2026 vai ser um ano de eleições. Como é que vê estes próximos embates eleitorais?
Cabo Verde está perante um teste em 2026. Um teste político, mas eu diria também que é um teste económico não apenas porque o ano é de eleições, mas porque estas eleições também ocorrerão num mundo profundamente instável e nós somos um país ainda estruturalmente vulnerável. Portanto, a tentação será de ler-se 2026 como mais um ciclo eleitoral previsível, com alguma alternância do discurso, intensificação das promessas, uma espécie de ritualização que nós temos de conflito político, mas essa será a leitura mais confortável não será suficiente porque neste ano de 2026 pode ter outras questões em jogo e questões mais profundas e esta é a minha grande preocupação porque eu acho que não vejo que se esteja a importar-se muito com estas questões mais profundas que têm a ver, por exemplo, com a capacidade do país se proteger ou proteger o seu principal activo num mundo extremamente complicado hoje, que é a estabilidade. Preservar a estabilidade, a estabilidade que todos afirmamos, mas que corre o risco de ela mesma se transformar numa espécie de slogan vazio e se não prestarmos atenção esta estabilidade pode também ser um dano colateral na competição política que vamos ter este ano. Cabo Verde, não digo nada de novo, é um país que vive do turismo, vive das remessas da sua diáspora, vive também da confiança externa, porque esta confiança externa que Cabo Verde construiu durante muitos anos e que é um pilar que nos tem ajudado, sobretudo em períodos de choques internacionais. É neste contexto global que todos já conhecemos das guerras que existem, das tensões geopolíticas que também existem. Tudo isto acaba também por retrair a economia, retrair os mercados emissores de turistas, cria também incertezas no plano financeiro. Portanto, a margem de erro é mínima, não podemos errar neste ano, temos eleições, mas é um ano muito instável. Em países como Cabo Verde temos que ter a consciência de que a estabilidade política de que nós falamos, não é o luxo, não é o atributo simbólico, é uma condição da nossa própria sobrevivência, não se pode alienar este activo em nome de nenhuma eleição. Agora, nós estamos cientes que alguns projectos ganham visibilidade nos anos eleitorais, há alguma hiperactividade que acontece nas realizações, mas por vezes também falta uma visão estratégica. Espero que não se entre naquela lógica de prazos, que é orientada mais pela disputa eleitoral e que às vezes muito pouco tem a ver com a sustentabilidade futura.
Acha que essas tensões se vão prolongar para este ano e agudizar, uma vez que estamos em ano de eleições?
Bom, esse é o meu receio, mas eu tenho quase a certeza de que vão. Essa polarização vai aumentar e vai, naturalmente, ter impacto. Ela pode não se limitar àquilo que a gente faz, mas para os eleitorais não se limitar, aquilo que a gente faz nos períodos eleitorais não se limita ao período eleitoral, porque acaba por se infiltrar nas relações sociais, nas instituições intermédias, na percepção que nós poderemos ter do interesse nacional. Portanto, o perigo não será um perigo, digamos, de uma crise institucional, mas uma erosão lenta e silenciosa da coesão social como nós vimos assistindo neste 2025, portanto, precisamente num contexto em que o país mais precisa de uma espécie de unidade estratégica para enfrentar o mundo que é cada vez mais incerto. Portanto, aqui a classe política tem que dar um exemplo diferente do que deu em 2025, porque veja que não se conseguiram produzir consensos. Em Cabo Verde tudo se pode discutir, não há aquilo que em outras paragens se costuma chamar de mainstream, aquelas coisas que nos unem, aquela terra que é comum, que nós devemos preservar. Mas não, aqui não se tem isso, tudo é polarizável, tudo é discutível, tudo se torna muito corrosivo, sobretudo com alta intensidade de comunicação nos períodos eleitorais, mas é preciso ter em conta Cabo Verde construiu um percurso de reputação internacional como país previsível, como país moderado, como país confiável, em que esses padrões de radicalização dos discursos têm que ser evitados. Nós não podemos ficar a importar estes conflitos que nós assistimos, porque isto para nós, para o país com as nossas características, é um grande problema. Portanto, a grande questão para o ano de 2026 não será apenas quem vence as eleições, mas é sobretudo se o país consegue atravessar este processo eleitoral sem se transformar numa competição democrática que ameaça a própria estabilidade estratégica. Em última instância, 2026 será um teste será um teste para a maturidade colectiva e se me perguntar se eu vejo bons sinais, eu digo francamente que não. Se se transportar para 2026 aquilo que nós percebemos e que aconteceu em 2025, podemos estar a caminho de uma maior fragmentação e uma maior lógica de polarização do que nós assistimos em 2025.
A pessoa que deve ser o fiel da balança neste jogo político é o Presidente da República. Que leitura faz do silêncio do Presidente da República sobre estes casos mais polémicos que marcaram o ano?
