José Maria Neves critica ataques internos e desunião em vésperas de eleições

PorExpresso das Ilhas, Lusa,9 dez 2019 8:41

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José Maria Neves
José Maria Neves

O ex-presidente do PAICV e antigo primeiro-ministro José Maria Neves criticou hoje os ataques internos e a “desunião” no partido, em vez da preparação das próximas eleições autárquicas.

“Neste momento, devíamos estar a discutir a Agenda Autárquica [2020] e o Programa 2030 do PAICV, com propostas inteligentes, inovadoras, ousadas e adaptativas, para mobilizar a sociedade e os cidadãos em torno de novas ideias quanto ao futuro”, lê-se num artigo que José Maria Neves divulgou hoje, intitulado “Tempo de arrepiar caminho”.

A posição do ex-presidente (2000 a 2014) do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV) surge numa altura de divisão interna, depois de, no sábado, o deputado José Sanches ter anunciado que não concorre à liderança por estar em curso um "golpe de assalto" por Janira Hopffer Almada, por sua vez recandidata ao cargo nas eleições diretas de 22 de Dezembro.

José Maria Neves, que já assumiu em entrevista à Lusa, em Agosto último, a pretensão de concorrer às eleições presidenciais de Cabo Verde em 2021, dá como exemplo os erros cometidos pelo partido na votação de 2011, também num ambiente de profunda divisão sobre o processo eleitoral e sobre o candidato.

“Devemos ter a humildade de reconhecer que cometemos, todos nós, erros graves em 2011, quando nos dividimos em torno da questão presidencial. Eu, que era então líder partido, tenho mais responsabilidades e assumo-as na plenitude. Só quem não age deixa de errar”, sublinha, no mesmo artigo.

O candidato apoiado pelo PAICV em 2011, Manuel Inocêncio Sousa, foi derrotado nessas eleições e segundo José Maria Neves, o “partido saiu muito fragilizado e com enorme desgaste emocional”, tendo sido “necessário intenso diálogo” e até um “Congresso da Reconciliação”.

“As feridas de uma guerra de família levam tempo a sarar”, recorda José Maria Neves.

Daí que, aponta o último primeiro-ministro do PAICV (2001 a 2016), “é sempre perigoso quando alguém se arvora em titular da consciência moral do partido a que pertence e se assume como inquisidor mor e único com capacidade de impor o bem aos outros”.

“As disputas só revelam vitalidade se estribarem em regras do jogo claras e aceites por todos e em ideias e propostas alternativas de governação partidária. Todos perdem quando uma disputa se resvala para ataques pessoais e destrutivos de carácter”, aponta José Maria Neves.

O prazo para a entrega de candidaturas à liderança do PAICV nas eleições directas de 22 de Dezembro terminou no sábado e, horas antes, em declarações à Lusa, o deputado José Sanches, que antes tinha anunciado a intenção de concorrer, desistiu, alegando que na preparação da sua candidatura foi-lhe "sonegada" a base de dados actualizada dos militantes, tendo sido reduzido o número de delegados a eleger ao congresso que se segue às directas.

"Acharam [no encontro com os apoiantes no sábado] por bem que nós não devemos legitimar esta farsa que está a acontecer, que se convencionou chamar eleições internas do PAICV", afirmou Lusa José Sanches, crítico da liderança de Janira Hopffer Almada.

Já para José Maria Neves, “cada ataque a um membro ou dirigente actual ou antigo é um golpe desferido no coração do próprio partido, que supostamente se defende”, recordando que “quem é membro e defende os princípios e os valores do PAICV não ataca os seus companheiros, na ilusão de que ele é ‘santo’ e o outro é diabo, ele é o eixo do bem e o outro o eixo do mal”.

“Peço, pois, aos meus companheiros que paremos com os ataques pessoais, porque independentemente do lado da barricada em que estivermos, estamos a destruir o partido, quando desferimos golpes fatais àqueles que pensam de forma diferente de nós e que erigimos em inimigos a abater”, exortou José Maria Neves.

Defende que é possível “discordar e disputar em torno de ideias”, mas sublinha que “um partido desunido, onde ninguém escapa aos ataques amigos de uns e de outros, não ganha nada”.

“Precisamos de respeito mútuo e de autocontrolo. Todos nós somos poucos para a grandeza da obra que nos espera. Resgatemos o espírito de amizade e de companheirismo que devem nortear as relações entre membros de um mesmo partido”, apelou, garantindo que o “PAICV é mais do que cada um e todos nós juntos”.

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Autoria:Expresso das Ilhas, Lusa,9 dez 2019 8:41

Editado porSara Almeida  em  12 jul 2020 23:20

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