Realizado entre irmãos, a operação, iniciada no período da manhã, durou cerca de três horas e contou com uma equipa de aproximadamente 30 pessoas. A dadora poderá ter alta dentro de três dias, enquanto o transplantado já apresenta produção urinária e deverá receber alta dentro de quatro a cinco dias, de acordo com as autoridades de saúde.
Conforme explicou o cirurgião português Norton Matos, a remoção do rim foi realizada com técnica laparoscópica, sem grandes incisões, tendo demorado pouco mais de uma hora, enquanto a implantação do órgão levou cerca de mais uma hora.
Norton Matos destacou que, para garantir a segurança do transplante, o dador deve ser saudável, voluntário e compatível com o receptor. “Estes dois dador-receptores são absolutamente compatíveis”, afirmou, acrescentando que, embora existam riscos técnicos associados a este tipo de cirurgia, a equipa de urologistas conseguiu realizar a remoção do rim com apenas pequenos cortes.
Quanto à análise de compatibilidade, conhecida como tipagem, o clínico português esclareceu que o exame não foi realizado em Cabo Verde. “Isso é um processo muito complicado, tecnicamente difícil. Por isso, eu decidi desde sempre não tentar criar em Cabo Verde o tissue typing. A análise da tipagem é feita em Portugal, onde o sangue dos dadores é enviado e a informação necessária é fornecida”, explicou.
Ao todo, foram avaliadas 13 pessoas que poderiam ter sido alvo da operação, tendo apenas um reunido todas as condições necessárias para o transplante. Nos restantes casos, exames realizados revelaram impedimentos à realização da cirurgia.
O nefrologista Hélder Tavares, membro da equipa médica, assegurou que “neste momento, apenas esse era candidato a uma cirurgia segura e ainda não apareceu outro candidato. Temos outros pacientes em estudo, porque é um processo que demora tempo”. O médico garantiu, entretanto, que, desde que haja uma pessoa disponível para doar, a equipa realizará os estudos necessários e, se os resultados forem positivos, o transplante poderá ser efectuado novamente.
“Foi um caminho construído, um caminho onde várias gerações de profissionais de saúde também estiveram envolvidos, mas, desde logo, muitos cabo-verdianos estiveram ansiosos para que se concretizasse”, frisou Evandro Monteiro.
A equipa presente na conferência reforçou que não será realizado qualquer transplante sem que o potencial dador seja considerado plenamente saudável, garantindo um processo rigoroso de avaliação, de forma a assegurar a segurança de todos os envolvidos.
“Nós vamos estudá-los da cabeça aos pés e vamos ver se, em termos de saúde, é uma pessoa que tem uma saúde inabalável. Tem que ser compatível, mas, na dúvida, sempre a favor do dador. Nós nunca prejudicaríamos um dador porque não queremos ficar com dois doentes”, assegurou a nefrologista portuguesa La Salete Martins.
Para tranquilizar possíveis dadores, Norton Matos explicou que a cirurgia apresenta riscos mínimos para quem doa um rim. Segundo indicou, o corpo humano tem dois rins que trabalham normalmente a 60%, mas quando um é retirado, o rim restante assume toda a função, passando a trabalhar a 100%.
“Se for saudável, se não tiver hipertensão, se não tiver diabetes, se tiver dois rins iguais, sem lesões, sem lóbulos, sem tumores, tirando-lhe um, tendo o outro bom, que risco corre esse doente? Nenhum”, afirmou.
Cooperação é para continuar
Por sua vez, o PCA do Hospital Universitário Agostinho Neto, Evandro Monteiro, afirmou que estão preparados para dar continuidade aos trabalhos, sublinhando tratar-se de um processo contínuo.
“Temos a obrigação de fazer cada vez mais pelo nosso sistema de saúde e enfrentar os principais desafios. Este é, acima de tudo, um ganho do colectivo nacional, de forma transversal”, declarou.
O PCA reconheceu ainda o mérito das parcerias, desde o empenho da equipa cabo-verdiana e da equipa de Portugal, “sobretudo do Hospital de Santo António, no Porto, que estiveram directamente envolvidos no processo de preparação e realização do transplante”.
Evandro Monteiro garantiu ainda que a direcção clínica continuará a comunicar a evolução clínica no pós-operatório, assegurando que todas as informações serão partilhadas dentro dos critérios necessários, de forma a evitar desinformação.
Questionado sobre se seria possível realizar estas operações sem a colaboração directa de médicos estrangeiros, Evandro Monteiro afirmou que, neste momento, o objectivo é semelhante ao que se fez com o serviço de hemodiálise. “Na prática clínica, assistencial e cirúrgica, o bom relacionamento internacional com colegas é essencial”, fundamentou.
Segundo disse, Cabo Verde precisará, progressivamente, de capacidades próprias para alcançar autonomia. “Temos um caminho a percorrer, mas vamos chegar lá. Isso não é preocupante”, garantiu, destacando a necessidade de formar profissionais cabo-verdianos.
“Na ciência e na saúde, a boa relação e a partilha de conhecimentos é fundamental. Porque a prática clínica actualiza-se, adaptam-se técnicas e formas de resolver o mesmo problema, pelo que nós temos que comunicar”, concluiu Evandro Monteiro.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1269 de 25 de Março de 2026.
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