O nosso grande drama em Cabo Verde são os silêncios estratégicos. Os altos dignatários do país, neste tabuleiro, jogam muito daquilo que são os seus interesses particulares. Eles querem ser reeleitos e, muitas vezes, os grandes interesses da República são sacrificados no altar destes interesses particulares. Eu não diria tanto sobre posicionamentos sobre os acontecimentos a nível internacional. Eu falo da estabilidade nacional, da voz que é o fiel da balança, que está acima das questiúnculas e deste discurso polarizado na República, mas às vezes o exemplo não vem de cima. Liderar pelo exemplo é uma coisa que Cabo Verde precisa como de pão para a boca, porque quando são os líderes políticos a radicalizar o discurso depois então todos nós dizemos à posteriori que o país está a ficar radicalizado, que não há grandes consensos, que não se consegue construir o mainstream, que aqui tudo se torna discutível na praça pública, pois está de ser sacrificados.
O ano passado ficou marcado pelas comemorações dos 50 anos da Independência. Agora, no próximo dia 13, temos os 35 anos do dia da Liberdade e da Democracia. Que sinais é que estão a ser emitidos, ou deveriam ser emitidos para consolidar este pluralismo político em Cabo Verde?
Eu acho que tem interesse nós percepcionarmos correctamente o país que nós temos, da sua grandeza, naturalmente, daquilo que são os seus valores, daquilo que nós construímos ao longo deste percurso, mas também daquilo que são as suas fragilidades. Estes marcos são frequentemente evocados em tom muito celebratório, digamos assim. Mas eu acho que estes marcos devem ter um significado muito mais exigente. Já não servem apenas para afirmar um percurso, mas devem ser também para questionar a sua maturidade, os seus limites, os seus custos, num mundo profundamente instável. Cabo Verde construiu a sua trajectória nesta combinação rara da estabilidade política, de moderação institucional e também de uma forte inserção num mundo, neste contexto internacional marcado muitas vezes por tensões geopolíticas, por fragmentações económicas e, por vezes, até a retracção da própria cooperação, que é crucial para nós. Então, é nesta base que nós construímos. Eu acho que estas datas não devem assumir, essencialmente, um tom celebratório. Devem ajudar-nos a reflectir sobre este estado insular que nós temos, este país exactamente dependente do turismo, das remessas da nossa diáspora, da consolidação da nossa autoconfiança externa, da previsibilidade política. Os políticos, ao mais alto nível, têm de encarar isso de frente e proteger o país e não entrar naquela lógica da competição política que ameaça quase tudo. Eu acho que nós somos um país novo, 50 anos de independência e 35 de democracia, não são muitos anos mas são suficientes para nos debruçarmos e conhecermos melhor o país e sabermos como protegê-lo. Os cabo-verdianos sentem que por vezes falta a classe política assumir de uma outra forma o país que nós somos e não passar estas datas a celebrar, parece que é tudo mais fácil na retórica, na narrativa política, mas precisamos cuidar da cultura política do Estado. Após 35 anos de democracia, é claro que tem sim regras consolidadas, tem processos eleitorais credíveis, tem instituições que funcionam, mas a democracia não é um dado adquirido. Temos que exercer vigilância permanente à qualidade da nossa democracia a gente não vai discutir se este país é democrático ou se não é, mas temos que discutir se estávamos a qualificar ou se não estávamos a qualificar esta democracia, porque com esta polarização crescente, este discurso radicalizado, essa dificuldade de se reconhecer o próprio adversário e estas promessas num quadro de um facilitismo extraordinário, eu diria até medonho, estes sinais mostram um desgaste que não são propriamente indicadores clássicos de democracia, porque podem corroer silenciosamente o seu funcionamento.
No cenário internacional, já há muitos anos que não se tinha uma situação de instabilidade tão grande como temos agora, mas há também desafios a nível interno. Quais acha que são os principais desafios de Cabo Verde para 2026?
Ora, eu posso até retomar aquilo que ele disse no início. É não encarar estas eleições como mais umas, São eleições que vão acontecer num cenário internacional particularmente exigente e nós somos o país aberto. Portanto, o mundo atrasa este país permanentemente. E se o mundo está instável, eu diria até hoje, estruturalmente, com conflitos armados, uma fragmentação profunda do sistema internacional, vejo até a grande erosão das regras multilaterais eu há dias até em tom meio a brincar, eu disse que eu rasguei o último exemplar que eu tinha da Carta das Nações Unidas porque eu não sei porquê é que serve. Há uma espécie de reconfiguração das cadeias económicas também globais, em função destas dinâmicas geopolíticas que acontecem no mundo. Os países também se autoprotegem mais, contrariando toda a lógica da globalização. A imprevisibilidade, sobretudo das grandes potências, é enorme e tudo isto, ou seja, já se fará ver como é que isto retroage sobre os países periféricos, os países em que a vulnerabilidade se torna muito mais exposta. Nós temos essa tendência, aqui no país, de olhar para a instabilidade global como um fenómeno muito distante. Mas ela manifesta-se de forma directa naquilo que sustenta a nossa economia que é nosso turismo. Eu disse há uns tempos atrás que a Europa apanha uma gripe, mas são as ilhas da Boa Vista, do Sal a tossir e ir para a cama, porque o impacto internacional é directo. O turismo internacional, as remessas da diáspora, o acesso ao financiamento externo, a cooperação internacional, são os nossos pilares de desenvolvimento. Qualquer retracção criaria toda uma instabilidade que podia levar-nos a reorientar as nossas prioridades.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1258 de 07 de Janeiro de 2026.
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