Na moção que apresentou no passado fim de semana na convenção, refere que o MpD perdeu 39 mil militantes em 10 anos e que a abstenção atingiu níveis históricos. Na sua perspectiva, enquanto novo presidente do MpD, quais foram os erros cometidos que levaram a esta situação?
É preciso também dizer que a nossa oposição não cresceu. A UCID baixou e o PAICV cresceu cerca de 5 mil votos. Não só temos muito mais recenseados que anteriormente, mas as pessoas não estão a acreditar e não vão votar. Por alguma razão ou outra, temos que estudar isto. Se é pela mobilidade, se é pelo sistema eleitoral que temos, ou se é pelo desencanto que existe com a política. Eu acho que é uma combinação dos três. E o maior factor, eu acho que é o desencanto com a política. A forma como todos os partidos têm estado a fazer a política, não temos falado a verdade. Prometemos, continuamos a prometer, mas esquecemos de explicar que leva tempo para lá chegar, esquecemos de dizer o step by step, e hoje em dia a sociedade, no mundo inteiro, com as novas tecnologias, com as redes sociais, com a conectividade que existe, pensamos que partimos de 1 para 100 sem passar pelos outros números todos. Mas não é assim, há uma escada para subir e sobe-se um degrau de cada vez. Acho que este é um dos problemas que nós tivemos a nível da nossa comunicação durante os 10 anos.
Que responsabilidades é que esta direcção assume no sentido de inverter esta situação?
Eu prometi falar a verdade, dizer as coisas como elas são. Prometi ser uma oposição onde não vou só criticar. Quando criticar, quero apresentar alternativas, mas também reconhecer o que é bem feito, porque senão ficam dois polos antagónicos. Nós todos erramos, nós todos fazemos coisas boas. Agora, aqui é preciso discutir. [O problema é que] deixamos de discutir ideias, deixamos de analisar as coisas profundamente para poder explicar aos cabo-verdianos e quem escolheu Cabo Verde para viver, as dificuldades, o porquê de termos essas dificuldades e como é difícil geri-las. Às vezes pensamos que nós podemos ser Noruega, mas a Noruega, para chegar onde chegou, precisou ter um recurso que é o petróleo, vender o petróleo. Mas em vez de investir o dinheiro do petróleo no desenvolvimento do país, investiu o dinheiro que ganhou no petróleo em fundos. Tem, se não estou em erro uma percentagem em quase todas as bolsas e quase todos os fundos do mundo. E é desse lucro que a Noruega tem essa qualidade de vida em que as pessoas podem trabalhar seis meses por ano, em que as pessoas têm tudo: melhor saúde, melhor segurança e qualidade de vida. E é isso que nós temos que perceber de Cabo Verde. Não podemos continuar a não investir. Nós ainda somos um país que depende da ajuda externa e estamos a prometer coisas que não têm sustentabilidade. E atenção, nós, os políticos, não estou aqui a falar concretamente do PAICV ou do MpD, mas de todos nós, temos que arranjar uma forma de explicar isso às pessoas. Eu acho que um dos grandes problemas que temos foi o desacreditar por parte dos eleitores. Temos que perceber que o nosso eleitorado, a nível escolar, evoluiu significativamente. Cabo Verde é um dos países onde mais de 90%, acho que é 98% das pessoas que frequentam escolas, portanto, há uma juventude muito bem informada e ninguém está a falar com eles a linguagem que eles percebem. Portanto, o que nós prometemos para essa nova largada do MpD é falar com eles e tentar falar a linguagem que eles percebem e que merecem, e o respeito que merecem, porque muitas vezes acho que chegamos a roçar um insulto.
Como é que essa confiança perdida nos partidos políticos se recupera?
É muito mais difícil recuperar a confiança que perdemos. Nós sabemos isso. Recupera-se com trabalho. Com trabalho e com verdade, porque hoje podemos dizer coisas que não agradam. Mas amanhã saberão que estávamos a dizer a verdade, estávamos a ser realistas, e, portanto, é esse caminho que tem que ser feito. Eu acho que precisamos todos começar a fazer isso, porque a democracia, não há dúvida, é o melhor sistema que existe, mas tem um problema de 4 em 4, de 5 em 5 anos temos que nos reeleger, e acho que os partidos políticos se estão a focar muito mais nisto do que nos projectos e na visão a longo prazo. Assim atrasamos o desenvolvimento do país muito mais do que o beneficiamos. Eu mostrei a abertura de escolhermos áreas e termos acordos de onde é que queremos ir. Pelo menos isso. Discutir com a população, discutir com as universidades e dizer onde é que queremos a saúde de Cabo Verde daqui a 20, 30 anos. Ter um objectivo e, independentemente de quem for governo, trabalhar para isso.
