Estado da Nação - Sociedade : Analistas são unânimes em que a Covid-19 veio pôr a nu algumas fragilidades do país

PorAntónio Monteiro,1 ago 2020 9:20

A antecipar o debate sobre o estado da nação em que os partidos políticos com assento parlamentar irão ter seguramente leituras diferentes sobre o último ano de governação, o Expresso das Ilhas convidou quatro analistas sociais para reflectirem sobre o país real e o que é que irá mudar no Cabo Verde pós-Covid-19.

“Cabo Verde não é nem o paraíso que a situação apregoa, nem é o inferno que a oposição pinta”

Para o analista político António Ludgero Correia quando alguns índices estavam melhorando, surgiu a hecatombe que nos remeteu para os anteriores níveis de insegurança, desemprego e assimetrias regionais. Ludgero Correia acredita que superada a crise o país irá transformar-se de novo num Estado de matriz social.

Cabo Verde é um país que se põe na ponta dos pés para poder aparecer. Tem sonhos e ambições, se esforça para ser melhor e estar entre os melhores, consegue operar verdadeiros milagres, mas, não raras vezes, vive no faz de conta. País de rendimento médio, campeão da democracia em África, grupo da frente em matéria de liberdades e garantias, paridade de gênero, etc. Vibra com estas conquistas, curte a forma e o conteúdo do discurso dos seus líderes, fica ensimesmado e se cultuando, a ponto de perder de vista suas lacunas e limitações. Mas o país Cabo Verde não é nem o Paraíso que a situação apregoa, nem é o Inferno que a oposição pinta. No momento o país vive o drama do aumento do desemprego e da dívida, da desaceleração da economia e um nível preocupante de anomia social. O esbatimento da linha que separa o bem do mal, o certo do errado, o permitido do apenas tolerado, aliado ao nível do desemprego atingido e a instalação de uma atitude consumista, estarão, certamente, na base da corrupção, da violência, da intolerância e da insegurança instalada e que tendem a fazer escola. E faz pena constatar que quando, apesar dos pesares, alguns índices estavam melhorando, surge a hecatombe que nos remete para os anteriores níveis de insegurança, desemprego e das assimetrias regionais de desenvolvimento. Mas a situação por que agora passamos tem mais a ver com a nossa imprevidência. A pandemia nos pegou de calças na mão, literalmente. O SNS sem Unidades de Tratamento Intensivo (UTI); sem laboratórios de virologia e/ou laboratórios com a necessária segurança para lidar com vírus letais; inexistência de médicos intensivistas; carência de reagentes para exames laboratoriais; indefinição na hierarquia intermédia (quem é quem ou quem manda e quem obedece); enfim, um estado de coisas que ninguém deseja quando se tem pela frente uma pandemia que avança de forma avassaladora. Os serviços da área social viram sua intervenção fortemente prejudicada pela ausência de um cadastro nacional dos vulneráveis que poderiam precisar ser amparados, seja pela providencial cesta básica, seja pelo apoio monetário emergencial, seja ainda pelo regime de lay off.

Superada a crise sanitária, restará enfrentar a crise social. Se conseguirmos aprender alguma coisa com esta crise avassaladora, o mais certo é o país Cabo Verde se transformar, de novo, em um estado de matriz social e que combate a corrupção porque sabe que, em saindo vencedor, terá mais recursos para um tal posicionamento; que passa a investir de forma coerente na educação e na saúde, por saber que a vitalidade e a qualidade da sua força de trabalho depende disso; que investe em bases de dados relacionais (tendo presente que por maior que seja uma base de dados, ela começou com uma entrada singular); que seja menos imprevidente, já que, como sói dizer-se, um homem prevenido vale por dois. Um país prevenido então…Não se clama por um Estado de Bem-Estar Social mas o país Cabo Verde precisará se posicionar mais perto do Estado SOCIAL de direito democrático delineado na Constituição (original) de 92.

