Cinco meses depois da tempestade, ainda há muito por fazer

PorNuno Andrade Ferreira*,18 jan 2026 9:27

Marcas de 11 de Agosto continuam visíveis em toda a ilha. Recuperação de infra-estruturas está em curso, mas mais devagar do que o desejado. Governo e Câmara Municipal prometem acção.

Há cinco meses, São Vicente acordava para um dos dias mais negros da sua história. Uma madrugada de chuvas intensas causou cheias jamais vistas na ilha. Nove pessoas perderam a vida, duas continuam desaparecidas. Famílias perderam as suas casas, empresários viram os seus negócios destruídos, infra-estruturas públicas sofreram danos significativos.

Segundo a Cruz Vermelha de Cabo Verde (CVCV), pelo menos 1.700 pessoas afectadas directamente pela tempestade Erin continuam a receber apoio vital, sobretudo alimentar. Desde 11 de Agosto de 2025, a organização tem mantido no terreno equipas específicas para intervenções multidisciplinares, da saúde à ajuda humanitária. Informação de Ana Batista, vice-presidente do Conselho Local.

“São pessoas que foram directamente afectadas pela tempestade Erin. Com o tempo, esse número foi aumentando e estamos, digamos, a abranger essas famílias, com a atribuição de algumas cestas básicas. Todos os dias, as pessoas têm procurado a Cruz Vermelha para pedir ajuda. Temos parceria com a Protecção Civil, que nos tem apoiado, para conseguirmos alcançar estas pessoas que, neste momento, precisam de uma mão amiga”, assinala.

Ana Baptista confirma que algumas famílias continuam a residir em casas de familiares. Também é disponibilizado apoio psicológico.

“Todos os dias vêm pessoas à procura da Cruz Vermelha, para sustentar as suas famílias. É, digamos, uma situação muito preocupante, em que não apoiamos apenas com cestas básicas, mas também com apoio psicológico, dando acompanhamento às famílias que precisam”, refere.

Mais de 500 famílias continuam a receber apoio monetário directo da CVCV, o que se manterá, no mínimo, até Agosto.

No Calhau, fora do perímetro urbano do Mindelo, os estragos da tempestade ainda são muito visíveis. Os moradores pedem mais celeridade na resposta. O presidente da Associação Agro-pecuária do Calhau e Madeiral (AAPCM), Ederley Rodrigues, afirma que pouco ou quase nada foi feito.

“São várias situações, como o caso das estradas que precisam de sinalização. Já foram registados vários acidentes devido à falta de correcções nas vias. Quanto às famílias que perderam as suas casas, estão alojadas em casas de familiares. Tiveram algum apoio, mesmo da associação e de pessoas amigas, mas a situação continua a mesma”, explica.

Paulatinamente, as hortas estão a ser recuperadas, retomando-se a produção agrícola.

“Com o apoio da associação e da Tui Care Foundation, conseguiu-se alguma verba para comprar uma máquina para desentupir os poços. Num primeiro momento, as pessoas estavam a recuperar os poços com recursos próprios. Estamos a fazer os dois trabalhos: produzir onde já foi recuperado e, ao mesmo tempo, recuperar o restante, mas estamos a ir com calma, porque há muito trabalho por fazer”, sintetiza.

Estradas

A rede viária, dentro e fora da cidade, é onde os estragos do mau tempo permanecem mais visíveis, com remendos ou alternativas de circulação. Luís Gonzaga, presidente do conselho de administração da principal empresa de transporte público urbano de passageiros, Transcor, esperava que os trabalhos de recuperação estivessem “noutro patamar”.

“Há uma lentidão grande para fazer as limpezas, para fazer as reparações, e isso prejudica-nos, e muito. Só para terem uma ideia, na semana passada tivemos aqui oito autocarros com molas partidas. Pensamos que é urgente fazer as reparações”, avalia.

No centro da cidade, Gonzaga chama a atenção para vários troços com piso irregular. A rotunda da Praça Estrela é um caso crítico.

“Aquela zona está praticamente impraticável. No meu automóvel ligeiro, quando entro naquela rotunda, parece que estou no alto mar, com altas ondas. Imagine agora num autocarro, com o comprimento e a altura que tem. Há muitas zonas em que temos essa situação. O alcatrão foi danificado, fazem calçada nesse espaço, o que se torna incómodo e pouco confortável. Há determinadas zonas a que nem a calçada chegou, estando em terra batida, com muitas irregularidades”, lamenta.

Anilton Livramento, condutor de Hiace, assina por baixo.

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“A estrada que liga Norte Baía ao Calhau também está perigosa, a de Monte Verde também nunca recebeu nada. Andamos a desenrascar nas estradas, a roçar os retrovisores, a defender-nos dos buracos e das bermas. No Calhau, houve um acidente há dias, de noite, num troço estreito da estrada, por causa de um monte de terra”, nota.

A falta de sinalização adequada é outro problema. Um exemplo crítico, apontado por Daniel Cruz, é a chegada ao Calhau, para quem vem da Baía das Gatas.

