Estado da Nação pós COVID-19 : Jovens querem mais espaço e educação de qualidade

PorSheilla Ribeiro,1 ago 2020 9:22

Muita coisa tem mudado com a pandemia da COVID-19. Aliás, não é por acaso que se tem falado numa “nova normalidade”, isso devido aos novos hábitos e costumes que surgiram desta necessidade de conviver com o vírus. Isso em todo mundo e Cabo Verde, que já contabiliza 22 óbitos, não foge à regra. E como é o Estado da Nação pós COVID-19? Esta foi a pergunta central desta reportagem que se centra na juventude. As respostas podem ser resumidas numa única frase: “frustrados” com a classe política, os jovens pedem mais espaço na arena das decisões e também mais e melhor educação.

O jovem sociólogo Rony Moreno defende que o país está diante da sua “maior crise”, que está afectando aspectos tão singulares como o comportamento, hábitos e preocupações individuais. Ou seja, complementa, “o Estado actual do país é de stress e de inquietude”.

Nisto, refere ainda o entrevistado que “o Governo vem tentando encontrar uma via de fuga”. Por tudo isto, entende Rony Moreira que o actual Estado da Nação deveria ser de reflexão, sobre que País se quer.

“Ainda não houve nenhuma entidade partidária a propor um debate sério sobre este assunto. A crise actual é também sanitária. Até o momento o governo conseguiu que o nosso Sistema de Saúde não entre em ruptura e, consequentemente, o seu colapso. O que vem provar que só não temos um Sistema de Saúde melhor, por falta de vontade. A resiliência que o sistema de saúde vem demonstrando é prova cabal que se houver boa vontade e uma boa organização/articulação podemos fazer mais”, comenta.

O representante da rede de associações comunitárias da cidade da Praia, Gerson Pereira, acredita que o estado da Nação pós COVID-19 tem sido muito complicado devido a algumas situações decorrentes dessa crise. Aliás, diz que neste momento há pessoas a tentar retomar suas vidas, mas tendo as sequelas a nível económico e social como uma barreira.

“A Covid-19 trouxe à tona para o estado da Nação um conjunto de problemas que há muito tempo temos enfrentado no País, como as questões ligadas à habitação, ao saneamento e à pobreza. Problemas que sempre existiram, mas que antes estavam camuflados ou negligenciados”, afirma.

Por seu turno, o jovem artista e também activista social Romeu di Lurdes afirma que se está perante um país com alguns feitos, “todavia longe, muito longe do merecido”, e uma Nação com planos, sonhos e muita vontade de trabalhar e realizar os seus objectivos, mas, “numa realidade deprimida, paupérrima, de muitas dificuldades e pouco esperançosa”.

Romeu fala na “grande falta” de todos os serviços públicos e privados, “praticamente em todos os sítios”, principalmente nos chamados periféricos, uma Nação de centralidade e mediatizada “em que os dados são manuseados, manipulados e apresentados e não cruzam com as situações reais da vida da população”.

Para a académica, activista e influenciadora cabo-verdiana, Navváb Aly Danso, há questões sociais que estão a ser constantemente ignoradas. Esta fala em injustiças sociais “que são abafadas” e que, de certa forma, surgem e reflectem a fraqueza da Nação.

O que querem os jovens

Navváb Aly Danso defende o caminhar para a frente com o pretexto de que um país em desenvolvimento pode ser enganador se não se avaliar a necessidade de ter mais jovens de diversas realidades em contextos decisivos para o futuro do país.

A entrevistada ressalta ainda que há, por exemplo, estudantes na diáspora que querem regressar, mas, que são impedidos pela “falta de oportunidades”, nomeadamente estágios “sem fim”, vagas limitadas além de concursos “limitados e controversos”. Neste sentido, defende que é preciso margem de manobra para que os jovens possam agir, regressar e colocar os planos na realidade.

