Paragem da Atunlo coloca sector em causa

PorAndré Amaral,31 mar 2024 8:11

Entrada da Atunlo em lay-off afecta a Frescomar que já está no mercado à procura de uma alternativa para o fornecimento de matéria-prima que lhe permita continuar a trabalhar.

A fábrica da Atunlo no Mindelo, a mais intensiva em mão de obra do grupo, está encerrada desde 23 de Fevereiro devido à falta de matérias-primas.

Segundo informações avançadas ao Expresso das Ilhas por Manuel Monteiro, adjunto do Presidente do Conselho de Administração da Frescomar, os problemas do grupo sediado em Vigo, Espanha, estão a afectar o normal funcionamento desta empresa.

Uma situação complexa que obrigou o governo a intervir. “Não sabemos tudo o que se passa entre os accionistas, mas estamos a trabalhar com eles todos os dias para que, no que diz respeito ao governo, este possa operar e aumentar o seu investimento em Cabo Verde”, disse o ministro das Finanças, Olavo Correia, no passado dia 7.

A unidade da Atunlo no Mindelo é uma instalação moderna com um centro logístico para descarga de navios e triagem de peixe inteiro. Segundo informações divulgadas pelo jornal Faro de Vigo, o seu entreposto frigorífico da Atunlo em São Vicente tem uma capacidade de armazenamento de 735 toneladas de produto e outras 2.000 toneladas a granel; a sua sala de transformação pode produzir 50 toneladas de atum inteiro e outras 35 toneladas de lulas congeladas. A sua especialidade são os lombos de atum refrigerados e congelados, bem como as lulas.

Cerca de 200 pessoas estão em regime de lay-off, recebendo metade do salário habitual não havendo, por enquanto, garantias de que a fábrica possa vir a retomar o seu funcionamento normal.

Esta situação da Atunlo, como já foi referido, está também a afectar a laboração da Frescomar.

Manuel Monteiro, adjunto do Presidente do Conselho de Administração desta empresa, explicou, em conversa com o Expresso das Ilhas que “neste momento, devido a alguns constrangimentos com a Atunlo a situação está um pouco caótica. Temos dificuldades em obter matéria-prima”.

As dificuldades financeiras que a Atunlo Espanha atravessa alastraram para a empresa em Cabo Verde causando assim problemas à Frescomar que perdeu acesso ao seu principal fornecedor de matéria-prima.

“A Atunlo Cabo Verde é a gestora da plataforma de frio. Nós somos accionistas e participamos na sociedade do consórcio que faz a gestão da Atunlo Cabo Verde. Mas a Atunlo Cabo Verde também pertence a grupos de sócios da Atunlo Espanha. Há algumas dificuldades da empresa em Espanha. Então a Atunlo Cabo Verde está praticamente fechada. Entrou em lay-off e não temos matéria-prima”, revela Manuel Monteiro.

Com grande parte do atum que era transformado na fábrica em Mindelo a ser fornecido através das embarcações que descarregavam na Atunlo Cabo Verde, a Frescomar está “com alguma dificuldade em obter a matéria-prima. Por isso, a nossa fábrica está a trabalhar, posso dizer, a meio gás, dada a dificuldade de obtenção da matéria-prima”.

Uma situação que já obrigou esta conserveira a procurar outras vias para tentar obter essa matéria-prima, mas “neste momento há alguma dificuldade em relação a isso”, admite Manuel Monteiro.

Problemas na produção

Enquanto esteve a laborar normalmente, a Atunlo fornecia à Frescomar cerca de 50 toneladas de atum por dia.

“Posso dizer que quase metade do pescado que trabalhamos diariamente vinha desse acordo que tínhamos com a Atunlo Espanha que nos fornecia o pescado”, destaca Manuel Monteiro. Por isso a entrada da Atunlo em lay-off obrigou a Frescomar a procurar alternativas e, também, a ter de diminuir, ainda que temporariamente, a força de trabalho.

“Nós, há bem pouco tempo, tivemos que colocar um grande grupo de trabalhadores em casa. Não foi em lay-off, porque esses trabalhadores ficaram em casa a receber, a empresa fez um esforço e eles ficaram quase um mês em casa a receber. Nós recentemente incorporamos esses trabalhadores, voltaram a trabalhar e estão a trabalhar todas na linha de conserva. Nós estamos a fazer um esforço para não desprender desses trabalhadores, porque estamos com muita fé que brevemente vamos conseguir, obter as matérias-primas através de outras vias, ou através da Atunlo”, explicou.

Problemas em Espanha

A situação da Atunlo Cabo Verde está umbilicalmente ligada aos problemas vividos em Espanha pela sua empresa-mãe.

Em Novembro do ano passado, segundo revela o jornal La Voz de Galícia, a Atunlo entrou em processo de pré-insolvência.

O mesmo jornal explicava que a empresa, que é líder na comercialização de atum em Espanha, declarou falência para aliviar a sua situação de tesouraria e devido à impossibilidade de fazer face às suas despesas correntes.

A mesma fonte revelou que a direcção da Atunlo informou os seus trabalhadores em Espanha que o plano de reestruturação que vai ser trabalhado no âmbito do pré-concurso de credores e “afectará essencialmente a estrutura do passivo”. Por outras palavras, a reestruturação da Atunlo, em Espanha, vai ser centrada na compatibilização entre o pagamento da dívida da empresa e a manutenção da sua actividade e negócio, e não na venda de activos.

O comunicado divulgado pela administração da empresa acrescentava que “é intenção do órgão de gestão que, caso sejam adoptadas medidas operacionais essenciais para a reestruturação, estas tenham o menor impacto possível para os trabalhadores”, acrescentando que “o exposto não terá impacto no desenvolvimento da actividade da Atunlo, que decorrerá com a mesma normalidade”. A empresa registou um volume de negócios de 221,56 milhões de euros em 2022 e um lucro de 1,13 milhões.  

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1165 de 27 de Março de 2024.

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Autoria:André Amaral,31 mar 2024 8:11

Editado porSara Almeida  em  19 abr 2024 20:20

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