O investigador do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa defendeu, em declarações à Lusa, que a diferença entre Cabo Verde e outros Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) está na profundidade das instituições democráticas e na capacidade de alternância no poder.
"Cabo Verde, de facto, tem um sistema partidário, bipartidário [Movimento para a Democracia e o Partido Africano da Independência de Cabo Verde], se quiser, com uma rotatividade entre dois partidos e que vai funcionando e que tem instituições democráticas mais profundas", afirmou o especialista em temas africanos.
Para o investigador, é precisamente essa rotatividade que transforma a juventude num eleitorado relevante e não apenas numa força de mobilização de campanha.
"Como as eleições não são eleições 'pré-cozinhadas', a juventude passa a ser um elemento fundamental para se ganhar eleições, porque é preciso o voto da juventude" devido à sua dimensão e peso, declarou.
Segundo o docente do Forward College, da London School of Economics and Political Science, este cenário contrasta com o de outros países africanos lusófonos - principalmente Angola e Moçambique - onde o peso dos partidos hegemónicos e o controlo do aparelho de Estado dificultam a renovação política e mantêm os jovens afastados da decisão.
Para si, apesar de Luanda e Maputo terem, formalmente, sistemas multipartidários, a política é condicionada pelo domínio de aparelhos partidários consolidados ao longo de décadas.
Tomando Angola como exemplo específico, afirmou que "há eleições, há um sistema partidário com múltiplos partidos, mas há um partido hegemónico".
Na sua perspetiva, o poder exercido pelo Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) - no governo desde a independência do país, em 11 de novembro de 1975 - aproxima o país de quase um "sistema de partido único".
"Eu diria mais que hegemónico, [o MPLA] é um partido quase único, é quase um sistema de partido único porque ganha desde sempre", afirmou.
Segundo o investigador, em sistemas deste tipo a ascensão política das pessoas depende sobretudo da integração no aparelho partidário dominante, processo que demora anos e favorece dirigentes mais velhos.
"O controlo do poder partidário, dos aparelhos partidários, faz com que isto seja uma carreira onde se pode aspirar a ter lugares de ministro, ou de secretário de Estado, ou de Presidente mais tarde", afirmou.
No caso da Guiné-Bissau, o docente descreveu um quadro distinto, marcado pela fragilidade institucional, pela militarização da política e pela dificuldade em consolidar uma democracia funcional.
Miguel Silva considerou o país um exemplo de como uma democratização rápida, na década de 1990, sem consolidação institucional suficiente, gerou instabilidade prolongada.
"A Guiné-Bissau seria um exemplo de como uma democratização acelerada nos anos 90 dá origem a uma guerra civil", disse, acrescentando que, a partir daí, se instalou um cenário em que "já ninguém sabe onde está o poder e este pode ser de quem tiver armas".
O especialista referiu que a perda da hegemonia do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) abriu, por um lado, espaço potencial à alternância, mas, por outro, expôs o sistema à permanente interferência militar.
Ainda assim, reconheceu que a juventude guineense está muito bem organizada em associações e grupos de defesa dos direitos humanos, mas sublinhou que a capacidade de influência dessas estruturas é reduzida num contexto que classificou como "completamente militarizado".
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