Sem pausa para respirar, já chegou o Carnaval

PorNuno Andrade Ferreira*,11 fev 2024 7:38

No Mindelo, desfiles do concurso de terça-feira começam meia-hora mais tarde, às 19h00. Sambódromo abre logo na segunda-feira, com a Escola de Samba Tropical.

Está aí o Carnaval e, mais uma vez, São Vicente prepara-se para uma festa que sabe organizar como ninguém. Entre segunda-feira, dia 12, e terça-feira, 13, cinco grupos oficiais subirão a Rua de Lisboa, abrindo o tradicional percurso pelo centro histórico da cidade do Mindelo e perante milhares de espectadores. Na ilha que vive o Carnaval de um jeito único, estes são dias de brilho, batucada e samba no pé, preparados até ao último detalhe.

Estrela do Mar

Às 19 horas de terça-feira, o grupo Estrela do Mar dará o mote para a noite grande. A poucos dias do cortejo, Júlio do Rosário, líder associativo, acredita que tudo decorre com normalidade, mesmo “a fazer das tripas coração”, perante as dificuldades.

Fundado em 1974, o Estrela do Mar celebra este ano meio século de história. Depois de um interregno de alguns anos, regressou em 2019. Agora, com nova direcção, quer apresentar-se “diferente” e mais organizado. Conta para isso com o apoio de muitos anónimos, gente que se identifica com a história do grupo e quer dar uma ajuda.

O samba-enredo de 2024 foi edificado em torno do lema “EdM, je t’aime”, do carnavalesco e criativo Emanuel Ribeiro. A música é um trabalho conjunto de Jotacê, Emanuel Ribeiro e Anísio.

“O nosso enredo vai trazer amor, um amor eterno entre Estrela do Mar e a cidade do Mindelo. São 50 anos de existência de Estrela do Mar e é uma história de diversidade. Estamos a trazer os amores lendários, os amores históricos, a demonstrar esse amor eterno entre Estrela do Mar e São Vicente, nos andores, nos foliões, nas figuras de destaque. Tudo cenas de amor”, promete o presidente Júlio do Rosário.

Flores do Mindelo

Meia hora depois do primeiro desfile, às 19:30, sairá para o asfalto o grupo Flores do Mindelo. Ana Soares, presidente da agremiação, garante que os preparativos “estão a correr bem”.

Os materiais estão mais caros, mas estamos a trabalhar para concretizar o nosso projecto”, explica a responsável.

O enredo deste ano, do carnavalesco Nelson Soares, vai buscar inspiração aos jogos de baralho, com a pergunta “os jogos são só do baralho?”

“Não só do baralho, viremos com todos os jogos, de futebol, dominó, temos um pouco de tudo. No desfile, as pessoas vão compreender o que vamos colocar no sambódromo. O que temos na sinopse vai estar no desfile”, antecipa.

Flores do Mindelo aproveita o Carnaval deste ano para uma homenagem ao falecido Djim Bombeiro, um dos seus grandes dinamizadores. Celly e dona Lilly, figuras do Vindos do Oriente também serão lembradas.

A falta de um estaleiro é um dos problemas identificados por Ana Soares. “Espero que em 2025 cada grupo já tenha o seu estaleiro para guardar as suas peças”, ambiciona.

A Música do Flores do Mindelo é da autoria de Gai Dias.

Monte Sossego

Actual campeão, apostado em revalidar o título, o Grupo Carnavalesco de Monte Sossego entrará na Rua de Lisboa quando forem 20:00. O enredo de João e Valdir Brito constrói-se em torno da “Genética.cv”, com o ritmo marcado pela música de outro nome forte do Carnaval mindelense, Constantino Cardoso.

António Duarte, presidente do colectivo, fala de uma “tarefa dura”, considerando que o calendário ditou que a festa acontecesse logo na primeira metade de Fevereiro.

“É o que temos e não há que chorar. É apertar o cinto e enfrentar aquilo que é a realidade dos factos. Enfrentar a data do dia 13 de Fevereiro como um grande desafio, um desafio saudável”, conforma-se ‘Patcha’.

O vencedor de 2023 diz que Montsu está a preparar um “grande desfile”.

“[Queremos] emocionar as pessoas com o enredo que temos preparado, que preparámos e estudámos. Preparámos um desfile milimétrico, para as pessoas entenderem exactamente aquilo que é a Genética.cv”, desvenda.

Com doze títulos conquistados, em 23 participações, Monte Sossego entrará na Rua de Lisboa com uma ideia em mente: ganhar.

“Temos um orgulho enorme em carregar toda a população, todos os moradores do bairro, mas também todos aqueles de São Vicente que gostam do trabalho desta agremiação”, refere António Duarte.

Cruzeiros do Norte

Caberá ao grupo de Cruz, Cruzeiros do Norte, encerrar os desfiles oficiais, a partir das 20:30 de terça-feira, 13. O presidente, Jailson Juff, confessa estar a viver dias agitados e de algum ‘aperto’.

“Estamos muito apertados em termos de tempo e financiamento, que está a chegar muito devagar, numa altura em que os grupos já deveriam ter recebido mais de metade, se não a totalidade, do financiamento das autoridades para o Carnaval, para que pudéssemos estar com maior desenvolvimento no terreno”, explica [N.R.: entrevista gravada no final de Janeiro].

Por falar em números, a matemática serve de inspiração para o enredo do Cruzeiros do Norte em 2024.

“É mais um projecto do nosso carnavalesco, Fernando Morais. ‘Dona matemática governa o mundo e rebola no Carnaval’ é um tema que acaba por ilustrar a vida do Cruzeiros, das contas que temos de fazer”, relaciona.

