Os voos low cost para Cabo Verde, sobretudo para a capital, começam a alterar os padrões de mobilidade dos emigrantes e estudantes no exterior. Auria Carvalho, estudante em Portugal há mais de três anos, é um dos exemplos deste novo comportamento.
Num ano, fez quatro viagens ao país, três delas com companhias low cost. Segundo relata, a opção esteve ligada à curta duração das estadias. “Como eu precisava estar aqui por períodos curtos, preferi viajar numa companhia low cost, mesmo sem mala de porão”, explica.
Nos últimos meses de 2025, viajou três vezes em low cost, ao contrário do início do ano, quando utilizou um voo comercial comum. A diferença de custos é, para a estudante, evidente. Em Dezembro de 2024, gastou mais de 100 mil escudos para passar as festas em Cabo Verde. “Não é a primeira vez que passo férias de Dezembro aqui, mas em 2024 teve o triplo do custo. Embora a compra tardia do bilhete também poderá ter influenciado o preço”, refere.
Com a entrada dos voos low cost, Auria acredita num aumento do número de visitantes. “Acredito que agora muita gente vai passar a vir, mesmo que sem mala de porão”, considera.
No seu círculo próximo, a tendência confirma-se. “Somos seis amigas e todas vieram nos low cost, agora vamos regressar mais vezes. Nem que seja um final de semana”, admite.
Apesar das vantagens, aponta constrangimentos, sobretudo na bagagem de porão. “O meu namorado comprou mala de porão e só chegou após cinco dias”. A falta de informação é, para a estudante, um dos principais problemas. Ainda assim, considera que os voos low cost reforçam a ligação entre Cabo Verde e a diáspora, permitindo mais visitas e maior proximidade.
Procura por alugueres temporários aumenta
Alberto, emigrante que se dedica ao aluguer temporário de apartamentos no bairro do Palmarejo, afirma que este ano tem sido o mais rentável desde que iniciou a actividade. Proprietário de uma casa de três andares, com apartamentos da tipologia T2, explica que a procura disparou após o reforço das ligações aéreas de baixo custo.
“Notei que depois dos voos low cost, aumentou a procura por apartamentos temporários. Nunca tive tanta gente à procura como este ano”, refere.
Segundo o proprietário, todos os apartamentos estão ocupados desde Novembro.
“Todos os apartamentos estão ocupados desde Novembro. A maioria da procura por casas temporárias é feita por emigrantes, embora os turistas também se interessem”, afirma.
De acordo com Alberto, as estadias variam, em média, entre duas semanas e um mês, havendo casos de permanência prolongada. “E penso que a procura vai aumentar com os voos low cost”, acrescenta.
Apesar do aumento da procura, o emigrante garante que não pretende subir os preços, sublinhando que o valor cobrado depende essencialmente do número de ocupantes.
E o transporte?
Segundo o presidente da Associação dos Taxistas de Praia, Adriano Monteiro, a chegada dos voos low cost teve um impacto positivo no trabalho dos taxistas, com um aumento do número de passageiros tanto no aeroporto como dentro da cidade.
Conforme o responsável, antes da época festiva o crescimento esteve sobretudo ligado à entrada de turistas através dos voos low cost, enquanto em Dezembro o fluxo passou a dividir-se de forma equilibrada.
“Ficaram 50% por 50% turistas e emigrantes que chegaram tanto nos low cost como em outros voos”, explica.
Apesar da maior afluência, Adriano Monteiro considera que a classe conseguiu responder às necessidades dos visitantes.
“Não houve assim tanto desafio em receber os turistas porque, graças à formação que tivemos em 2020/21 de línguas, conseguimos desenrascar”, disse.
Os principais constrangimentos, segundo o dirigente, situam-se no aeroporto, onde se registam longas esperas. “Às vezes temos de ficar duas horas ou mais à espera que a pessoa saia ou porque demorou na fronteira, ou porque a entrega das bagagens demorou”, detalha.
