Erin - Um ano depois da tempestade, que São Vicente temos?

PorNuno Andrade Ferreira*,15 ago 2026 8:37

Doze meses após a tragédia, São Vicente retomou a normalidade, mas nem todos conseguiram recomeçar. Há famílias sem solução habitacional, comerciantes à espera de apoio e intervenções estruturais por realizar.

Um ano depois da tempestade Erin, ainda são visíveis marcas do temporal que a 11 de Agosto de 2025 fez São Vicente acordar em sobressalto. À destruição sem precedentes na história da ilha, juntam-se memórias que o tempo não apaga. Nove pessoas morreram, duas continuam dadas como desaparecidas.

Em Madeiralzinho, Nelson dos Reis e família foram surpreendidos por uma enxurrada que atingiu a sua casa e a deixou inabitável. Durante meses, viveram de favor com familiares e conhecidos. Acabaram por arrendar uma habitação.

“A casa continua no mesmo estado. A câmara ainda não chegou lá para fazer nada. Disseram-nos para entregar os documentos porque iam demolir a casa para construir outra, numa outra posição. Mas ainda nada. A câmara ajudou-nos com uma cama, colchão e televisão. Ficaram de nos dar um dinheiro, mas nunca mais nos disseram nada. Aqui pagamos 14 contos de renda, porque não temos para onde ir”, diz.

No mesmo bairro, Tercília Tavares também viu a sua habitação ser invadida pela água. Com receio da nova época das chuvas, e sem esperar por intervenção das autoridades, decidiu realizar alguns trabalhos por conta própria. “Não tivemos qualquer ajuda, fomos fazendo o nosso trabalho”, refere.

Em Alto Brava, os próprios moradores improvisaram uma ponte de madeira e chapa para reporem uma passagem.

“Aqui havia uma parede de protecção, mas a tempestade levou-a e ficou uma vala. Se não fosse um rapaz que mora aqui, que improvisou esta ponte, isto estaria estragado até agora”, expõe Alcides Mota.

Apesar de todos os realojamentos feitos nos últimos 12 meses, das reparações e correcções em diferentes pontos de São Vicente, há uma frase que se ouve: “ainda à espera de apoio”.

Esperar. Em Portelinha, por exemplo, os moradores esperam por melhorias nos acessos e redução dos riscos. Natália Lopes continua a viver com os filhos numa casa de tambor na encosta.

“Vim morar aqui devido à minha situação. Mas eu gostaria que me dessem uma casa, mesmo que fosse para pagar uma renda de pelo menos seis contos, porque tenho como catar na minha tina de peixe para a pagar”, desabafa.

Reni Ferreira vive em situação idêntica. São cinco pessoas numa casa de tambor, incluindo três menores.

“Perdi as coisas dos meus filhos. A água entrou pela parte de trás e saiu pela frente. Pedimos ajuda à Câmara, mas não nos ajudou em nada. Ainda estamos à espera. Querem que demos a nossa casa para nos darem outra, mas a vida não está fácil para ir pagar renda. Ainda por cima, sou a única aqui que trabalha”, declara.

Ao longo do último ano, a Cruz Vermelha de Cabo Verde (CVCV) apoiou mais de 12 mil famílias. As intervenções incluíram distribuição de cestas básicas, apoio financeiro, fornecimento de água e cuidados de saúde.

O director do Departamento de Catástrofes da CVCV, Abdoul Wahabou, considera que a tempestade Erin demonstrou que, perante os efeitos das alterações climáticas, as catástrofes podem ocorrer em qualquer lugar e a qualquer momento. Não duvida da importância de reforçar a preparação institucional e comunitária. A Cruz Vermelha está em prontidão.

“Estamos a verificar que a próxima época das chuvas poderá ser complicada. Prevemos que haja menos chuva do que nos anos anteriores e, por isso, estamos a preparar a instituição e as comunidades para a possibilidade de uma seca muito severa. No entanto, isso não significa que, caso chova, não possa voltar a acontecer o que aconteceu no ano passado”, avisa.

