Entre a gestão da pandemia e a recuperação económica

PorAndre Amaral,1 ago 2021 9:12

A opinião é comum a todos os entrevistados que defendem que enquanto a economia mundial, especialmente a europeia, não derem sinais de retoma a economia cabo-verdiana não vai sair da situação em que se encontra.

Ouvido pelo Expresso das Ilhas, o Presidente da Câmara de Comércio de Barlavento, Jorge Maurício, defende que é impossível, hoje, fazer uma comparação entre Cabo Verde de hoje e o de 2019. “É comparar o incomparável”, diz.

Recordando que antes da pandemia o crescimento económico de Cabo Verde rondava os 6%, Jorge Maurício aponta para a quebra de cerca 14% que o PIB sofreu e que foi provocada pela pandemia de COVID-19. “Isto diz tudo, demonstra a fragilidade dos tecidos dos pequenos estados insulares em desenvolvimento e Cabo Verde não fica indiferente acima de tudo por causa do turismo”.

A pandemia, reforça, fez com que cerca de um quarto do rendimento de Cabo Verde tivesse desaparecido. “Este desaparecimento teve consequências nefastas” e que fazem com que “não se possa dizer que estejamos bem. Não estamos”.

Para o Presidente da Câmara de comércio de Barlavento há, no entanto, que louvar a gestão que tem sido feita da pandemia. “Tem sido equilibrada entre o sanitário, o social e o económico. Na vertente sanitária tem havido uma intervenção muito forte que tem permitido uma gestão sem stress” o que, defende, traz conforto à população e contribui para fazer reduzir o número de casos “para valores baixíssimos”.

Jorge Maurício apela para que estes cuidados se mantenham por forma a evitar que “após o Verão não haja uma vaga forte” de COVID-19 que venha obstruir o Sistema Nacional de Saúde e “gerar desconforto e mais perturbações na parte sócio-económica”.

A situação de Cabo Verde não voltará a ser igual ao pré-2019, defende ainda Jorge Maurício, “poderá ser melhor, poderá ser pior. Mas parece-me que igual nunca voltará a ser. Mas o ponto-chave é a recuperação do turismo. Enquanto não houver a normalidade da actividade turística não haverá uma retoma da nossa economia”.

Turismo e transportes

Para Alexandre Novais, empresário do ramo da hotelaria, “a grande questão é a incerteza, a incógnita que ainda paira nos negócios, no futuro mais ou menos próximo”. Por isso, defende, a retoma da economia está condicionada pela retoma da economia internacional que “embora tenhamos sinais claramente positivos, ainda não pode ser claramente planificada”.

Lembrando as previsões de início da retoma, feitas pela União Europeia, “que é o nosso mercado mais próximo” apontam para Setembro como sendo a altura em que se possa entrar “numa nova perspectiva”. Alexandre Novais destaca que “essa retoma vai coincidir com a época alta do turismo nacional e isso poderá ser positivo para nós”.

Para Alexandre Novais os transportes são, igualmente, essenciais para que essa retoma se possa efectivar. “As questões relacionadas com os transportes internos podem hipotecar qualquer estratégia” e, por isso, “enquanto não tivermos uma solução eu diria que, mais do que a nossa ligação com o exterior, se não houver um sistema de transportes regular, fiável e a bom preço não vejo como a economia interna possa criar alguma robustez”.

“O foco tem de estar na solução para os transportes interilhas, mais os aéreos que os marítimos”, aponta.

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“Queira Deus que ao sairmos desta pandemia sejamos mais competitivos, mais criativos”

O discurso de António Ludgero Correia é mais centrado no debate político que vai acontecer na sexta-feira, na Assembleia Nacional, e que vai marcar o encerramento de mais um ano político.

Sobre a situação de Cabo Verde comenta: “É o paraíso terrestre de um lado e o inferno de Dante do outro”. “Mas a nação em que eu vivo tem conquistas, tem problemas, tem promessas a cumprir e uma certa crise de liderança”, acrescenta.

Ludgero Correia lembra os três maus anos agrícolas que afectaram Cabo Verde e aponta para “as perspectivas nada auspiciosas deste ano”. Mas Cabo Verde é, também, um país “a braços com o desemprego que foi agravado com a pandemia, a braços com empresas que foram fechando”.

Economicamente, defende, a “economia cabo-verdiana é uma economia de milagres, a produtividade é baixa, a competitividade é limitadíssima. Mas temos uma frota automóvel que é um mimo, um parque habitacional de mansões que ninguém consegue compreender”.

A produção da economia nacional “é praticamente nula, a nossa competitividade externa é preocupante. Queira Deus que ao sairmos desta pandemia sejamos mais competitivos, mais criativos e conseguirmos partir para uma ‘nova largada’. As receitas ficais caíram, as receitas de capital quase não existem e as despesas foram aumentando”.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1026 de 28 de Julho de 2021.

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Autoria:Andre Amaral,1 ago 2021 9:12

Editado porSheilla Ribeiro  em  23 set 2021 23:20

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