“A pandemia veio mostrar uma vez mais a nossa dependência num sector altamente dependente do mercado europeu”

Para o sociólogo e diplomata Camilo Leitão da Graça o novo coronavírus teve efeitos perversos na economia e no emprego, mas acredita que a partir de 2021 poderemos ter uma sociedade mais solidária e preocupada com a saúde e o bem-estar colectivo.

Agradecendo a oportunidade, diria que falar do Estado da Nação no último ano desta legislatura e num contexto de grave crise epidemiológica (COVID-19) é, essencialmente fazer o balanço dos quatro anos de governação (2016-2020) e ter em conta uma combinação de fatores positivos e negativos durante esse período. Como factores positivos podemos apontar: o aumento do crescimento económico nos três primeiros anos (2016-2019); confiança e investimentos económicos no sector do turismo em crescendo; entre outros. Como factores negativos: apontava os sucessivos anos de seca; o surgimento da pandemia e primeiros efeitos em Cabo Verde (Março de 2020) e seu efeito perverso na economia e nos empregos. Portanto, em suma, diria que este governo terá que contar, talvez, com a riqueza que tínhamos há quatro anos atrás, quando iniciou o mandato. Relativamente às fragilidades, penso que elas foram surgindo pouco a pouco, desafiando as autoridades a população em geral. Em primeiro lugar, os equipamentos hospitalares em falta, a organização e o trabalho em equipe; depois a ação diplomática virada para a vertente sanitária e de mobilidade (autorização de voos de repatriamentos, etc.) e a cooperação principalmente na área da saúde. Do ponto de vista económico, diria simplesmente que veio mostrar uma vez mais a nossa dependência num sector altamente dependente do mercado europeu e que vive sobremaneira as suas crises. Portanto, torna-se necessário ir-se diversificando a economia com projectos modernos (com uso das novas tecnologias), leves, dinâmicos, criativos, rentáveis e, sobretudo, com alto benefício social e/ou ambiental. A chamada Economia Social e Solidária.

A partir de 2021, talvez, quando a poeira assentar, poderemos ter uma sociedade mais solidária e preocupada com a saúde e o bem-estar colectivo, esperemos! Da parte do governo, espera-se mais investimentos na saúde nos próximos tempos, sobretudo nas ilhas mais vulneráveis (serão condimentos para a futura regionalização?). Quanto à sociedade civil, espera-se da juventude maior protagonismo e espírito de liderança responsável. As associações, a academia e centros de investigação científica, os media, serão todos chamados a darem a sua contribuição para a busca de soluções e prevenções. Mas neste momento de espera e paciência, a calma e a inteligência são as melhores conselheiras.

“Somos uma nação resiliente”

Eurídice Monteiro avalia que são imprevisíveis as consequências da pandemia em termos não apenas económicos, como sociais. Por isso, a socio politóloga defende que é imprescindível uma forte intervenção do Estado para atenuar os efeitos nefastos da recessão económica e da instabilidade social.

Isto está muito difícil, mas havemos de superar esta situação. Somos um país resiliente. Cabo Verde já conheceu épocas bem piores do que esta. O que acontece é que a pandemia veio nos lembrar que Cabo Verde é um país frágil e de que ainda depende fortemente do exterior; de que a nossa economia padece de um défice de estruturação e de que isso tem consequências nas instituições, na vida das pessoas e no bem-estar social. A pequenez do nosso mercado, o peso da economia informal e informalização do trabalho ajudam a caracterizar o nível da nossa vulnerabilidade socioeconómica. Tenho vindo a dizer que, de facto, a incerteza que se vive com esta pandemia só vem agudizar um problema já antigo. De maneira que são imprevisíveis as consequências da pandemia em termos não apenas económicos, como sociais. Por isso é que é imprescindível uma forte intervenção do Estado para atenuar os efeitos nefastos da recessão económica e da instabilidade social.