Empresas

Aquela madrugada de Agosto obrigou empresários e comerciantes de São Vicente a rever procedimentos e a adoptar novas estratégias. O supermercado RVM foi completamente destruído pela água e lama. A responsável de loja, Ana Marques, admite que a experiência trouxe aprendizagem, tanto a nível de seguros, como em protecções físicas.

“Foi construído um muro de betão que fica à frente da loja. Tínhamos uma porta lateral, que fechámos com blocos, reforçámos o máximo possível para termos menos entrada de água. Nos armazéns, subimos o nível de arrumação dos produtos para, em caso de entrada de água, não atingir os produtos. Trocámos o nosso bar de local e, na cozinha, fizemos uma estrutura mais alta para tentar salvaguardar os equipamentos. Não tínhamos seguro, porque ainda se encontrava em negociação, mas neste momento temos toda a nossa loja, mercadorias e equipamentos segurados, incluindo contra catástrofes”, detalha.

Os prejuízos da RVM ultrapassaram os 30 mil contos.

Entre perdas materiais, a interrupção da actividade e dificuldades financeiras, também os vendedores da Praça Estrela tiveram semanas de aperto. Valeram-lhes as poucas economias e apoio familiar. “Foi muito difícil e muito duro”, conta Elhadji Sow.

Os comerciantes consideram que os apoios do Estado chegaram tarde. Alguns ainda hoje continuam à espera.

“Ajuda é uma maneira de falar. Muita gente, até hoje, não recebeu nada. Desde que assinámos o contrato [com a Pro Empresa], há pessoas que receberam uma parte, outras nunca receberam nada”, lamenta.

Neste momento, estão em curso obras na Praça Estrela, numa tentativa de melhorar condições e corrigir parte dos danos provocados pela tempestade.

Repensar

São Vicente voltou a estar operacional. As infra-estruturas foram repostas, as estradas reabertas e, para a generalidade das pessoas e empresas, a vida voltou ao normal. Porém, o trabalho não está acabado. Continua a ser necessário – e tão urgente como antes – repensar o território e preparar melhor o próximo fenómeno meteorológico extremo.

Em entrevista ao Expresso das Ilhas e à Rádio Morabeza, o arquitecto César Freitas considera que a recuperação de São Vicente deve ser encarada como o início de um processo mais amplo de transformação e adaptação do território.

“Foi feito o trabalho de reconstrução daquilo que foram os danos principais. No entanto, prefiro encarar isto como o início de um processo de transformação da própria ilha. Agora, é preciso investir mais num plano director, não só do planeamento territorial de uma forma holística, mas também na implementação de um plano director e operativo para resolver a questão das águas fluviais. Penso que isto é um trabalho robusto que tem de ser assumido com muita responsabilidade e muita ética”, analisa.

“E temos de estar conscientes de que essa é a única via para resolvermos o problema da ilha a longo prazo e poder responder a eventos, inclusivamente mais severos, caso venham a acontecer”, acrescenta.

César Freitas entende que as lições deixadas pela tempestade Erin também devem ser integradas nas políticas de habitação.

“Espero que encaremos este desafio que a natureza nos impôs como um arranque para resolvermos o problema da ocupação das encostas e ocupação das áreas inundáveis, porque, quando nós não respeitamos as águas e a chuva, a natureza acaba sempre por impor a sua presença”, alerta.

Na mesma linha, o engenheiro Hermano Santos apela a uma intervenção de longo prazo, centrada na melhoria do sistema de drenagem, no reforço da prevenção e na reorganização do território.

As obras realizadas desde a tempestade são importantes, mas é necessário avaliar e comunicar à população o impacto concreto dessas intervenções.

