Pedro Simas, virologista: “As pessoas não podem ficar em pânico”

PorNuno Andrade Ferreira,25 jul 2020 6:49

Pedro Simas
Pedro Simas

Investigador recorda que a ciência tem o conhecimento e as ferramentas necessárias para responder à pandemia. “Havemos de chegar lá”, acredita.

Sete meses depois da descoberta do novo coronavírus, já muito se sabe sobre o SARS-CoV-2. Parte desse conhecimento resulta de experiências anteriores com vírus semelhantes, identificados há várias décadas. Virologista do Instituto de Medicina Molecular, da Universidade de Lisboa, Pedro Simas explica que, em termos de dinâmica de infecção, o agente causador da covid-19 é “muito semelhante” a outros coronavírus já endémicos na população humana, com um impacto “muito modesto” na saúde pública. Contudo, recorda que “vivemos numa situação de emergência pandémica grave”, apelando, por isso, a que se protejam os grupos de risco.

O que distingue uma situação pandémica de uma situação endémica?

Endémica quer dizer que pertence a qualquer coisa, nomeadamente a uma região. Pandémica significa que está espalhado por todo o mundo ou por uma região muito grande. Um vírus pandémico é um vírus que está a disseminar-se e a razão pela qual está a infectar tanta gente é porque a população não tem resistência a esse vírus, a tal imunidade de que tanto se fala. À medida que vai infectado e vai preenchendo esse nicho, as pessoas vão ficando resistentes à infecção, imunes. Vai-se criando uma barreira.

E como é que se chega à imunidade populacional?

A imunidade populacional é a percentagem de pessoas que, numa determinada população, já está imune ao vírus e o estar imune quer dizer que tem alguma resistência à infecção viral ou à doença causada pela infecção viral. Na situação que vivemos agora, a grande maioria da população mundial ainda é susceptível. Imagine que a população é de 100 e que há uma pessoa infectada. Qualquer contacto que essa pessoa faça pode transmitir a infecção, porque há 99 pessoas susceptíveis. Quando se chegar a uma situação em que há 50 pessoas resistentes e uma infectada, a probabilidade deste infectado contactar uma pessoa susceptível é menor. É assim que funciona a imunidade de grupo. Essa percentagem varia de microorganismo para microorganismo, de vírus para vírus, se estamos a viver numa área geográfica em que há uma grande ou pequena densidade populacional.

Temos lido estudos sobre imunidade em diferentes geografias, com disparidades muito grandes entre si.

É normal que assim seja. Dou-lhe o exemplo do estudo sobre Espanha. Madrid foi afectada de forma mais ou menos severa e tem à volta de 10% de imunidade de grupo. Outra zona que foi ainda mais afectada não chegou aos 20%. Em Espanha, como um todo, este valor dilui-se, porque nem todas as regiões, felizmente, foram afectadas da mesma forma. Agora, repare que os estudos serológicos revelam que a percentagem de casos identificados é muito inferior à percentagem de casos reais. Ou seja, o vírus está a infectar 5 a 10 vezes mais pessoas do que aquelas que são identificadas e está a fazê-lo de forma invisível.

Outros estudos indicam a possibilidade de o nível de anticorpos decair ao fim de alguns meses.

É mesmo assim. Este vírus evolui para esse equilíbrio. É um vírus que causa uma infecção superficial das vias aéreas respiratórias, com muito pouca inflamação e por isso é que há muito pouca doença na maior parte das pessoas. Nós sabemos que há uma proporcionalidade entre o grau de inflamação e a resposta imunológica. É normal que este vírus – e são boas notícias – esteja a comportar-se como os coronavírus que já existem, que sabemos que causam imunidade de baixa duração e que estabelecem um equilíbrio dinâmico de infecção e reinfecção. São as tais constipações que as pessoas vão apanhando. As pessoas estão todas em diferentes fases de imunidade. Umas têm três, seis meses, três anos. As pessoas que tiveram uma infecção mais grave podem ter até 10 anos de imunidade. É esta heterogeneidade e este equilíbrio natural que define a imunidade protectora. Além disso, a imunidade não pode ser só medida em termos de concentração de anticorpos no sangue. Também existe uma imunidade que é celular, dada pelas células que combatem os microorganismos. Essa imunidade tem uma memória e essa memória, quando a pessoa é reinfectada, é estimulada e é protectora. Portanto, existem dois grandes tipos de imunidade: aquela que é estéril, que impede a infecção e é duradoura, e aquela que não é estéril, que não impede a infecção, mas que tem memória e protege contra a doença.

