Estudar fora ou pretexto para a emigração? A questão de um fenómeno a esclarecer

PorSheilla Ribeiro,19 jun 2022 8:01

Depois das Provas Gerais Internas (PGI) do 12º ano é chegado o momento da escolha do curso universitário. Mas, para um grupo de cabo-verdianos a ansiedade gira em torno de outro grande e decisivo acontecimento: concorrer a uma vaga de estudo e fazer as malas para o exterior.

Esses jovens embalam numa tendência que já se vem tornando “algo cultural” nos últimos anos – a ideia de que conseguir uma vaga de estudo é uma forma de sair do país para viver na Europa, sem necessariamente estudar.

Se antes os alunos do 12º ano podiam concorrer a uma vaga ou bolsa de estudo no exterior apenas através da Direcção-Geral do Ensino Superior (DGES), hoje já podem concorrer através de diferentes associações e das câmaras municipais.

Essa maior oferta de vagas trouxe, sobretudo para os estudantes com poder aquisitivo “mais baixo”, a possibilidade de emigrar com maior facilidade. Entretanto, estando no exterior, ao invés de estudar, a prioridade é arranjar um emprego para arcar com os custos de vida e até mesmo ajudar familiares nas ilhas.

É o caso da jovem Mayara Moreira. Depois de conseguir uma vaga para estudar em Bragança, Norte de Portugal, junto à câmara municipal do seu concelho de origem, em Outubro de 2021, deixou a família rumo a Portugal. No entanto, no meio do segundo semestre, desistiu de estudar. Conforme revela ao Expresso das Ilhas, há muitos na mesma situação.

Primeiro, não gostou do curso que tinha escolhido; segundo, o curso não foi o que imaginou que seria; terceiro, não se sentia à vontade na escola.

“Alguns colegas trataram-me mal e chegou ao ponto de me chamarem de macaca. Mas, além desta questão de racismo, também desisti por falta de condições financeiras. A minha mãe, que é empregada doméstica, não podia bancar todas as despesas e, por fim, não me senti bem porque estava sozinha naquela cidade, não conhecia absolutamente ninguém”, narra.

Ao desistir, Mayara foi para Lisboa, onde tem alguns familiares que a ajudaram a conseguir um emprego part-time. Ainda assim, afirma que não desistiu de um dia fazer uma licenciatura. “Apenas estou a organizar a minha vida. Eu sei que tudo depende da força de vontade”, salienta.

Ao constatar que não podia bancar os estudos, conta esta jovem que a sua mãe pediu que regressasse a Cabo Verde para continuar os estudos numa das universidades do país. Mayara diz que não aceitou esta “solução”, afirmando que, pelo menos por agora, Cabo Verde é “só de férias”.

“Sei que no futuro vou ter de pagar a faculdade se eu quiser estudar. Mas, também sei que fazer as duas coisas (trabalhar e estudar) é complicado, porém nunca se sabe. Eu não sei dizer se vou ou não conseguir fazer as duas coisas, porque nunca passei por isso. Se não der para fazer as duas coisas, vou ter de escolher a melhor opção para mim. Mas eu quero estudar, mesmo que seja para fazer uma formação profissional”, frisa.

Segundo a jovem, antes de chegar a Portugal não pensou que teria de deixar os estudos para trabalhar, apesar da origem humilde. Na verdade, declara, tinha imaginado uma realidade “totalmente diferente” daquilo que é viver na Europa.

“Todos que aqui chegam pretendem estudar, mas estando cá, com o choque de realidade, tudo muda”, ressalta, completando que, apesar do “choque”, não se arrepende de se ter aventurado porque mesmo trabalhando part-time a sua vida melhorou, quando comparado com a vida que tinha em Cabo Verde.

“É mais fácil conseguir as coisas que eu quero e ainda consigo ajudar a minha família”, acrescenta.