“Acho sinceramente que aprendemos com os erros do passado e espero que a cidade e a ilha estejam preparadas para resistir a um evento de igual porte. Tenho visto algumas obras, mas falta alguma informação, informação útil, de forma a podermos medir essa resiliência. Por exemplo, os resultados esperados por essas intervenções, qual é a nossa capacidade, principalmente, de prevenção e de informação atempada, de forma a prevenirmos novos danos”, nota.

Para o especialista, a actual infra-estrutura de drenagem não está preparada para suportar episódios de chuva intensa, sendo necessária a criação de novas estruturas de retenção a montante.

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“A Câmara está a aumentar a área da drenagem, o que é bom, mas ainda não vi, nem sei se existem, projectos de bacias de retenção ou cisternas que podem acumular a água, de forma a diminuir a água que vai para o centro da cidade”, questiona.

Hermano Santos nota que, num ano, não é possível concluir todas as obras necessárias, pelo que as intervenções de fundo devem sempre ser consideradas numa perspectiva de longo prazo.

Complementando estas ideias, a engenheira civil e professora da Universidade Técnica do Atlântico, Vera Marques, recomenda a identificação das zonas de risco, a protecção das linhas naturais de drenagem e a realização de estudos actualizados para prever o comportamento das águas em situações extremas.

“É necessário termos mapas de risco de inundação. Quando falamos nas bacias hidrográficas, estamos a falar de toda a zona, de montante até jusante. É necessário haver estudos hidrológicos e hidráulicos actualizados, avaliação dos caudais de cheia para cenários futuros e a criação de soluções de retenção ou dissipação da energia da água”, avança.

A prevenção começa no planeamento.

“É necessário haver fiscalização, fazer planos urbanísticos e garantir o cumprimento desses planos, impedir construções sem condições adequadas e também verificar a correcta execução das soluções previstas nos projectos. A nível dos projectistas, devem desenvolver os seus projectos adaptados às condições locais e climáticas, considerando sempre riscos hidráulicos, geotécnicos e ambientais e propor soluções mais duráveis e resilientes”, sustenta.

Partidos

Os partidos com representação parlamentar são unânimes a reconhecer que ainda há problemas por resolver em São Vicente no pós-Erin.

Nilton Silva, do PAICV, entende que falta uma mudança de paradigma a nível do ordenamento do território.

“Limpámos o Mindelo - o povo, a população, o Governo, a Câmara - levantámos os muros, mas ficaram muitos problemas. Porque a tempestade Erin e a sua devastação deveriam servir para mudar paradigmas em São Vicente. No urbanismo, na correcção torrencial, nas construções no leito das ribeiras, nas infra-estruturas mais resilientes”, declara.

Do lado do MpD, Lídia Lima destaca o esforço por parte da Câmara Municipal e do Governo, mas concorda que existem várias situações por resolver.

“Não se pode resolver num ano quando há problemas profundos. De facto, trabalhar numa mudança de planos para São Vicente, a nível urbanístico, exige algum tempo. Há um grande trabalho feito em São Vicente, um grande esforço por parte da Câmara Municipal, do Governo”, estabelece.

Já António Monteiro, da UCID, lamenta a lentidão na execução de obras estruturantes.

“As coisas estão a andar a passo de tartaruga. Não houve celeridade na questão da drenagem, dos diques. Muitos muros de contenção, que deveriam ser construídos, até hoje nem sequer se iniciaram. Portanto, pensamos que houve algum desleixo, posso mesmo utilizar essa expressão, por parte do Governo do MpD”, pontua.

Para esta reportagem, o Expresso das Ilhas e a Rádio Morabeza contactaram a Câmara Municipal de São Vicente e o Ministério das Infra-estruturas, Habitação e Ordenamento do Território, mas não foi possível obter uma reacção destas entidades.

*com Lourdes Fortes e Fretson Rocha

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1289 de 12 de Agosto de 2026.

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira*,15 ago 2026 8:37

Editado porSara Almeida  em  15 ago 2026 12:19

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