Em países que foram afectados mais cedo, nomeadamente na Europa, continuam a aparecer casos, mas parecem mais localizados. O que mudou?

O que mudou foi que houve um desenvolvimento dos testes e a aplicação de medidas de distanciamento físico. A combinação dos dois é muito poderosa. Sabemos que o vírus provoca muitas infecções invisíveis e, portanto, a probabilidade de ser erradicado e eliminado é muito pequena. Nunca se consegue prevenir e inibir os contactos entre a população e, portanto, vai haver sempre algum grau de transmissão. Agora que se começa a desconfinar – não vamos ficar em casa para sempre, porque morremos se ficarmos em casa – começam a aparecer alguns surtos e o que é fantástico é olhar para a Europa, nomeadamente para Portugal, e ver que eles são identificados e controlados. É assim que temos que fazer. Enquanto não tivermos vacina, temos que fazer um caminho em que vamos identificando os casos, fazendo o tal contact tracing e seguindo as medidas de distanciamento físico. Assim inibimos uma disseminação que seja descontrolada, sendo que a minha definição de descontrolada é sobrecarregar os sistemas de saúde e não conseguir proteger os grupos de risco. As pessoas, a sociedade, não podem ficar em pânico e ter medo. Esta é a pandemia do medo. Temos de parar com isso, temos conhecimento, temos as ferramentas. As pessoas não podem ficar com medo sempre que surge um surto.

Qual é a sua expectativa em relação às vacinas?

Tenho uma grande expectativa, mas também alguma reserva. Sabemos que fazer uma vacina é difícil. Existem três vacinas que estão numa fase muito avançada de estudo, que estão a ser testadas numa situação real, milhares de pessoas estão a ser vacinadas. Procura-se perceber se essas vacinas, que tiveram estudos prévios em que produziram imunidade, são eficientes e seguras em situação real, em que há muita gente infectada.

Daqui a, se calhar, seis meses estaremos na posição de ver se as vacinas funcionam. E é bom que existam quase 150 projectos de vacinas, todos em fases diferentes. Estou esperançoso. Agora, quando chegarmos lá, teremos outros desafios, nomeadamente a forma como se vai utilizar a vacina. Teremos que analisar, em função do resultado que a vacina nos der, como é que a vamos usar. Teremos que a produzir e depois utilizá-la de forma correcta.

Em termos de tratamento, é expectável vir a ter algum medicamento específico?

Existem estudos a decorrer e em ciência tudo pode acontecer. Não é fácil ter medicamentos específicos para vírus. Os vírus usam os próprios mecanismos das células para se replicarem e é difícil encontrar mecanismos inibidores dessa multiplicação que não interfiram com a célula, mas é possível. Temos vários antivirais, nomeadamente para o VIH, Hepatite C, que agora até eliminam o vírus. É um avanço fantástico. Já temos dois medicamentos que ajudam muito. Um corticosteróide, a Dexametasona, um anti-inflamatório potente, que se certificou que ajuda nos casos de infecção respiratória severa. E temos um medicamento que inibe a replicação do ácido nucleico, o Remdesivir, que também funciona, de certa forma, contra este coronavírus e que tem o efeito de encurtar em um ou dois dias alguns casos severos de internamento hospitalar, em unidades de cuidados intensivos. Em termos de medicamentos, existem estes dois, mas a cultura humana é muito inovadora.

Que lições retiraremos desta experiência única?

No que diz respeito ao vírus, é muito importante que se tenha a coragem de utilizar o conhecimento científico em novas situações, porque isso salva vidas. Utilizar o conhecimento que foi adquirido durante muitos anos sobre coronavírus. Não me revejo na situação de que não conhecemos nada sobre este vírus. Outra lição, mais generalista, é que o pânico e o medo não são bons. O pânico e o medo vêm de uma situação de emergência, mas quando temos conhecimento sobre as coisas isso desaparece. Depois, faz-se muito a pergunta “será que estas pandemias vão ser uma coisa frequente?” Não têm que ser. Sabíamos que ia acontecer, isto é uma boa lição, mas não têm que ser frequentes, porque sabemos como as podemos evitar: respeitando a natureza. Os vírus não aparecem de geração espontânea, vêm de outros animais. Temos de arranjar forma de viver em equilíbrio com a natureza. Depois desta pandemia, a probabilidade de termos outra é menor, porque aprendemos, evoluímos e vai haver toda uma sensibilidade para tentar evitar que aconteça.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 973 de 22 de Julho de 2020. 

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,25 jul 2020 6:49

Editado porFretson Rocha  em  20 out 2020 23:20

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