E começa logo com a necessidade de resolver a questão dos órgãos externos à Assembleia Nacional. Foram anos seguidos de várias tentativas, qual vai ser agora a posição do MpD?
O MpD vai manter a posição que sempre teve de colaboração. Propor os nomes que têm que ser propostos e avançar. Aqui é preciso ficar muito claro, eu fiz parte deste processo quase desde o início. O processo começou em 2019, mas depois, com a pandemia, parou, e depois foi retomado quando eu fui líder parlamentar em 2021- e sempre mostramos a abertura e a disponibilidade para avançar, o que nunca conseguimos foram os nomes do partido que agora está no governo. Na altura todos sabemos que havia uma disputa interna muito grande que durou muito tempo para ser resolvido, e depois, quando foi resolvido, foi-nos transmitido que só o fariam depois das legislativas. Esperamos. Continuamos abertos e disponíveis, agora na oposição. Não vamos exigir mais do que aquilo que a lei permite que são as nomeações. Vamos tentar pôr pessoas e figuras que dignifiquem as instituições e esperamos o mesmo do outro lado, mas não seremos o factor de bloqueio. Nós queremos e acreditamos que a democracia só funciona com instituições fortes, renovadas e com todas as competências. Portanto, para ninguém questionar se o Procurador está caducado ou não, se o Tribunal Constitucional está em dia. Nós acreditamos que a democracia tem que funcionar e temos que confiar nas nossas instituições, e por isso a orientação que eu dou e o que eu tenho estado a falar com o grupo parlamentar é para realmente resolvermos isto e há total abertura da minha direcção e do próprio Presidente de negociar.
Voltando à Convenção. Na moção que apresentou, propõe a renovação da organização interna do partido, estruturas políticas mais descentralizadas, maior proximidade às bases do partido. Quais são as mudanças concretas que querem implementar e com que prazo?
O diagnóstico que eu fiz é que realmente tornamos o partido muito centralizado nos órgãos nacionais e quando se vai ver a essência do MpD, a declaração política do MpD, as orientações políticas da 2ª Convenção do MpD, em 1993, tudo é bem claro, o MpD é um partido das estruturas locais e nós esvaziamos as estruturas dos poderes que tinham. Se anteriormente eram as estruturas locais a propor os nomes para os cargos eleitos a nível nacional e local, neste momento é a Comissão Política ou é o Presidente. E isto não é bom, porque assim não conseguimos envolver os militantes e não estamos a ouvir a sociedade. É esta mudança que eu quero fazer. O MpD é tanto do presidente como do militante. E, portanto, ele, o militante, tem que ter forma de participar activamente na vida do seu partido. Eu sou o representante dele porque me escolheram para ser representante deles e daqueles que não me escolheram também. E se eu não estou a ouvi-los, dificilmente eu os represento da melhor forma. Acho que o que aconteceu connosco e que nos levou a essas duas últimas derrotas foi esse afastamento. Eu sei que estar a governar Cabo Verde preenche 48 horas em 24 horas, mas não podemos descurar quem nos tem lá e quem nos tinha lá chama-se MpD, chama-se Joaquim da Brava, Maria de Paul ou Joana que está a viver em Nice. E nós temos que continuar a ouvir, não devemos descurar o partido. Isto já aconteceu pela segunda vez na história do MpD e, portanto, nós temos que reforçar. E a minha ideia foi, nos estatutos, reforçar os poderes e tornar o partido mais democrático. Não é aceitável que num partido da dimensão do MpD os núcleos sejam nomeados. Os núcleos devem ser eleitos.

As escolhas de candidatos por sondagens, acaba?
