COVID-19 obriga as famílias a mudarem planos de férias

PorSheilla Ribeiro,30 ago 2020 11:08

Normalmente o Verão é sinónimo de festas, festivais, praia e viagens. Entretanto, devido às mudanças provocadas pela COVID-19, por cá, este ano as férias de Verão estão um pouco diferentes, sobretudo para aqueles que todos os anos vão para a Europa e para aqueles que planearam a viagem para Agosto deste ano.

As mudanças provocadas pelo coronavírus deverão permanecer entre as pessoas por muito tempo. Economia, emprego, relações sociais e férias estão entre os aspectos que sofreram significativas alterações. Não se sabe quando o governo vai aliviar as restrições. Na praia, nos restaurantes e nas discotecas o risco não é igual. Afinal, como vão ser as férias?

Joana (nome fictício) casou-se em Agosto do ano passado em Portugal. A família tinha planeado festejar as bodas de papel, o primeiro aniversário de casamento, também em Lisboa. Ia ser “uma grande comemoração”, mas tudo mudou.

“A pandemia mudou tudo, não só as férias, mas tudo. Tinha planeado festejar o aniversário do meu casamento em Portugal, uma grande comemoração mas tudo mudou. Aliás, todos os meus planos de 2020 foram alterados em relação às férias”, lamenta.

Sem viagens, nem passeios

Antes do coronavírus, Joana e a família viajavam para o exterior durante as férias de Agosto, a fim de “passar bons momentos”. Este ano, as férias vão ser aproveitadas, num cenário diferente, dentro de casa.

“Não vamos sair nem para ir até ao Rui Vaz visitar os nossos familiares, Aliás, há mais de quatro meses que não saímos da cidade da Praia”, conta esta entrevistada, enfatizando que para passar o tempo vai fazer um pouco do mesmo, limpar a casa, cozinhar, ver televisão e jogar com os filhos.

Os filhos, conforme diz, já “estão saturados” de ficar em casa, por isso, assistir à televisão ou jogar, deixou de ter piada. Segundo descreve, o habitual para eles é começar um rodízio de festas de pijama em Julho com os amigos, até meados de Agosto, quando as famílias viajam.

“Eles têm um grupo de amiguinhos e sempre, no mês de Julho, começam a fazer festas de pijama. Cada dia a festa é em casa de uma pessoa do grupo e por esta altura, mês de Agosto, as festas terminam porque cada um vai viajar com a família. Este ano, por conta do vírus, não houve festas de pijama, “lamenta Joana que garante que no próximo ano vai fazer em dobro tudo que estava planeado para este ano.

Para Maria (nome fictício), assim como Joana, este ano as férias foram diferentes. Ao invés de viajar, ou passar os finais de semana no interior da ilha de Santiago, a contabilista teve de alterar os planos para passar o tempo em casa.

“Antes da pandemia, quando eu não viajava para o exterior, que é o que normalmente faço, passava os finais de semana no interior. Ora ia ao Tarrafal, a Santa Catarina, a Calheta, mas este ano foi tudo dentro de casa. Tudo mudou”, ressalta.

Sem poder sair de casa, Maria aproveitou para aprender receitas e trabalhos manuais no Youtube e cuidar das plantas. Entre os novos conhecimentos, ressalta ter aprendido a fazer utensílios de casa reciclados, como vasos a partir de algo “velho”.

Ainda que tenha sido “bom para descansar”, espera que para o ano tudo seja diferente de modo a poder retomar o seu modelo de férias. Modelo este que se resumo a viajar, sair e divertir-se.

Mudança de planos

Aqueles que viajam para o exterior regularmente programam as suas viagens com antecedência. Com as viagens internacionais restringidas e o medo de se expor ao risco de contrair o vírus, os planos de férias mudam.

Há cinco anos que o comerciante Jocelino Melíssio não goza as férias, por ser responsável pelo negócio familiar. Este ano a intenção era ir aos Estados Unidos de América ou Europa visitar familiares que há muito não vê.

“Já tinha os planos feitos. Fiz o pedido de visto entre Fevereiro e Março que era para eu ir ao casamento de uma sobrinha nos Estados Unidos de América. Só que veio a pandemia e deu tudo para o torto. Agora é esperar as coisas melhorarem e ver se posso ir até à Europa, pelo menos a negócios e assim aproveitar ainda e ir a França ver a minha irmã que desde 2003 não vejo”, refere, esclarecendo que ainda não tinha comprado os bilhetes uma vez que estava a tratar do visto.

Jocelino Melíssio espera que tudo volte a ser como antes, sem as restrições com as medidas sanitárias e a imposição da realização dos testes antes de viajar.