Para Rony Moreira, os jovens continuam a querer as mesmas coisas: emprego, condições para desenvolverem as suas aptidões e competências artísticas, desportivas e sociais. Isto, diz, numa análise mais macro.

“Mas, temos hoje jovens que vêm manifestando outras preocupações, como questões ligadas ao ambiente, onde há uma forte liderança juvenil nesta luta. Questões relacionados com a igualdade de género”, acrescenta, completando que há que saber lidar com as ansiedades e as expectativas ou problemas que a juventude vem impondo. “Vão de certeza reivindicar soluções para os seus problemas”, avisa.

Ainda nas suas declarações, Rony Moreira afirma que “no plano dos sonhos e da ilusão”, gostaria de, depois desta pandemia, ver um Cabo Verde que soubesse olhar para esta crise de maneira a compreender melhor as suas limitações e potencialidades.

“O meu desejo era que houvesse maior seriedade nos debates parlamentares. Porque as decisões que dizem respeito ao país são ali debatidas e decididas. Mas, infelizmente vamos sair desta crise, assim como entramos: sem um Plano Nacional de Desenvolvimento”, acrescenta Moreira dizendo ainda que o País “não tem hoje actores políticos para isso”.

De entre outras coisas, Romeu di Lurdes responde que os jovens querem uma Nação que não se deixa separar por partidos políticos e governada por “indivíduos gananciosos, acumuladores de cargos, salários e riquezas, demagogos e egocêntricos, que empatam por vários anos as suas oportunidades de emprego, e desviam o pão da mesa dos pobres”.

“Os jovens querem uma nação mais solidária, feliz, harmoniosa, cumpridora, congregada e fortificada por uma causa maior, Cabo Verde, e a vida digna dos cabo-verdianos”, completa.

“Queremos é apenas ter vez e voz”, responde Gerson Pereira, defendendo que depois da COVID-19 tudo o que se precisa é de uma Nação mais unida. Este jovem diz ainda acreditar que este é o único caminho a percorrer.

Gerson apela ainda para que a associações passem a ter uma participação nas tomadas de decisões, de planeamento e até de execução de qualquer medida política virada para as comunidades.

“Peço aos políticos que ponham a mão na consciência e pensem na forma como está sendo feita a política no país, porque o povo está cansado das incertezas e se as coisas caminharem por este rumo não se sabe qual será o destino da nossa Nação”, avisa.

E a educação? Com está?

Para Rony Moreira “houve algumas boas reformas” no sector da educação, como a introdução das línguas no ensino primário e o aumento da escolaridade obrigatória num custo reduzido. Mas entende que a nível qualitativo, principalmente no ensino secundário, precisa-se aumentar a exigência.

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“Assim também, com a atenção que devemos ter com o ensino primário, porque tem havido uma disparidade de qualidade de acordo com os espaços sociais dos alunos”, prossegue, completando que no campo do ensino superior, precisa-se aumentar a exigência, tanto dos alunos, como dos docentes.

Para este jovem sociólogo, a profissionalização da classe dos decentes não passa só por ter professores disponíveis nas Universidades, mas também por um maior investimento nas pesquisas e nos trabalhos científicos dos docentes.

“Se a educação for levada a sério, como deve ser, se os investimentos forem bem-feitos nesta área e nas demais áreas que promovam o bem-estar da população, haverá, na certa, condições para que todos possam actuar. É desta forma que teremos ferramentas para mudar Cabo Verde”, argumenta, por seu turno, Navváb Aly Danso.

“Estou a “acordar” os meus colegas relativamente ao nosso papel e ao nosso poder. Empodero jovens como eu a pensarem que somos todos valiosos, enquanto cabo-verdianos temos todos uma responsabilidade perante a nossa Nação quer estejamos dentro ou fora de Cabo Verde”, finaliza.

Ainda sobre a educação

A presidente do Sindicato Democrático dos Professores (SINDPROF), Lígia Herbert diz que para a classe que representa, o estado da Nação “não está tão mal como tem sido apregoado”. Esta sindicalista diz, entretanto, que também estão a atravessar “momentos difíceis”.