A insuficiência de táxis na capital é outro problema antigo que se agravou com o aumento do número de voos. “O número de táxis na Praia é insuficiente mesmo no dia-a-dia, quanto mais na época festiva”, prossegue.
Actualmente, a Cidade da Praia conta com 727 táxis legais, mas, segundo o presidente da associação, circulam mais de mil táxis clandestinos, o que demonstra a necessidade de reforçar o serviço com a abertura de concursos para licenças. A falta de vias alternativas e os congestionamentos contribuem igualmente para as dificuldades.
“Uma pessoa apanha um táxi no Plateau e demora mais de 30 minutos para chegar ao Palmarejo devido aos engarrafamentos. Se tivéssemos vias alternativas, poderíamos responder mais rápido à população que se queixou muito durante esta época de falta de táxis”, exemplifica.
Adriano Monteiro alerta ainda para a importância da segurança, considerando essencial garantir mais policiamento e melhor informação aos turistas.
“Os turistas chegam aqui com a ideia de que Cabo Verde é um país seguro e tranquilo, mas é preciso um pouco de cuidado. Às vezes, a altas horas da noite vemos turistas em lugares perigosos e nenhum agente da polícia na rua. São precisas medidas que assegurem uma experiência positiva e sustentável do turismo na ilha de Santiago”, defende.
Cultura e economia dos eventos
O sector dos eventos também sentiu os efeitos dos voos low cost. Sócrates Carvalho, promotor de eventos e sócio-gerente da Sigui Sabura, destaca que a estratégia da empresa passa por trabalhar ao longo de todo o ano junto da diáspora, com o objectivo de atrair emigrantes para Cabo Verde no mês de Dezembro.
“Ao longo do ano realizamos eventos na diáspora visando convidar as pessoas a vir a Cabo Verde no mês de Dezembro e, quando chegam, encontram sempre entretenimento para se divertirem e gastar o seu dinheiro”, afirma.
Segundo o promotor, a Sigui Sabura, que conta com 13 anos de existência, tem reforçado a sua actuação nos últimos cinco anos, consolidando datas e eventos para garantir uma programação contínua. Em Dezembro passado, a empresa tinha previsto um total de 13 eventos, entre 19 de Dezembro e 9 de Janeiro, num período marcado por grande intensidade de actividades culturais.
“Em Dezembro de 2025 notámos um aumento do público nos eventos e nas atracções criadas durante o mês, não só por nós, mas também por outros promotores, muito com a ajuda do aumento desses voos em Cabo Verde”, refere Sócrates Carvalho.
Segundo o promotor, os voos low cost tornaram as viagens mais acessíveis para as pessoas que já tinham interesse em visitar o país, mas enfrentavam limitações financeiras.
Sócrates Carvalho observa ainda que o dinamismo cultural tem despertado interesse não apenas entre cabo-verdianos da diáspora, mas também junto de estrangeiros sem qualquer ligação directa ao país.
“Há cada vez mais pessoas que não têm nacionalidade nem qualquer ramo em Cabo Verde, mas que têm ganho interesse pelo país devido ao dinamismo que veem através das redes sociais e do impacto das visitas”, acrescenta.
Quanto ao perfil do público, explica que varia consoante o tipo de evento. “Os nossos eventos têm presença tanto de locais como de pessoas que vêm passar férias. Há eventos em que cerca de 70% do público são emigrantes, mas os locais estão sempre muito engajados e presentes”, salienta.
O impacto económico é descrito como “enorme”, com eventos frequentemente lotados e aumento da procura por mão-de-obra temporária. Contudo, o promotor admite dificuldades na contratação.
“Fica difícil conseguir staff para empregos temporários, muito pela emigração e também porque precisamos de um número grande de pessoas para trabalhar na logística, no bar e na produção”, explica. Ainda assim, garante que o emprego no sector aumentou face aos anos anteriores, apesar dos desafios ao nível da qualificação.