Ângela Pinto, apoio operacional na Delegacia de Saúde de São Vicente, confessa que muita coisa mudou nas suas férias devido à pandemia. Sobretudo por ser uma pessoa que gosta de convivência e de estar com os amigos.

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“Sou de Santo Antão mas agora vivo em São Vicente, estou a estudar. Quando estou de férias costumo ir a Santo Antão, faço viagens pela ilha, vou para as montanhas, gosto de andar, visitar comunidades, conviver com as pessoas e não só. Gosto de ir a restaurantes, estar com a minha filha, mas agora estou muito limitada por causa da questão de aglomeração. Tentamos sempre evitar estar nos lugares com muita gente” aponta.

Visto que a recomendação é evitar a aglomeração de pessoas, Ângela Pinto, pretende tomar férias para “descansar” a mente, por ter sido um ano “muito stressante”.

“Pretendo tomar férias para descansar a mente porque foi um ano muito stressante, principalmente para os profissionais de Saúde. Então tenciono ficar mais perto da minha família, ficar com os meus pais e a minha filha, se calhar fazer alguns programinhas com a família dentro de casa”, salienta.

Ficar dentro de casa, para esta entrevistada é “uma mudança drástica”, aliás, frisa, a pandemia afectou muita gente de muitas formas.

“A pandemia priva-nos de fazer o que gostamos, de estar mais próximos das pessoas de quem gostamos. Por exemplo, eu que gosto de visitar muitas pessoas tenho de evitar isso, não posso ir a casa de ninguém agora, as minhas saídas são bastante restritas e quando é para sair é para fazer algo muito necessário. A única visita que eu posso fazer é ir a casa dos meus pais que fica em Santo Antão”, lastima.

Explorar o potencial do turismo interno

Desde que o coronavírus se espalhou pelo planeta, países começaram a proibir a entrada de estrangeiros e as companhias aéreas limitaram os voos por falta de demanda. Uma das consequências prováveis da pandemia é a procura de destinos mais próximos.

Para o vice-presidente da Associação das Agências de Viagens e Turismo de Cabo Verde (AAVTCV), Bino Santos, é preciso reconhecer a cultura de férias internas, tendo em conta que muitos cabo-verdianos procuram gozá-las fora do país. Agora, profere, é tentar convencer as pessoas do potencial do turismo interno, o que é “um bocado complexo” por causa da pandemia.

“Em primeiro lugar as pessoas querem saber se há segurança para onde vão, a questão de segurança interna, essencialmente depois vencer também a questão do preço em relação ao que é habitual nas férias que têm feito anteriormente”, esclarece.

Neste sentido, Bino Santos explica que a AAVTCV está a trabalhar com os operadores para garantir que haja segurança sanitária nos hotéis, nos transportes e também que os preços sejam mais atractivos.

O mês de Agosto sempre foi marcado por festivais e aqueles que moram fora das ilhas de origem costumam regressar para festejar. Entretanto, este ano, Bino Santos informa que a procura é essencialmente daqueles que queiram fazer retiro familiar ou retiro de casal.

Esses, especifica, procuram pequenos estabelecimentos que tenham condições, essencialmente sanitárias e que tenha uma piscina. Além disso, preferem lugares que oferecem apartamentos ao invés de quartos normais de hotéis, para que possam estar mais isolados.

“A procura baixou consideravelmente, é muito baixa, o único problema agora é essencialmente a questão de fazer testes rápidos. O processo de fazer teste não é algo muito rápido e ainda as pessoas têm de ficar em filas ali na delegacia de saúde”, anuncia.

Por esta razão, o vice-presidente da AAVTCV é de opinião que é preciso ter condições atractivas para facilitar o processo de viagem. Apesar do contratempo, Bino Santos afirma que há pessoas que têm procurado essencialmente os pacotes de pequeno retiro que as agências de viagem têm lançado.

“Estão interessadas em pequeno retiro, porque, lá está, as pessoas têm estado muito tempo confinadas e então querem fazer uma escapadinha o mais perto possível”, observa, apontando a ilha do Maio como um dos destinos mais procurado pelos santiaguenses.

“A ilha do Maio é a mais procurada por ter um custo mais baixo de barco e ser mais perto. A pessoa tem a possibilidade de ir numa sexta-feira à tarde e regressar no domingo, o que é excelente. Estão também a procurar a ilha do Fogo. Em São Vicente já criamos pacotes para a ilha de Santo Antão já que as pessoas estão a procurar o mais próximo e o custo é menor.

*com Sara Almeida e Fretson Rocha

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 978 de 26 de Agosto de 2020.

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Autoria:Sheilla Ribeiro,30 ago 2020 11:08

Editado porJorge Montezinho  em  24 out 2020 23:21

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