“A estrada está má, péssima, principalmente no troço da Fazenda de Camarão, onde o asfalto saiu. Não tem nenhuma sinalização, estás a conduzir, contando que estás em asfalto, e podes perder o controlo da viatura. Não sei por que é que não há uma sinalização, porque nós que andamos nela todos os dias já sabemos onde estão os perigos, mas alguém que só vai lá de vez em quando, não sabe”, avisa.

Respostas do Governo

Perante as preocupações, o ministro das Infra-Estruturas, Habitação e Ordenamento do Território, Víctor Coutinho, recorda que foi elaborado um plano de resposta imediata, avaliado em cerca de quatro milhões de contos, dos quais 1,2 milhões foram já mobilizados através do Orçamento do Estado, Banco Mundial e Fundo Nacional de Emergência. A recuperação total é um projecto de médio prazo, com investimento global superior a 40 milhões de contos.

“A execução física está a decorrer. Hoje é visível a evolução positiva que São Vicente está a ter, assim como São Nicolau e Santo Antão, que já podem quase ter a normalidade que tínhamos antes de 11 de Agosto. Mas, claro, ainda persistem vários desafios”, diz.

Um dos pontos sensíveis prende-se com a protecção das encostas e a ocupação desordenada do solo. O ministro reitera que estão previstas intervenções de consolidação e correcção torrencial.

“Mas temos que assumir que existem zonas onde as pessoas têm de ser deslocalizadas (…). Outra dimensão importante em São Vicente é o desassoreamento da linha de água (…). Está previsto um valor de quase 100 mil contos para desassorearmos todo o sistema de drenagem existente em São Vicente”, revela.

Na rede viária, além da estrada do Calhau, actualmente em trabalhos de asfaltagem, o objectivo do Governo é garantir que, antes das próximas chuvas, as vias mais críticas estejam reabilitadas — ou em melhores condições de circulação — com sistema de drenagem reforçado.

“Neste momento, com o ano que agora se inicia, é necessário mobilizar mais recursos para continuarmos o investimento. Mas está visível que, neste momento, há investimento. Na estrada para o Calhau, os trabalhos estão a começar e a decorrer bem. Depois, na estrada que vai para Salamansa, também estamos a avançar. No acesso à Galé, estamos a tentar começar a reconstruir o muro de protecção, assim como na zona de Chã de Alecrim. Há intervenções dentro da cidade, mas é um processo que ainda está em curso”, enumera.

“A prioridade é reforçar as infra-estruturas”, afirma o governante, incluindo nesta meta um sistema de drenagem “completamente diferente”.

Na habitação, depois do realojamento de 60 famílias no Complexo Habitacional Rozar, o complexo de Ribeira de Julião tem conclusão prevista até Fevereiro, destinando-se a habitação social, jovem e universitária.

Respostas da Câmara

Na cidade, o vereador da Câmara Municipal de São Vicente, José Carlos da Luz, promete para muito breve o asfaltamento das estradas. A empreitada deve começar em Março.

“Vamos ‘reasfaltar’ toda a cidade. Já temos a empresa que ganhou o concurso, já temos financiamento e estamos à espera. Devemos começar no mês de Março. Repare que temos também, e por vezes esquecemos, a situação do abastecimento de água e da empresa Electra. A maior parte dessas rupturas na estrada é da Electra, nós repomos com calcetamento, e a Electra tem consciência disso. Estamos a trabalhar em parceria, temos todo o levantamento feito e já acertámos com a Electra, para nos apoiar nesse ‘reasfaltamento’ da cidade”, antecipa.

Outro ponto crítico é a rede de esgotos, afectada pela tempestade Erin, mas de há muito subdimensionada para uma ilha que cresceu. José Carlos da Luz sublinha que o ideal será implementar um novo plano sanitário, em parceria com o Governo e parceiros internacionais.

“Em São Vicente, a rede de esgotos não foi dimensionada para a indústria, é uma rede doméstica. Com o conjunto de infra-estruturas hoteleiras existentes na ilha, temos de trabalhar para ter um novo plano sanitário. Só que um plano sanitário é um trabalho macro. Não existe nenhuma câmara municipal que consiga, sozinha, fazer um plano sanitário. Tem de haver parceria com o Governo e com outras instituições internacionais que nos possam ajudar”, entende o autarca.

“Repare como a ilha está a crescer. Há nova expansão urbana, há mais população e, logicamente, a rede actual não dá resposta. Quando é assim, temos de ter um novo plano sanitário”, reforça.

Por outro lado, o vereador da CMSV destaca a importância do Plano Director Municipal, cujo concurso para a elaboração foi recentemente aberto. O instrumento deverá permitir uma gestão mais eficaz do território, prevenindo construções ilegais e preparando a cidade para enfrentar fenómenos meteorológicos extremos, que com as alterações climáticas tenderão a tornar-se cada vez mais frequentes.

*com Fretson Rocha e Lourdes Fortes

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1259 de 14 de Janeiro de 2026.

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira*,18 jan 2026 9:27

Editado porJorge Montezinho  em  18 jan 2026 10:19

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