“Si ka badu ka ta birado”

Joseane Tavares terminou as PGI e quer fazer uma licenciatura em contabilidade. “Mas, quero cursar no exterior porque penso que há melhores condições. Sem contar que posso arranjar um trabalho em pouco tempo”, realça.

Porém, a jovem ainda não começou a tratar dos documentos necessários porque falta-lhe o passaporte. Uma vez que fez o 12º numa escola privada tem em atraso um mês de propina. Com esta dívida não poderá tirar o certificado, documento imprescindível para concorrer a uma vaga de estudo. Mas, garante que vai tratar de tudo ainda a tempo.

“Eu quero muito ir para Portugal, sei que há bons empregos e que o salário é melhor do que aqui. Por isso, sendo sincera, penso trabalhar mais do que estudar. Não cogito a possibilidade de estudar e trabalhar ao mesmo tempo porque não dá, é muito cansativo, eu quero trabalhar para dar um futuro melhor ao meu filho”, revela.

Joseane Tavares não esconde o medo de viver numa realidade desconhecida e que já ouviu dizer ser muito diferente, apesar de ter familiares naquele país.

“O meu medo é igual ao de todos os que pensam estudar fora de Cabo Verde. Passar por dificuldades, deixar tudo para trás, ter de se acostumar a novas regras, novos hábitos. Mas, como dizem os mais velhos, “si ka badu ka ta birado”, afirma a jovem, precisando que no caso de não conseguir uma vaga, vai escolher alguma das universidades no país para estudar.

Governo pensa num novo modelo de financiamento de formação superior

Ao Expresso das Ilhas, a secretária do Estado do Ensino Superior avança que os dados apontam para uma aproximação numérica dos estudantes inscritos no ensino superior no país e os que partiram para o estrangeiro, no presente ano lectivo.

Questionada sobre como combater o fenómeno de envio de estudantes, sobretudo através das câmaras municipais e das associações, que muitas vezes abandonam os estudos, Eurídice Monteiro explica que existe um quadro jurídico de cooperação descentralizada que ampara a posição das mesmas nesta matéria.

Segundo Eurídice Monteiro, o governo está a analisar as situações e as estatísticas de desempenho dos jovens enquadrados nas parcerias descentralizadas e ver a possibilidade de avançar e propor medidas de política tendo em consideração o quadro jurídico vigente, quer do lado da autonomia dos municípios, quer do lado da autonomia das instituições de ensino superior nacionais ou estrangeiras.

“Em todo o caso, importa dizer que esta questão deve merecer uma atenção especial, porque temos o conhecimento de que muitos dos estudantes que enveredam por este caminho enfrentam constrangimentos de várias ordens tanto na obtenção e renovação do visto de estudo, como na subsistência no país de acolhimento, o que acaba por contribuir para o desvio de percurso”, assegura.

Para a governante, sendo jovens em idade reprodutiva, a sua saída em massa acaba por acentuar progressivamente o dividendo demográfico que o país está a sentir.

“Temos que avançar com o novo modelo de financiamento da formação superior, de modo a evitar esse tipo de situação em que os jovens saem sem garantias de forma de subsistência e ficam por lá desamparados”, considera.

Conforme enfatiza, cada estudante é livre para decidir em que país e universidade deseja estudar. A única restrição existente, no entanto, é a não atribuição de bolsas de estudo para formação fora do país em cursos ministrados nas universidades cabo-verdianas.

Aliás, frisa, que o executivo teria “imensa satisfação” em ver jovens cabo-verdianos inscritos nas mais prestigiadas universidades do mundo.

Neste momento, o governo está a criar um ecossistema do ensino superior, que permitirá, de entre outras coisas, a monotorização de um Sistema de Estatísticas de Desempenho do Ensino Superior (SEDES).

“Isto é muito importante para o país e possibilitará, por exemplo, uma melhor definição do Quadro Estratégico das Ofertas Formativas de Ensino Superior (QEOFES), adequado com as necessidades de desenvolvimento nacional e da internacionalização”, argumenta.

