“Estamos todos destruídos. É dor e esperança”

PorNuno Andrade Ferreira,21 mar 2020 8:40

Medo, ansiedade, dúvida mas também confiança de que o pior acabará por passar. O mundo está em alerta e a diáspora cabo-verdiana em sobressalto.

Com a pandemia de coronavírus a avançar, milhares de cabo-verdianos espalhados pelo mundo têm as suas rotinas alteradas. São cada vez menos os países imunes ao SARS-CoV-2, causador da doença Covid-19.

A Organização Mundial de Saúde declarou a Europa como o novo epicentro pandémico. Fecham-se fronteiras, decreta-se quarentena obrigatória e isolamento social, fecham-se todas as actividades não essenciais.

Itália, com cerca de 30 mil casos confirmados e mais de dois mil mortos é, nesta altura, o principal foco de preocupação.

Residente em Roma, Maria Silva explica que tudo se tornou mais difícil a partir do momento em que foram proibidas as deslocações, salvo em casos absolutamente excepcionais.

“Tens que declarar que vais trabalhar, que estás a fazer deslocações por motivos estritamente necessários. As escolas e universidades estão fechadas. As pessoas são aconselhadas a ficar em casa, para que não saiam à rua”, afirma.

Perante a rápida propagação do vírus, o isolamento social revela-se a forma mais eficaz de reduzir o ritmo de contágio.

Apesar de ter uma taxa de letalidade relativamente baixa (varia de país para país, entre menos de 1% e acima de 6%), a Covid-19 desafia os sistemas de saúde, incapazes de responder à elevada demanda. Isto significa que, rapidamente, deixam de conseguir providenciar os cuidados necessários a todos aqueles demandam esses cuidados.

Itália é um país em suspenso. “Apenas farmácias e supermercados, e com horas bem estabelecidas, estão abertas, porque sem medidas drásticas não há como ultrapassar este problema”, declara Maria Silva.

Aligeirar a curva de propagação é o que se pretende. Se reduzirmos os contactos com outras pessoas, diminuímos a probabilidade de contagiar ou sermos contagiados.

Contudo, nem todos podem ficar em casa. Manuel Matias, outro cabo-verdiano residente em Itália, cidade de Nápoles, é mecânico numa empresa que presta serviço ao Estado

“Durante o dia, estamos no trabalho e à noite cada um vai para a sua casa. Entramos nos carros e vamos directos para casa. Ao chegar a casa, deixo na rua todas as roupas de trabalho. Depois, vou directamente para o banho e lavo tudo, inclusive o telefone, as chaves, tudo o que pode ter contacto externo, para que, ao entrar em casa, saiba que tudo está em segurança”, resume.

“Psíquica e moralmente estamos todos destruídos, mas é dor e esperança, medo do que está a acontecer e esperança de que vai passar. Olhamos na cara uns dos outros, à procura de conforto nos olhos do outro, porque estamos todos preocupados”, desabafa.

Em Portugal, a epidemia chegou mais tarde, mas já se encontra na fase exponencial, com taxas de crescimento diárias acima de 30 por cento. Até ontem, estavam confirmados mais de 400 casos.

Roberto dos Santos, residente nos arredores de Lisboa, fala de rotinas alteradas.

“Sinto uma grande diferença nas ruas, há menos carros, menos pessoas, boa parte das pessoas que se vêem estão a usar mascaras, há definição do número de pessoas que podem entrar nos estabelecimentos, que também alteraram o horário de funcionamento”, explica.

Espanha é outros dos países europeus no ‘olho do furacão’, com mais de 11 mil casos (números de ontem) e 500 mortos confirmados. Na capital espanhola, a cabo-verdiana Regina Rocha está fechada em casa.

“Espero que isto se resolva bem, que as pessoas fiquem em casa. Eu, no meu caso, trabalho directamente com atendimento ao público e pediram-nos para ficarmos em casa. Estamos solidários com os nossos colegas dos supermercados que têm que ir trabalhar. Estar em casa é uma forma de ajudar”.

A Covid-19 é particularmente grave nos chamados grupos de risco, no qual se inclui a população mais idosa ou portadora de outras patologias que, de alguma forma, comprometam o sistema imunitário.

Na maior economia do mundo, Estados Unidos da América, vivem-se dias de expectativa.

“Até agora, não se sabe bem o que irá acontecer e infelizmente o presidente e as autoridades médicas estão a enviar sinais contraditórios”, avança José Macedo, residente no Estado de Massachusetts.

Sem um sistema nacional de saúde ou um verdadeiro estado social, milhões de americanos encontram-se desprotegidos.

“Não se sabe o que pode acontecer amanhã. Disso é que as pessoas estão com medo, que possa acontecer de repente e depois isso afecta tudo”, admite.

O novo coronavírus, SARS-CoV-2, foi primeiro detectado em Dezembro de 2019, na cidade chinesa de Wuhan. Mais de 80 mil pessoas foram infectadas no país (3.226 mortos até dia 17). A China está numa fase descendente do surto epidémico, com cerca de 20 casos diários.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 955 de 18 de Março de 2020. 

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,21 mar 2020 8:40

Editado pormaria Fortes  em  7 abr 2020 17:19

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