Creio que esta crise sanitária veio despertar a atenção das pessoas para um conjunto de pequenas e de grandes preocupações da humanidade. Se um vírus foi capaz de ganhar essa escala global, isto serviu também para despertar consciências de que a acção de cada um de nós poderá ter consequências para o bem ou para o mal. Teremos que assumir as nossas responsabilidades enquanto cidadãos e cidadãs e fazer a parte que nos cabe para preservar a humanidade, para proteger o planeta e, em última instância, para salvar as nossas vidas. Creio que, em Cabo Verde e no mundo inteiro, muita gente que parecia viver num outro hemisfério sentiu um calafrio com esta pandemia e teve a noção de quão vulneráveis são os humanos. É dessa consciência da nossa limitação pessoal e da limitação de recursos disponíveis que poderá nascer uma nova esperança. Não tenho uma visão apocalíptica, nem romantizada. Mas, creio que alguma coisa mudou e vai continuar a mudar. É uma mudança que vem de dentro de cada um de nós.

Reflectir sobre a nossa condição social

Para o sociólogo Adilson Semedo esta crise deu-nos a chance de reflectirmos sobre a nossa condição social e tirar as devidas ilações. Na sua opinião, o caminho após a pandemia será o de se formular um humanismo crioulo consensual e de dialógico.

O real estado da nação está preso nas contingências geradas pela acentuada incongruência entre os discursos que nos apresentam um país resiliente, o dos índices internacionais merecedores de menções honrosas, e a prática que reina na vida quotidiana. A pandemia no novo coronavírus veio pôr a nu as fragilidades estruturais do nosso processo de modernização política e social.

Nas conclusões da investigação acerca dos posicionamentos públicos do Governo da Diocese de Santiago perante as Mudanças Políticas (1975-2001), inferi que na modernização da sociedade em Cabo Verde, os subsistemas sociais se diferenciam funcionalmente por meio da «estruturação interna da relação da vulnerabilidade, própria e do ambiente, com outros elementos». É uma hipótese explicativa que encontra na vulnerabilidade uma constituinte do ambiente físico, social e psíquico, descrito a partir da dimensão material (seca-fome-morte), da dimensão espaço-social (isolamento-exploração-abandono) e da dimensão psicológica (insegurança-medo-incerteza). Cheguei a essa conclusão depois de constatar que, no decurso da nossa história, todo o dinamismo no sentido do atendimento de um problema social acarretou uma complexificação que fazia da solução de chegada uma nova face do problema de partida [...]

É difícil prever que Cabo Verde vamos ter sem cair no realismo/pessimismo. Por defeito de formação, sou compelido a não considerar a mudança social sem mudanças estruturais. Esta pandemia pode ter proporcionado tempo para refletirmos sobre a nossa condição social. Admitamos que foram lançadas as sementes para uma nova consciencialização. Entretanto, não podemos deduzir que isso seja uma evidência de mudanças sociais estruturais. Quando tudo isso passar, os que sobreviverem serão os vencedores dessa guerra. Não é de se esperar de todo que os vencedores venham a ser cautelosos. Portanto, é demasiado especulativo propor que sociedade teremos depois da crise sanitária. É mais fácil aventurar-me no imaginar que Cabo Verde devemos ter após essa crise.

Para mim é crucial que venhamos a ter um Cabo Verde que perceba que a «cultura da paródia», sustentáculo da popular expressão «Cabo Verde – Terra sabi» é altamente corrosiva a todos os intentos de comprometimento social, mormente quanto esta exige sacrifício, abnegação e contenção. Não adianta apelar à consciência colectiva quando os valores semeados favorecem a atomização do individuo, apresentando as responsabilidades sociais, desde o cuidado com a saúde pessoal, os cuidados com a vida familiar, até aos cuidados como o outro generalizado que é invisível, como obstáculo ao usufruto da liberdade individual. O caminho será o de se formular um humanismo crioulo consensual e dialógico.[...]

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 974 de 29 de Julho de 2020.

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Autoria:António Monteiro,1 ago 2020 9:20

Editado porSara Almeida  em  28 set 2020 23:21

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