Eleições na Cruz Vermelha de Cabo Verde: Saúde comunitária, respostas a emergência e apoio local são os principais eixos da candidatura de Arlindo Carvalho

PorAntónio Monteiro,20 mar 2026 7:36

A Cruz Vermelha de Cabo Verde realiza nos próximos dias 20 e 21 de Março a sua Assembleia Geral Electiva Ordinária, um momento determinante para a vida institucional da organização, em que os delegados irão eleger os novos órgãos sociais para o próximo mandato. O actual presidente, Arlindo de Carvalho, é candidato único à sua própria sucessão. Em entrevista ao Expresso das Ilhas, faz um balanço do mandato, destaca os principais marcos alcançados nos últimos anos e partilha a sua visão para o futuro da organização num contexto global marcado por desafios crescentes.

Após sucessivos anos marcados por desafios e num contexto internacional cada vez mais complexo, o que o motiva a recandidatar-se à presidência da Cruz Vermelha de Cabo Verde?

A motivação nasce, antes de mais, do compromisso profundo com a missão humanitária da Cruz Vermelha e com as comunidades que servimos em todo o país. Nos últimos anos enfrentámos desafios significativos, desde as sucessivas secas e os efeitos das alterações climáticas até às dificuldades socioeconómicas agravadas pela escalada de preços a nível global. Apesar dessas adversidades, a organização demonstrou uma enorme capacidade de adaptação e de resposta. Sentimos que ainda há muito por consolidar e desenvolver, especialmente no que diz respeito à modernização institucional, ao fortalecimento do voluntariado e à expansão de programas sociais. A recandidatura representa, portanto, a vontade de dar continuidade ao trabalho iniciado e de aprofundar as transformações que colocam a Cruz Vermelha de Cabo Verde mais preparada para responder aos desafios do presente e do futuro.

Como avalia a estruturação da organização no início do seu mandato e como se encontra hoje?

Quando iniciámos este ciclo de liderança, encontrámos uma organização com uma história muito rica e uma presença importante nas comunidades, mas que precisava de reforçar alguns processos internos e adaptar-se às novas exigências do contexto humanitário e institucional.
Ao longo destes anos trabalhámos intensamente na reorganização institucional, fortalecendo mecanismos de gestão, transparência e planeamento estratégico. Investimos igualmente na modernização da organização, com avanços significativos na transformação digital, na melhoria de sistemas de gestão e no reforço do património institucional. Hoje podemos dizer que a Cruz Vermelha de Cabo Verde é uma organização mais estruturada, mais preparada tecnologicamente e com maior capacidade de mobilização de recursos e parcerias, mantendo sempre no centro da sua atuação os princípios humanitários e o serviço às comunidades.

Ao longo deste mandato, quais considera terem sido os principais marcos alcançados pela organização?

Destacaria vários marcos importantes. Em primeiro lugar, a reorganização institucional, que permitiu reforçar a capacidade de gestão e de intervenção da organização.
Outro marco relevante foi o investimento na formação e capacitação de voluntários em diversas áreas, envolvendo jovens e adultos em todos os municípios do país. O voluntariado é o coração da Cruz Vermelha e reforçar as competências dos nossos voluntários significa aumentar a nossa capacidade de resposta junto das comunidades.
Também tivemos a honra de celebrar os 50 anos da Cruz Vermelha de Cabo Verde, um momento de grande significado institucional que permitiu valorizar a história da organização, reconhecer o contributo de milhares de voluntários e renovar o compromisso com a acção humanitária no país.

Que programas ou iniciativas considera mais relevantes neste período?

Durante este mandato procurámos consolidar e inovar em várias áreas de intervenção. Destaco, por exemplo, os programas ligados à saúde e aos cuidados comunitários, que têm um impacto directo na melhoria das condições de vida das populações mais vulneráveis. Outro avanço importante foi a digitalização dos Jogos Sociais da Cruz Vermelha, um processo que permitiu modernizar esta importante iniciativa de mobilização de recursos e torná-la mais acessível e eficiente.
A criação e dinamização da Loja Social também representa um passo significativo no reforço da resposta social da organização, permitindo apoiar famílias em situação de vulnerabilidade com bens essenciais.

O voluntariado tem sido um dos pilares da Cruz Vermelha. Como tem evoluído este trabalho nos últimos anos?

O voluntariado continua a ser uma das maiores forças da Cruz Vermelha de Cabo Verde. Durante este mandato procurámos reforçar o protagonismo dos jovens e ampliar as oportunidades de formação e participação. Hoje contamos com voluntários activos em todos os municípios do país, envolvidos em diversas áreas como saúde comunitária, preparação e resposta a emergências, educação humanitária e apoio social.
A aposta na formação e capacitação tem sido essencial para garantir que os voluntários tenham as ferramentas necessárias para actuar de forma eficaz e com impacto positivo nas comunidades.