Não, as escolhas dos candidatos serão feitas da seguinte forma: queremos que apareçam candidatos, militantes ou não. Por exemplo, vamos falar da Câmara da Praia quem se quiser candidatar para a Câmara da Praia e se aparecer mais do que um candidato, os militantes vão a uma primária, vão escolher daí quem vai ser. A sondagem serve como um instrumento orientador. Deve ser feita e deve ser partilhada com os militantes. Os militantes podem achar que eu sou o melhor candidato à Praia e a sociedade praiense não achar isto. A partilha de informação é muito importante para quando os militantes tomarem as decisões. O nosso objectivo é criar as condições para que os militantes possam estar envolvidos na escolha dos candidatos. E claro está que não estou também a excluir a Comissão Política Nacional ou o Presidente de opinar, mas não é uma decisão vertical, será uma decisão discutida envolvendo todos. O que eu acho que isto permitirá? Permitirá que quem for escolhido será escolhido através de um mecanismo transparente, acabam essas coisas de dizer é amigo deste ou é a família daquele. É escolhido pelos militantes e faz com que os militantes que não se reviam no candidato possam apoiar, porque sabem que a maioria dos militantes é que escolheu. Eu sei que há um receio grande que quando há candidaturas diversas possa criar divisões. Eu acho que muito pelo contrário. Quanto mais eleições fizermos dentro do partido, menos divisão criará, porque torna-se uma coisa que acostumamos a fazer. A falta de hábito é que faz essa percepção e que cria este problema. Por exemplo, estamos a vir de uma eleição disputada há três. Muita gente preocupada a dizer que isto ia rasgar o partido, mas não, envolveu os militantes. E quando se for falar com os militantes, eles vêem que estão vivos, estão contentes porque deram a sua opinião e, independentemente do seu candidato ganhar ou não, conseguiram envolver-se na decisão. Muita gente defendia que nós nos deveríamos sentar à mesa e ter só uma candidatura e eu sempre defendi que não, eu prefiro ir para as eleições, independentemente de ganhar ou não, eu acredito que o que o MpD precisa é que o militante dê a sua opinião.
E como é que se faz os militantes acreditar que essa reaproximação às bases desta vez vai ser a sério?
Com proximidade. Com muito diálogo. Isto não vai acontecer de um dia para o outro. É mais uma verdade que eu tenho. Isto não acontece porque eu quero, não acontece porque eu disse num discurso ou porque eu faço o apelo. Isto acontece com trabalho, com proximidade e com manter as portas abertas para todos poderem regressar. Há muita gente magoada com o MpD, magoada com os partidos políticos, desacreditada no sistema. Mas a única forma de o fazer inverter é fazer diferente, estar próximo, disponível para ouvir até o fim, deixar as pessoas conversarem e explicar até o fim para podermos ter uma conversa, para podermos ter trocas de ideias, para podermos perceber o porquê. E muitas vezes só esse facto já o traz de volta, porque ele acaba por dizer: Ele ouviu-me, ele está a repetir o que eu lhe disse.
Ainda dentro desta reaproximação às bases, acha que consegue ter isso feito até às autárquicas, que são daqui a dois anos?
Sim, dois anos e dois meses, mais ou menos. E como é que fazemos isso até lá? Temos que trabalhar. Trabalhar duro, trabalhar 24 horas por dia para primeiro fazer um recenseamento novo dos nossos militantes. Nós temos um problema grave, e isto tenho que dizer: é que a nossa base de dados está desactualizada, mas desactualizada de uma forma gritante. Os contactos que temos não chegam a 30% os que estão correctos. Mas também é compreensível porque o último recenseamento que fizemos foi em 2013, já passaram 13 anos. Mas não é só isso. Nós temos que modernizar o acesso dos nossos militantes à base de dados, pelo menos às informações pessoais deles. Se alguém mudar daqui para o Sal e não informar, muito dificilmente eu saberei que ele mudou para o Sal. E se mudar de número de telemóvel, então quer dizer que não tenho o contacto. E, portanto, é preciso, e vamos fazer coisas que outros partidos já fazem lá fora, ter uma base de dados com uma área para o militante individual, em que ele pode actualizar os seus dados em querendo para nós sabermos. Nós, por exemplo, temos uma situação com a diáspora, e isto é de todos os partidos. Dizemos que saíram 20 mil ou 30 mil pessoas de Cabo Verde nos últimos 4 anos, e muitos deles são militantes dos partidos, e nós não sabemos onde é que eles estão e não os conseguimos fazer mudar o recenseamento para lá e votar em nós lá. Perdemos o contacto, perdemos a ligação, e queremos reaproximar isto através das tecnologias.
Na moção que apresentou na convenção, defende que o MpD se deve preparar para regressar ao poder. De que forma é que quer exercer a oposição e distinguir a sua liderança da liderança anterior?
Primeiro, a distinção entre liderança é óbvia, estou na oposição e Ulisses Correia e Silva passou a maioria do tempo na situação. Tomou o partido em 2013 e em três anos fez um grande trabalho a preparar o partido para regressar ao poder. Portanto, é essa, nesta parte, que quero fazer o similar que ele fez. Eu quero adaptar as medidas que foram tomadas na altura à realidade de hoje e preparar o partido para esta nova largada. Identificar os quadros que têm vocação política e que querem estar nisto. Formar os militantes, porque eu acho que ninguém nasce presidente de Câmara, ninguém nasce presidente de partido ou deputado. Os partidos deveriam ter essa responsabilidade de formar. Eu digo-lhe da minha experiência. Quando fui para o Parlamento em 2016 cheguei à conclusão que não sabia nada do que é que estava a entrar. Nunca tinha visto um regimento, nunca tinha aprovado uma lei e, no entanto, o partido escolheu-me a mim para ir lá, e hoje eu digo sem nenhum problema: não era a melhor pessoa ou o mais bem preparado para estar lá. Agora, nós conseguimos aprender, conseguimos desenvolver ao nosso ritmo, mas eu acho que o partido, que os partidos têm esta missão e nós também queremos que a escola José Filomeno faça isso. Forme líderes, prepare pessoas para conhecerem como é que funciona o Parlamento, como é que funciona a função pública. Eu acho que um grande e grave problema que o actual governo tem é isto: é um governo totalmente novo, de pessoas que nunca estiveram na função pública e estão a aprender enquanto vão tomando medidas.