Economista defende Orçamento de Estado mais humano

Segundo o economista António Baptista, é preciso diferenciar o grupo de jovens que emigram em busca de oportunidades de capacitação e o grupo de jovens que tiveram oportunidade, junto às câmaras municipais de se inscrever numa universidade e conseguiram o visto.

Relativamente ao primeiro grupo, diz que a maioria estuda, ainda que num “ritmo mais lento” devido a dificuldades financeiras que os levam a trabalhar.

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“O problema é entre os estudantes que vão com vagas das Câmaras Municipais, muitos querem oportunidade para emigrar e porque têm dificuldades em obter os vistos, através dessa estratégia encontram uma alternativa de visto para Europa”, analisa.

Em qualquer dos casos, António Baptista afirma que a emigração desses jovens constitui um “problema sério” para Cabo Verde, tendo em conta a perda do capital humano, factor importante para o desenvolvimento de qualquer país.

“Devido à falta de oportunidade de empregos, falta de oportunidades de ter rendimentos, muitos jovens têm emigrado. Nós temos registado, mesmo internamente, um êxodo rural muito forte nas ilhas periféricas como por exemplo São Nicolau, Brava e Maio. Essas pessoas que costumam sair são aquelas com espírito empreendedor, que querem melhorar de vida, têm ambição”, exemplifica.

“É o que se tem verificado a nível nacional, uma grande demanda de jovens recém-formados que vão fazer mestrados ou algum tipo de pós-graduação e ficam por lá mesmo. É uma perda enorme em termos de capital humano”, afirma, alegando que isto dificulta a implementação dos planos que se pretende para o desenvolvimento.

Além da perda do capital humano, a saída dos jovens desencadeia o problema das remessas. Isto porque, segundo o economista, ao contrário do que acontecia com a primeira geração dos emigrantes, estes não vão viver uma vida de humildade.

“Geralmente querem visitar a Europa, viver em melhores condições de vida e isso reduz as remessas. Por serem jovens, não têm vínculos estáveis com o país, não têm filhos, não têm familiares dependentes e o dinheiro que ganham é simplesmente para o seu bem-estar”, aponta.

António Baptista indica que uma vez que o país não consegue oferecer oportunidades para inclusão produtiva, no sentido de ter oportunidade para emprego e rendimento, os jovens preferem ficar no exterior.

Neste sentido, lamenta a falta de concursos para acesso a cargos públicos e um mercado que traz muita desconfiança.

“Independentemente se é verdade ou não, na percepção dos jovens em Cabo Verde é preciso padrinhos, indicações e determinada cor partidária. Por isso, costumam sair. A melhor forma de manter esses jovens no país é criar um ambiente transparente, garantir que as pessoas possam candidatar-se a cargos sem nenhum tipo de discriminação”, especifica.

O economista acredita numa discriminação positiva em relação às ilhas periféricas como forma de garantir que as pessoas ali fiquem, criando atractivos, descentralizando funcionários públicos.

Uma outra ideia, refere, é fazer com que o Orçamento do Estado seja mais humano, que se invista nas pessoas, gerar empregos e gerar oportunidades de rendimento. Do contrário, cada vez mais os jovens vão procurar outras oportunidades.

“Sou professor na Uni-CV e a maioria dos jovens que ali fizeram licenciatura estão a fazer mestrado no exterior e não sei se vão voltar. Primeiro, devido a melhores condições e depois devido a dificuldades em conseguir empregos no país. E Portugal tem oferecido oportunidades de empregos. Mesmo em empregos que não sejam do nível académico que possuem, são atractivos em termos financeiros, com salários que um quadro superior pode não conseguir em Cabo Verde”, exemplifica.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1072 de 15 de Junho de 2022. 

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Autoria:Sheilla Ribeiro,19 jun 2022 8:01

Editado porAndre Amaral  em  30 jun 2022 9:20

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