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As parcerias internacionais também têm desempenhado um papel importante no desenvolvimento das actividades da organização. Que balanço faz dessas cooperações?

As parcerias são fundamentais para ampliar o alcance da nossa acção humanitária. Ao longo destes anos fortalecemos relações de cooperação com vários parceiros internacionais, incluindo instituições e programas apoiados pelos Estados Unidos, pela União Europeia e pela Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho.
Estas parcerias permitiram desenvolver projectos relevantes, mobilizar recursos e partilhar conhecimentos que contribuem para o fortalecimento institucional da Cruz Vermelha de Cabo Verde e para uma resposta mais eficaz às necessidades das comunidades.

Quais foram os principais desafios enfrentados durante este mandato?

Vivemos um período particularmente exigente. As sucessivas secas, os impactos das alterações climáticas e as dificuldades económicas enfrentadas por muitas famílias colocaram uma pressão adicional sobre as organizações humanitárias.
Ao mesmo tempo, o aumento generalizado do custo de vida trouxe novos desafios sociais, com mais pessoas em situação de vulnerabilidade.
Perante este contexto, a Cruz Vermelha procurou reforçar a sua capacidade de intervenção, mobilizando voluntários, parceiros e comunidades para responder às necessidades mais urgentes.

Se for reconduzido no cargo, quais serão as principais prioridades para o próximo mandato?

A prioridade será consolidar os avanços alcançados e continuar a fortalecer a capacidade institucional da organização. Queremos aprofundar a transformação digital, expandir programas sociais e de saúde comunitária e reforçar ainda mais o papel dos jovens no voluntariado. Também será fundamental ampliar parcerias estratégicas e investir na sustentabilidade institucional, garantindo que a Cruz Vermelha de Cabo Verde continue a ser uma referência nacional na acção humanitária e no apoio às comunidades mais vulneráveis. O nosso objectivo é claro: continuar a servir com humanidade, proximidade e responsabilidade, contribuindo para comunidades mais resilientes e solidárias em todo o país.

O contexto internacional e os efeitos das alterações climáticas têm aumentado a pressão sobre organizações humanitárias. Que desafios antevê para Cabo Verde nos próximos anos?

Cabo Verde, pela sua própria condição geográfica e climática, é particularmente vulnerável aos impactos das alterações climáticas. Temos assistido a fenómenos cada vez mais frequentes como períodos prolongados de seca, irregularidade das chuvas e maior pressão sobre os recursos naturais e os meios de subsistência das comunidades.
Esses factores, combinados com desafios socioeconómicos como o aumento do custo de vida, podem agravar situações de vulnerabilidade, sobretudo nas comunidades mais expostas. Para a Cruz Vermelha de Cabo Verde, isso significa reforçar cada vez mais o trabalho de preparação e resiliência comunitária, investindo em acções de prevenção, educação e capacitação das populações para enfrentar melhor estes desafios.

Que papel pretende a Cruz Vermelha desempenhar no reforço da resiliência das comunidades face a esses desafios?

O nosso papel passa por continuar a estar próximo das comunidades, trabalhando lado a lado com as autoridades locais, parceiros e a própria população.
Queremos reforçar programas de saúde comunitária, preparação e resposta a emergências, bem como iniciativas de apoio social que ajudem as famílias mais vulneráveis a enfrentar períodos de crise.
Ao mesmo tempo, vamos continuar a investir na formação de voluntários e no protagonismo jovem, pois acreditamos que comunidades mais organizadas e capacitadas são comunidades mais resilientes. A Cruz Vermelha tem uma presença territorial muito importante e isso permite-nos actuar de forma preventiva e sustentável.

A sustentabilidade financeira é um desafio para muitas organizações humanitárias. Que estratégias a Cruz Vermelha pretende adoptar para diversificar as suas fontes de financiamento?

Garantir a sustentabilidade institucional é uma das prioridades para os próximos anos. Para isso, estamos a trabalhar na diversificação das fontes de financiamento, procurando reduzir a dependência de um número limitado de apoios.
Pretendemos fortalecer parcerias com instituições internacionais, organismos multilaterais e parceiros de cooperação, mas também explorar novas oportunidades junto do sector privado nacional e da diáspora cabo-verdiana.
Ao mesmo tempo, iniciativas como a modernização e digitalização dos Jogos da Cruz Vermelha, o desenvolvimento da Loja Social e outras actividades de mobilização de recursos são exemplos de mecanismos que podem contribuir para gerar mais receitas próprias e reforçar a capacidade de intervenção da organização.
O objectivo é garantir que a Cruz Vermelha de Cabo Verde continue a cumprir a sua missão humanitária com estabilidade, transparência e impacto duradouro nas comunidades.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1268 de 18 de Março de 2026.

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Autoria:António Monteiro,20 mar 2026 7:36

Editado porAndre Amaral  em  20 mar 2026 23:22

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