Depósitos do INPS - FMI insiste em reformas e melhor alocação de recursos

PorAndré Amaral,29 mar 2026 9:50

O Fundo Monetário Internacional (FMI) voltou a defender a necessidade de reformas profundas na gestão dos activos do Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), sublinhando que as recomendações agora em debate em Cabo Verde não são novas, mas sim parte de um conjunto de alertas reiterados ao longo de mais de uma década e meia.

Num esclarecimento enviado ao Expresso das Ilhas, o FMI explica que as preocupações com a elevada concentração de activos do INPS em depósitos bancários com rendimentos reais baixos, e em alguns casos negativos, já tinham sido formalmente apresentadas em Julho de 2024, no âmbito da Quarta Revisão do acordo ao abrigo do ECF (Linha de Crédito Alargada) e da Primeira Revisão ao abrigo do RSF (Instrumento de Resiliência e Sustentabilidade).

Mais recentemente, estas mesmas recomendações foram aprofundadas no relatório da consulta ao abrigo do Artigo IV, discutido pelo Conselho de Administração do FMI em Janeiro de 2026 e tornado público no mês seguinte. Ainda assim, o organismo internacional faz questão de frisar que o tema não é recente: há mais de 15 anos que vem defendendo melhorias na governação e na estratégia de investimento do INPS, incluindo no âmbito do Programa de Avaliação do Setor Financeiro (FSAP) de 2009.

De acordo com o FMI, a insistência na questão prende-se com o risco orçamental associado a potenciais passivos do INPS que não estejam devidamente cobertos pelos seus activos. O sistema de pensões, baseado num modelo de benefício definido, pode enfrentar pressões significativas no futuro caso não haja uma gestão mais eficiente e rentável dos recursos disponíveis.

Entre as principais recomendações, o FMI destaca a necessidade de o INPS recorrer a consultores financeiros especializados para rever a sua estratégia de alocação de activos, desenvolver uma política de contenção de custos, evitar a criação de novos benefícios e ponderar um eventual aumento da idade de reforma.

Por outro lado, o organismo afasta a hipótese de aumento da taxa contributiva conjunta, que actualmente está fixada em 24,5%, considerando que tal medida poderia prejudicar a criação de emprego e incentivar a informalidade.

Depósitos rendem menos que títulos do Tesouro

Um dos pontos centrais da análise prende-se com a fraca rentabilidade dos depósitos bancários onde está aplicada uma parte significativa dos activos do INPS. Segundo o FMI, mesmo uma comparação simples com os títulos do Tesouro nacionais revela um diferencial de taxas na ordem dos 100%, evidenciando uma clara ineficiência na alocação de recursos.

O organismo sustenta que a transferência de parte desses depósitos para títulos do Tesouro permitiria aumentar os rendimentos sem acréscimo de risco — argumentando, inclusive, que estes títulos podem ser mais seguros do que os depósitos bancários, devido à limitação dos mecanismos de garantia de depósitos.

Além disso, a diversificação internacional, com investimento em obrigações soberanas de países, é apontada como uma via para melhorar o retorno e reduzir riscos.

Transferência de activos deve ser gradual

O FMI reconhece, no entanto, que qualquer mudança na alocação de activos deve ser feita de forma gradual e em estreita coordenação com o Banco de Cabo Verde (BCV), de modo a evitar impactos negativos na liquidez do sistema financeiro ou nas reservas internacionais.

Ainda assim, o organismo minimiza os riscos associados, destacando o actual excesso de liquidez no sistema bancário nacional e os níveis confortáveis de capitalização dos bancos. Neste contexto, considera improvável que uma redução progressiva dos depósitos do INPS provoque perturbações significativas ou aumentos acentuados das taxas de juro.

Pelo contrário, o FMI sugere que uma ligeira subida das taxas de depósito poderia até ser benéfica, incentivando a poupança e contribuindo para uma base de financiamento bancário mais diversificada.

Impactos externos

No plano externo, o FMI lembra que Cabo Verde registou, em 2025, o segundo excedente consecutivo da balança corrente e atingiu níveis recorde de reservas internacionais, próximas de mil milhões de euros.

Este contexto, segundo o FMI, cria condições favoráveis para iniciar a diversificação dos activos do INPS, incluindo investimentos no estrangeiro. Esses activos externos, uma vez rentabilizados, poderão contribuir para financiar eventuais défices futuros da balança corrente.

Contudo, o FMI admite que o recente aumento dos preços do petróleo, associado ao conflito no Médio Oriente, pode tornar o momento menos oportuno para uma transferência acelerada de activos. Ainda assim, defende que o essencial é ajustar o ritmo.

Outro ponto sensível abordado no documento diz respeito ao financiamento do Estado. O FMI rejeita a ideia de que o INPS deva manter depósitos com baixa rentabilidade para facilitar o financiamento público a custos reduzidos.

Segundo o organismo, esta prática equivale a uma forma de repressão financeira que penaliza a sustentabilidade do sistema de pensões e transfere encargos para as gerações futuras.

Ainda assim, esclarece que não está a recomendar o abandono dos investimentos em títulos do Tesouro, mas sim uma gestão mais equilibrada e eficiente dos activos.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1269 de 25 de Março de 2026.

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Autoria:André Amaral,29 mar 2026 9:50

Editado porEdisângela Tavares  em  29 mar 2026 12:19

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