Chuvas fortes relembram problemas antigos em São Vicente

PorNuno Andrade Ferreira*,17 set 2022 9:01

Habitações precárias, construções em ribeiras ou zonas não consolidadas, falta de um sistema de drenagem capaz de afastar o caudal de cheia da baixa da cidade. São Vicente e a chuva continuam a ter uma relação difícil.

“Basicamente perdemos tudo”, começa por relatar Rosilene, moradora em Ribeira de Calhau, São Vicente. “A água tinha mais de um metro de altura, tudo estava a boiar e agora está tudo enlameado, a roupa, a comida, as mobílias de casa, tudo foi danificado. O meu marido feriu-se enquanto estava a tirar a avó do quarto, foi levado para o hospital pelos bombeiros”, acrescenta.

A família de Rosilene é mais uma das muitas afectadas pelas chuvas fortes de 6 de Setembro. Choveu como há muito não chovia, com intensidade e duração pouco habituais. Muitos viram a água entrar em casa e destruir o pouco que tinham. Habitações precárias ou construídas no curso da água voltaram a sofrer as consequências das enxurradas.

Andreia mora numa das zonas de Espia, bairro da periferia do Mindelo. Estava a trabalhar quando a chuva aumentou de intensidade. “O nosso patrão não nos estava a deixar sair para ir para casa. Ligaram à minha mãe a avisar do sucedido, mas já não deu tempo para salvar nada. Praticamente, ficámos com a roupa do corpo”, lamenta.

Em rigor, não há aqui nada de novo. Se a chuva cai forte, os problemas acontecem. As fragilidades habitacionais e de ordenamento do território vêem ao de cima, deixando famílias desalojadas e a ilha intransitável. As obras de drenagem realizadas na última década ajudam a um escoamento mais rápido da água, mas não respondem à questão de fundo.

De acordo com a engenheira civil, investigadora e professora da Universidade Técnica do Atlântico (UTA), Vera Marques, continuam por concretizar trabalhos estruturais a montante e a jusante, capazes de controlar o caudal e proteger as populações.

“O escoamento das águas pluviais ocorre por gravidade, dos pontos mais altos para os mais baixos. Olhando para a orografia da ilha de São Vicente, conseguimos perceber várias bacias hidrográficas com a linha de água principal a atravessar a cidade e a terminar no mar”, comenta.

“Toda a cidade necessita de um sistema de drenagem de águas pluviais dimensionado para o caudal de cheia, que encaminhe essa água para o mar ou para reservatórios, permitindo o seu aproveitamento. A montante da cidade, a construção de albufeiras e diques de defesa permitiria o controlo do caudal de jusante, ou seja, que o caudal de ponta descarregado fosse inferior ao caudal de ponta afluente”, explica.

Além dos diques, a engenheira civil propõe a criação de zonas de encaixe de cheia, capazes de desviar parte do caudal para uma zona de pouca utilização social ou económica, onde a água possa ser armazenada.

Sobre as edificações nos leitos das ribeiras, a professora da UTA pede a criação e aplicação efectiva de mecanismos legais de ordenamento do território.

“O controlo da ocupação dos leitos de cheia e a conservação das linhas de água é fundamental para a mitigação das cheias, sendo indispensável a delimitação das zonas inundáveis nos planos de ordenamento do território. É fundamental criar e aplicar mecanismos jurídicos, regulamentares e de organização institucional e social, que não permitam essa ocupação”, resume.

Se a ocupação for inevitável, então, é necessário construir infrastruturas dimensionadas que permitam desviar o caudal de cheia, alerta a engenheira.

Na zona alta de Chã de Alecrim, as dores de cabeça foram muitas, com as ‘casas de tambor’ construídas na encosta a não resistirem ao mau tempo. Jennifer recorda momentos de pânico.

“Quando vi a água, coloquei as mãos na cabeça. Gritaram-me a dizer para sair, porque a água ia carregar a casa comigo dentro. Saí na rua, mas não consegui atravessar. Tive que subir aqui perto e ficar na casa de um vizinho. Quase fui levada pela água”, lembra.

“Dizem que vai chover mais. Estamos com medo, não temos onde ir, vamos ficar aqui”, desabafa.

Experiência idêntica teve Érica, moradora na mesma zona. “Foi a primeira vez que vi algo assim, fiquei com trauma, nem conseguia falar”, revive.

“A água passou por baixo da nossa casa, afundou a base. Se chovesse um pouco mais era bem capaz de levar a ‘varanda’, porque ali em baixo é só terra mole. A água veio e levou a terra”.

A resolução do problema, capaz de evitar a repetição de situações dramáticas, passa por trabalhos de consolidação das encostas, tanto através da plantação de vegetação, como com recurso a obras de contenção.

“A vegetação tem um papel fundamental em termos da estabilização dos solos em zonas declivosas. Além de atenuar os caudais máximos de cheia, havendo condições geológicas propícias, favorece o armazenamento nas reservas subterrâneas. Portanto, sendo possível, promover a plantação de árvores ou arbustos nessas zonas. Agora, isso pode ser difícil, devido ao clima local, com grandes períodos de seca. Nesse caso, a alternativa passa por obras de contenção dos terrenos”, analisa a professora da UTA, Vera Marques.

Da parte da Câmara Municipal de São Vicente, o vereador da Acção Social e Desenvolvimento Local, Rodrigo Martins, reconhece a necessidade de intervenções profundas e pede o apoio do governo. “A câmara sozinha não consegue, porque envolve muitos recursos. É necessário pensar na construção de mais diques de retenção”.

O autarca admite a seriedade dos riscos vividos por quem vive em barracas em encostas não consolidadas e garante acompanhamento às famílias por parte dos serviços sociais do município.

*com Lourdes Fortes

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1085 de 14 de Setembro de 2022.

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira*,17 set 2022 9:01

Editado porFretson Rocha  em  6 out 2022 18:20

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