“O sistema privado vai complementar o sistema público”

PorNuno Andrade Ferreira,26 nov 2022 7:42

Alicia Wahnon junto à placa que presta homenagem à sua mãe
Alicia Wahnon junto à placa que presta homenagem à sua mãe

Há quase 20 anos, com o marido, o também médico Júlio Wahnon, fundou a Urgimed, marca incontornável da prestação de serviços de saúde em São Vicente. Agora, dá um passo em frente, com a criação do Urgimed Health Hospitality, primeiro hospital privado do país. Alícia Wahnon defende a complementaridade público-privada.

Estamos nas instalações do vosso hospital. As obras começaram em 2020 e chegam agora ao fim. De onde surgiu a ideia deste projecto?

Estamos a trabalhar desde 2003 na Urgimed Lda. Em 2003, iniciámos numa garagem, com um único gabinete, que dava tanto para enfermagem, como para os consultórios. A demanda foi tal que em três, quatro meses tivemos necessidade de mudar de espaço e fomos para um outro local, numa cave, onde ficámos por três, quatro anos. Mais uma vez, a procura levou-nos a dar o passo seguinte, que foi construir o edifício da Urgimed Lda., na zona de Fonte Meio. Abrimos, então, novas valências, porque vimos que algumas outras coisas, nomeadamente alguns exames, poderiam ser úteis. Fizemos, então, o espaço onde estamos e continuaremos a estar.

A determinado ponto, sentimos que era necessário dar este novo passo, porque lá em baixo não trabalhamos 24 horas. Até agora, quando tínhamos um paciente que necessitava de continuar a receber assistência, o que fazíamos era encaminhar o doente para o Hospital Baptista de Sousa. Também no caso de turistas, os barcos trazem os turistas para consulta e se exigem internamento, não tínhamos essa resposta para dar e tínhamos que transferir.

No fundo, sentimos essa necessidade de criar um espaço onde poderíamos ter o nosso serviço de internamento, cirurgia e complementar todas as ofertas que já tínhamos.

Foi uma longa caminhada, um projecto no qual estávamos a trabalhar há muito tempo, por ser um projecto grande. No início, tivemos algum receio de investir, mobilizar o financiamento, os accionistas. Foi um trabalho muito árduo, muitas reuniões, trocas de ideias…

E no caso da maternidade?

A minha mãe foi parteira de várias gerações e quando eu era pequena acompanhava-a. Ficou-me aquele bichinho da maternidade e disse que se algum dia tivesse uma maternidade ia pôr o nome da enfermeira Severa Fontes. Foi isso que aconteceu.

Estamos a falar de um investimento de 2,5 milhões de euros ao qual está certamente associada uma perspectiva de sustentabilidade.

Foi até dos pacientes que recebemos esse input, quando nos questionavam “porque não fazem internamentos?”. Sabemos que os serviços públicos não estão a conseguir dar uma resposta capaz, por vários motivos, então, fomos beber dos pacientes. Nalguns casos, tínhamos que evacuar o paciente, porque não conseguíamos avançar mais, tínhamos esgotado todos os recursos.

Na Urgimed, tínhamos consultas de neurocirurgia, uma área específica, e o médico chegava num determinado ponto e perguntava “o que faço com os meus pacientes?”. A solução era mandar para a junta, para se evacuar o paciente. Estou a falar de neurocirurgia, mas outras patologias também podem vir fazer o seu diagnóstico, exames que têm que ser feitos, chegar ao diagnóstico e resolver o problema localmente.

A saúde é um bem precioso. Se sabes que estás com uma patologia, tens que resolver aquilo o mais depressa possível. Se tens possibilidade, vais resolver. Muitas vezes pensam que os serviços privados são para pessoas que têm poder financeiro. Na Urgimed, temos associados de todas as categorias sociais, de outras ilhas, que vêm cá fazer as suas consultas. Temos o sistema de associados, em que as pessoas pagam a sua quota e a família inteira beneficia. Na saúde, os cabo-verdianos gostam de investir e cuidar.

No acto de inauguração do hospital foi abordada a questão das parcerias público-privadas, numa perspectiva de o próprio sistema público beneficiar das vossas valências.

Creio que é um caminho a seguir e é o passo em frente que tem que ser dado. O governo tem que ver este aspecto da complementaridade, em que todos saem a ganhar. O sistema privado vai complementar o sistema público, fazemos parte do Sistema Nacional de Saúde e as mais valias que os privados podem trazer para o público são enormes. O privado poderia até investir mais, noutros sectores e noutras ilhas.

Ao abrirmos este espaço [o hospital], nunca o fizemos com a ideia de sermos dependentes do INPS ou de qualquer estrutura do Estado, mas para o bem dos utentes, para que todos possam beneficiar. É salutar que se consiga realmente esta complementaridade entre público e privado.

O nosso sistema de segurança social tem que intervir. Sabemos que devem ser feitas alterações jurídicas para que isso possa acontecer, porque como a lei está, neste momento, é tudo canalizado para o serviço público. Um trabalhador que faz os seus descontos para a saúde, se quiser ir ao privado, não tem nenhuma cobertura, paga na totalidade, quando poderia, pelo menos, ser comparticipado.

Temos que pensar na sustentabilidade do INPS, mas a comparticipação pode ser de diversa ordem e o utente que escolhe ir ao privado paga o restante. Acho que o caminho tem que ser esse e saímos a ganhar.

Em evacuações, o INPS gasta com a passagem, muitas vezes com a passagem do acompanhante, com a estadia. Não sou gestora, mas fazendo as contas, tudo isso somado… E não só em termos financeiros, em termos do paciente ficar cá, com a sua família, apoio dos familiares. Se pudermos resolver as coisas localmente... Não digo oncologia, porque é um sector muito específico e muito custoso, mas noutras especialidades.

Não temos em Cabo Verde uma oferta significativa em termos de seguros de saúde. Um investimento como o Urgimed Health Hospitality pode abrir espaço para o crescimento deste mercado?

Vai abrir, com certeza. Já estivemos em conversa com uma pessoa de uma seguradora, que já nos propôs uma reunião para tratarmos de alguns aspectos em relação a isso mesmo. É um caminho a seguir. Vamos ter essas valências de seguro de saúde e de alguma comparticipação desses serviços.

O que a deixa mais expectante em relação a este projecto?

Ver bebés a nascer aqui, ouvir feedback, porque os nossos serviços vão ser diferenciados. Vamos pôr o utente em primeiro lugar, servir, ajudar, não só com a parte profissional, mas também humana. É isso que vamos oferecer: a humanização dos serviços.

Texto publicado originalmente na edição nº1095 do Expresso das Ilhas de 23 de Novembro

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,26 nov 2022 7:42

Editado porSara Almeida  em  6 fev 2023 23:30

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