“Apregoa-se muito o ensino de qualidade, mas, para se ter qualidade, um ensino que se sonhe, a primeira coisa é educação despartidarizada. Porque nós estamos a falar de instrução de uma sociedade, independentemente de que partido for. E quanto a isso, que seja uma educação que se comece pelo professorado, capacitar a classe, criar melhores estratégias, uma lei de base que tenha verdadeiramente um sistema de ensino que se prevê de qualidade”, acrescenta.

Lígia Herbert fala ainda na criação de uma lei do agrupamento que vá ao encontro à já citada lei de base, porque, refere, está-se a ver que “há um desfasamento” entre a lei de base e a lei do agrupamento.

“É preciso que se veja isso, que se veja também um ensino onde o aluno não é somente o depósito de conteúdos, mas aquele ser pensante que sabe também dizer, que também tem seus subsídios que possa dar”, defende a presidente do SINDPROF, alertando para a situação de que, muitas vezes, quando o aluno não acompanha é marginalizado.

Por isso, defende que é preciso começar a pensar que cada criança é como uma ave, que voa da sua maneira. Conforme diz, há aquelas que aprendem mais rápido e há outras cujo processo de aprendizagem é mais lento. Mas, frisa, “todos aprendem e é preciso que se tenha isso em conta”.

“Gostaria que nós pensássemos seriamente a educação em Cabo verde, que também os projectos não fiquem somente no papel, mas que sejam projectos factíveis e possam servir para o bem-estar, para o desenvolvimento do professor e também para que o aluno apreenda. Porque muitas vezes os nossos meninos chegam a Portugal, ao Brasil e há um choque com a realidade, com o ensino”, volta a alertar.

Para Herbert, as universidades também devem começar a pensar num aproximar com a realidade. “É preciso que haja uma ligação entre os conteúdos que se ensina no 12º ano e os conteúdos que vão ser ensinados nas universidades. É preciso que as cadeiras sejam exactamente aquelas que os meninos precisam para acompanhar depois nas universidades”, acrescenta.

Associação de pais e encarregados de educação

O representante da associação de pais e encarregados de educação do Liceu Amílcar Cabral, Assomada, Milton Martins, diz acreditar que em Cabo Verde “ainda falta muito” para ter uma Nação evoluída.

“Já avançamos bastante, principalmente a nível tecnológico, e isso permite que os pais, os professores ou os encarregados de educação avaliem melhor o desempenho de cada criança nas actividades propostas”, contra-argumenta.

A COVID-19, conforme disse, a nível do ensino, “dividiu a população em dois grupos”: um onde os pais conseguem fazer o acompanhamento do ensino dos filhos com mais responsabilidades e, por outro lado, um dos menos presentes na educação dos seus filhos.

“No início tudo parecia normal, mas com o decorrer de tempo, com a ideia de aprender a estudar em casa, os alunos deixaram de dar importância ao ensino e mal assistiam às aulas. Infelizmente vivemos numa profunda crise, principalmente no âmbito educacional. Hoje temos a necessidade de levar o ensino mais a sério e ter os pais mais presentes na educação dos filhos”, defende.

Embora os constrangimentos apontados, Milton Martins mostra-se crente que, depois de toda esta situação da COVID-19, poderá vir a haver uma Nação mais “bem mais amadurecida” a nível do ensino, malgrado as carências de recursos, que muitas vezes dificultam o ensino nas zonas mais distantes dos centros urbanos.

Ainda sobre a Educação, o Expresso das Ilhas tentou ouvir o ministério da Educação, mas as várias tentativas revelaram-se infrutíferas.

*Com Liliana Alves (estagiária)

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 974 de 29 de Julho de 2020.

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Autoria:Sheilla Ribeiro,1 ago 2020 9:22

Editado porDulcina Mendes  em  6 ago 2020 23:21

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