Apesar das dificuldades, os olhos de Jailson Juff e de todos os foliões estão no lugar mais alto do pódio.

“A primeira vitoria é colocar o grupo a desfilar no dia 13. É a vitoria maior. Cruzeiros sempre desfila com foco no primeiro lugar e os nossos esforços são nesse sentido. Vencer o Carnaval é sempre bom, somos competitivos e pensamos todos nisso, mas há coisas que acabam por nos ultrapassar. Estamos a lutar para dar um grande espectáculo”, promete.

A música do grupo Cruzeiros do Norte é de Edson Oliveira.

Samba Tropical

Na véspera do concurso, segunda-feira, e cumprindo a tradição, a Escola de Samba Tropical abrirá o sambódromo mindelense. A saída está marcada para as 21 horas. David Leite, presidente do grupo, não tem memória de um Carnaval tão atípico.

“Eu ando a dizer e a sentir que não tenho memória de um Carnaval tão atípico como este que estamos a viver, por vários motivos. É um Carnaval que surge praticamente um mês depois do fim-de-ano. Não tenho memória de ter feito um Carnaval em somente 30 dias e isso tem levado a muitos constrangimentos, a um corre-corre”, confessa.

Apesar da corrida contra o tempo, com o que isso significa na mobilização de patrocínios e em toda a logística, a Escola de Samba Tropical promete “um excelente espectáculo”.

“Quando decidimos vir para o asfalto, temos de honrar o nosso nome. Temos de trazer o melhor que sabemos, o mais bonito que sabemos fazer, temos de trazer a escola, a escola mais bonita de sempre, muito brilho, muita irreverência, no bom sentido. Vamos trazer um espectáculo maravilhoso, com inovações nos carros alegóricos, principalmente”, revela.

Recuperando uma tradição dos primeiros desfiles, a Escola começará o seu desfile 2024 na Praça Nova.

Karine Rocha é a carnavalesca responsável pelo enredo “a humanidade e o tempo”. A música é assinada por Jotacê e Anísio Rodrigues.

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Marco Bento, presidente da LIGOC SV

“O modelo de subvenção ao Carnaval está ultrapassado”

Para o presidente da Liga dos Grupos Oficiais do Carnaval de São Vicente (LIGOC SV), Marco Bento, este é o tempo de se criarem condições que permitam ao Carnaval abandonar a dependência de dinheiros públicos.

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Como é que estão a decorrer os preparativos para o Carnaval?

A LIGOC começou a trabalhar desde o ano passado. Já em Dezembro, tínhamos disponibilizado, com a Câmara Municipal, a primeira tranche, que é onde os grupos começam realmente a trabalhar. Isso poderia ter sido feito muito antes, mas o modelo que nós utilizamos é o modelo de subvenção e é muito difícil termos uma previsão de quando o dinheiro vai estar disponível. Mas por sorte tivemos, como nos anos anteriores, a disponibilização da primeira tranche no mês de Dezembro.

Os presidentes dos grupos apontam para a necessidade de se repensar o financiamento do Carnaval e a atribuição de verbas, por exemplo, para que aconteça com uma antecedência maior.

O modelo de subvenção e de dinheiro público já está ultrapassado, temos de accionar alguma arquitectura financeira, mas fazendo-o, irá depender somente de nós. Quando digo nós, digo grupos e LIGOC. Dificilmente vamos encontrar um financiamento que venha de um banco, porque os bancos ainda não acreditam, os bancos trabalham à base das garantias e os grupos, em princípio, não têm esse tipo de garantia. Por isso, este ano, já estamos a pensar num primeiro mecanismo, mesmo tendo em conta que o sambódromo de actualidade não permite que seja algo de grande valor, que é a introdução de um camarote. O camarote vai ajudar [N.R.: preços entre os 11 e os 22 mil escudos por pessoa], porque estamos a falar de um valor que pode ser substancial, para cada grupo conseguir dar o arranque durante o ano.

Tem-se falado na construção da ‘Cidade do Samba’. Qual é a meta para a conclusão deste projecto?

A ‘Cidade do Samba é uma ideia da Câmara Municipal, que é a maior parceira e, digo, o maior financiador do Carnaval de São Vicente. Agradeço mesmo à Câmara Municipal pelo empenho que tem tido para a realização do Carnaval todos os anos. A ideia é atribuir a cada grupo um estaleiro, numa zona onde consigam trabalhar com maior dignidade. O espaço temporal é 2024, para ver se em 2025 cada grupo já terá o seu espaço. O local é um terreno que fica ao redor da ETAR. Cada grupo terá mil e tal metros quadrados.

E quanto aos sectores de actividade que têm ganhos directos ou indirectos através do Carnaval, já há um maior envolvimento?

Este ano, pela primeira vez, temos dois hotéis a patrocinar os grupos. É um bom começo.

O estudo realizado pelo ISCEE aponta que o Carnaval tem trazido algum valor à economia de São Vicente. Há empresas que, nas suas políticas, não patrocinam nada que tenha a ver com eventos, mas essas empresas, na minha opinião, têm de mudar essa postura. São Vicente está predestinado a ser um lugar de grandes eventos.

Este ano, os desfiles são a partir das 19 horas…

Os grupos apontam que a saída, a partir das 19 horas, coloca todos em pé da igualdade, a nível daquilo que é o espectáculo de luzes e do desfile à noite. No ano passado, às 18:30, ainda não estava escuro e, então, fizemos um pequeno ajuste. 

*com Lourdes Fortes e Fretson Rocha

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1158 de 7 de Fevereiro de 2024.


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Autoria:Nuno Andrade Ferreira*,11 fev 2024 7:38

Editado porSara Almeida  em  19 mai 2024 23:29

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