Com a intensificação do fluxo de pessoas, a Sigui Sabura aposta na adaptação contínua da sua programação. “Pensamos claramente em adaptar os nossos eventos com a chegada desses novos voos. O mercado necessita de mais intensidade, mais trabalho e mais dinâmica de entretenimento”, afirma. Aliás, refere que Janeiro continua activo e que já existem eventos planeados para Fevereiro.
Sócrates Carvalho defende que Cabo Verde deve afirmar-se como um destino de entretenimento, apostando no chamado turismo de entretenimento, que considera ter “forte poder económico”.
Nesse contexto, elogia o papel das instituições públicas. “Parabenizo as instituições que têm facilitado e colaborado muito. Hoje está mais fácil, principalmente na área da segurança”, sublinha, destacando o trabalho da Polícia Nacional, que, segundo refere, garantiu operações eficazes e sem registo de acidentes durante os eventos.
Adaptar as agências de viagens
Conforme a presidente da Associação das Agências de Viagens, Marvela Rodrigues, a chegada desses voos, está a ter um impacto significativo na procura turística e na mobilidade da diáspora.
“Foram planeados muitos voos, sobretudo para a Praia, Sal e São Vicente, e há muita procura, porque como é de baixo custo, então há muita procura, tanto para turistas como também para a nossa diáspora”, aponta.
Apesar de ainda não existirem dados estatísticos consolidados, Marvela Rodrigues refere que o impacto é evidente. “Ainda não temos o número exacto, mas a olhos nus a gente vê que tivemos muita gente, tanto na Praia como nas outras ilhas. Os hotéis atingiram os 100% da ocupação, mais do que nunca, o que demonstra o grande impacto dos voos low cost”, sublinha.

Em comparação com as companhias aéreas tradicionais, a procura tem sido claramente superior nos voos de baixo custo. “Sentimos que desde quando anunciaram a chegada do low cost a procura era mais para esses voos do que para as outras companhias comerciais e essa tendência obrigou o sector a ajustar-se rapidamente”, sustenta.
No que toca às agências de viagens, a presidente da associação garante que o impacto económico não foi negativo, uma vez que muitas se prepararam para comercializar este tipo de bilhetes.
Uma das principais dificuldades prende-se com o sistema de comercialização, já que estas companhias não estão integradas nos sistemas tradicionais como o Galileu ou o Amadeus. “Para vender low cost temos de usar cartão de crédito, é diferente das outras companhias. É um sistema próprio”, detalha.
Marvela Rodrigues aponta ainda diferenças no perfil dos passageiros que utilizam os voos de baixo custo. “Notamos mais turistas que viajam sem programa, sem agência por trás. São, em geral, mais jovens, que chegam às ilhas sem pacotes de hotéis, excursões ou transfer. Muitos optam por alojamentos alternativos ao invés de hotéis”, menciona.
Apesar de as agências oferecerem serviços complementares como transfer, alojamento e excursões, a procura por actividades organizadas não registou um aumento significativo.
“Nesta época festiva, muitos estavam mais direccionados para as festas do que para conhecer as ilhas com excursões programadas”, observa.
Quanto às perspectivas, os voos low cost estão, para já, programados apenas para a época alta do turismo, entre Outubro e Maio. “A programação estava até Maio e depois talvez retomem em Outubro. No entanto, a manutenção destas ligações será benéfica para o país. É sempre bom ter alternativas. Traz sempre benefícios”, acredita.
“É preciso preparar todos os envolvidos no turismo, hotéis, restauração, agências para receber mais visitantes e receber bem. Já notamos esse aumento e temos de estar à altura”, conclui.
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Durante o debate na sessão plenária da semana passada, o ministro do Turismo e Transportes, José Luís Sá Nogueira, avançou que as companhias aéreas low cost já transportaram cerca de 300 mil passageiros para Cabo Verde ao longo dos últimos 12 meses.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1259 de 14 de Janeiro de 2026.
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