Falando agora de governação. A gratuitidade do ensino superior, a gratuitidade do sistema de saúde, viagens de barco a 500 escudos, viagens de avião a 5 contos, foram tudo promessas feitas pelo PAICV durante a campanha e que estão a ser concretizadas.
Para já não há gratuidade nas universidades. Há isenção de propinas. É uma coisa bastante diferente. Os livros continuam a ser pagos. É preciso desmontar os chavões. E a medida é nas universidades públicas. E então deixamos de ter universidades privadas em Cabo Verde? Essas são as explicações que não conseguimos. Por exemplo, tivemos o debate com o Ministro da Educação e ele não respondeu. O povo cabo-verdiano já não pode escolher ir para a Universidade Jean Piaget ou para a Uni-Mindelo? Tem que ir para a Universidade de Cabo Verde? Há um custo aqui, para além de a universidade não ser gratuita porque ainda há custos, e até porque a propina só representa 30% ou 40% dos custos de ir à universidade, portanto, ainda há que pagar os 60%, e que estão a aumentar. É essa a questão. Estamos a tomar uma opção e uma política que amanhã vamos ter que pagar. E eu acho que o amanhã é já, nem é para a geração vindoura. A sustentabilidade desta medida... Eles agora conseguem pagar. Mas porque é que conseguem fazer isto? Porque o anterior governo trabalhou para criar esta folga financeira. E antes de termos uma folga financeira sustentável, já estamos a gastar? A questão com que deveríamos todos estar preocupados é quanto tempo é que esta folga que foi criada sustenta esse sistema? E o que é que acontece a seguir? Quais são as medidas de investimento para manter a economia a crescer? Quais são? Porque há que repor este dinheiro. Nós não conseguimos encontrar ainda no orçamento que foi entregue no dia 5. Como é que fizeram essas contas? Porquê? Vamos no barco. Dos 1.500 escudos, que era o preço médio mais ou menos dos bilhetes de barco, 500 escudos eram impostos. Ia para o Tesouro que cria esta folga hoje. Com o bilhete a 500 escudos, [o Estado] prescinde desses 500 escudos. E além disto, tens que dar ao armador mais 500 - por causa do déficit. De onde é que vêm esses 500 escudos? Onde é que vão buscar? E falei de barco, porque se falar de avião, então ainda é pior. Se não há esta fórmula, devíamos estar muito preocupados. Porque daqui a dois ou três anos, o que vai acontecer é que, para além dos preços aumentarem, vão aumentar muito mais que hoje estão, porque há um déficit ainda maior. Como é que vamos manter controlado a dívida pública com todos esses aumentos? Isto é algo que preocupa e que não se soube falar na sociedade cabo-verdiana. Gostaria de desafiar os economistas, as universidades a tentarem ver esta questão na sua magnitude toda. Nem os maiores países do mundo fazem isso. E nós que vivemos com um orçamento que é deficitário como é que conseguimos fazer isto?
Mas o cidadão vê estas medidas e diz que as promessas estão a ser cumpridas. Como é que se contraria isto?
O Trump prometeu muitas coisas e está a fazer muitas coisas. A população americana é que não está nada feliz porque está a pagar por elas. Cabe-nos a nós, enquanto cidadãos, estar conscientes de que sim, eu posso prometer, e se me derem carta branca, eu faço tudo o que vocês quiserem. Agora, não podemos é reagir surpreendidos se amanhã houver um aumento de impostos radical em outras coisas. Deixamos de proteger combustível de aumentar porque não temos folga para o fazer. É necessário explicar à população cabo-verdiana que isto é um ‘toma lá, dá cá’. E neste momento estamos a ver o tomar e não estamos a ver a parte de devolver. Isto não existe. Nós vamos ter mais 3 barcos que têm que ser pagos, e estamos a baixar o preço dos bilhetes. Recebemos um avião, um ATR, há dias e ainda vamos receber outro. Têm que ser pagos, portanto, isto é só somar ao déficit que nós estamos a criar.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1298 de 14 de Outubro de 2026.
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