos todos os procedimentos que o ministério exigiu, já instalamos os lavatórios logo na entrada do jardim, vamos também colocar álcoolgel na entrada. A mudança de sapatos ainda vai ser debatida com o pessoal. Mas, em princípio, não vamos abrir antes do mês de Agosto porque o número de casos continua a aumentar e é um pouco arriscado”.

Compra de mais objectos e limitação do contacto

Maria Rodrigues diz que o Jardim Pimpão terá que comprar mais objectos, por forma a garantir, sempre que possível, que as crianças não partilhem objectos ou que os mesmos são devidamente desinfectados entre utilizações.

“Vamos comprar mais berços, já que agora cada criança tem de ter o seu berço com o seu nome e cada uma com a sua muda de roupa. A questão do lanche é uma outra preocupação que temos, os lanches que as crianças vão trazer de casa. Temos de sentar, pensar e decidir e ver como é que o pessoal da Saúde recomenda para depois abrirmos. Vamos ter de fazer testes PCR antes de começar”, informa esta proprietária, defendendo ainda que o número de crianças terá de ser limitado.

Ainda nas suas declarações, Maria Rodrigues diz pensar que, relativamente às crianças de 1 a três anos de idade, ser “violento” impor que elas não brinquem umas com as outras. “Elas não entendem e a sua fala ainda é muito reduzida, não vão perceber porque é que não podem brincar com os amiguinhos”, complementa.

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Esta interlocutora diz ser “impossível” fazer com o que crianças de um a três anos não se aproximarem umas das outras, porque, diz, querem brincar, tomar o brinquedo do outro, “é um instinto”. Maria Rodrigues defende que o jardim é um espaço para socializar as crianças. “Ao manter o distanciamento onde é que está a socialização?”, questiona, afirmando que “as tias são para dar amor, afecto e carinho e que vai ser “complicado” não poder fazê-lo.

“Acho que psicologicamente não é bom nem para elas (crianças) nem para nós. As crianças não podem abraçar-nos, nem as podemos deixar fazer-nos carinho nem vice-versa. Ainda não conversamos nada com os pais na questão da nova organização para a sua segurança. Enquanto não tivermos tudo organizado não vamos falar com eles”, frisa.

Nova realidade vs. custos

O Jardim Pimpão, conforme faz saber a sua proprietária, está a ser preparado por forma a se adaptar à realidade actual. Tudo isto, segundo Maria Rodrigues, “leva o seu tempo”.

“Vamos ter de fazer uma sala de isolamento para, no caso de alguma criança sentir algum sintoma, ou mesmo o pessoal, ficar enquanto a ambulância não chegar. Não vamos abrir o jardim como antes. Vamos manter o número de funcionários, mas vão trabalhar por sala com o mínimo de crianças. Temos tentado aguentar o nosso pessoal porque vamos precisar deles. Depois vai ter que ser um até dois funcionários em cada sala porque qualquer coisa eles vão ter de responder para que assim não haja um entra e sai daquela sala”, explica.

Tudo isto, acredita Maria Rodrigues, “vai afectar e muito” a economia do Jardim. Aliás, exemplifica que, recentemente comprou 15 litros de álcoolgel, em que cada cinco litro custa 4.500 escudos. Mais custos estão ainda por vir, uma vez que, segundo conta, terão de comprar uma máquina que mede a temperatura, redobrar a compra de materiais de higiene, máscaras e outros materiais de protecção individual.

“São muitos gastos quando vamos ter menos crianças. E nós não podemos aumentar o preço mensal do jardim porque os pais vão continuar a ganhar o mesmo. Por isso, achamos que todos os jardins e creches deviam receber algum apoio. Estamos a fazer uma ginástica para pagar os funcionários para que não fiquem em casa.Tenho 10 chefes de família que dependem de mim”, finaliza.

Ministério garante apoio

Em declarações ao Expresso das Ilhas, a directora-geral da Inclusão Social, Mónica Furtado, resume que no âmbito das medidas do plano de cuidados o Ministério da Família e Inclusão Social está a apoiar as creches, principalmente as privadas, mas também creches geridas por entidades de solidariedade social e por algumas câmaras municipais, na aquisição dos materiais de protecção individual, materiais de higiene do espaço.

Mónica Furtado afirma que no âmbito desta crise e das medidas aprovadas a nível da organização sanitária dos serviços, dentre as quais as creches, há uma série de novas indicações a nível da higiene, de protecção individual, de protecção do espaço para garantir a prevenção à COVID-19.

“Essas entidades privadas, esses pequenos negócios, terão necessidade de, nesse primeiro momento, de algum investimento para garantir esses materiais”, refere esta responsável, dando conta que o ministério está a contar com o apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância – UNICEF.

Furtado fala ainda na produção de um conjunto de lavadouros de mãos, que têm sido muito usados nos espaços escolares. Nesta linha, diz também terem conseguido junto à Inpharma a produção de um álcoolgel específico para essa faixa etária, que será disponibilizado a essas entidades, garantindo que consigam, nessa fase de maior prevenção e de readaptação, essas condições sanitárias na sua reabertura.

“As creches, desde o levantamento do estado de emergência, já podem funcionar, salvaguardando essas medidas”, prossegue a directora geral da Inclusão Social afirmando também estar em validação com o Instituto de Saúde Pública (INSP) um guia que oriente as entidades gestoras das creches em como efectuar a limpeza, cuidados a ter, algumas regras que podem seguir, acrescentando um pouco que vem na resolução, mas somando dicas mais práticas em relação ao dia-a-dia dessas instituições.

Trata-se, conforme Mónica Furtado, de um guia de orientação e que vai ser divulgado brevemente junto dessas entidades.

Mudanças no funcionamento das creches

Ainda em declarações ao Expresso das Ilhas, a directora geral da Inclusão Social explica que a principal mudança na legislação que regula a acreditação e funcionamento das creches que entrou em vigor no dia 14 de Junho vai trazer é que a sua abertura e funcionamento passam a requerer, obrigatoriamente, uma autorização.

“Qualquer entidade que queira funcionar ou esteja em funcionamento para ser legal tem que solicitar um pedido de alvará ao ministério da Família e Inclusão Social e claro, preencher os requisitos mínimos que foram aprovados nessa lei. A lei foi aprovada em 2018, mas tinha um prazo, que foi razoável, de um ano e meio, para que essas entidades pudessem adaptar-se. Muitas delas, com base nisso, foram adaptando-se e foram já solicitando o alvará, mas, as que ainda não o fizeram terão agora, por força legal, de o fazer”, explica.

As entidades que estejam fechadas, por causa da pandemia, continua, “não precisam fazê-lo”. Mesmo assim, entende Mónica Furtado que estando fechada é uma oportunidade da entidade gestora se organizar, porque, na verdade, o que é que se exige é que a creche tenha espaços adequados, número de crianças adequadas por espaço, tenha áreas importantes de higiene e alimentação seguras e espaços seguros para crianças.

“O maior desafio são essas entidades que não têm espaço que garantam essas condições e que terão que adaptar-se e procurar espaços que consigam dar aquele requisito mínimo porque trata-se de uma questão de segurança e saúde das crianças”, prossegue.

De acordo com os últimos registos da actualização da Carta Social, há mais de 273 creches e jardins/creches a nível nacional, que albergam mais de 7166 crianças. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 969 de 24 de Junho de 2020. 

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Autoria:Sheilla Ribeiro,28 jun 2020 8:57

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  24 set 2020 23:21

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