Manuel d’Novas é nome de filme

PorNuno Andrade Ferreira,21 dez 2019 8:15

Neu Lopes
Neu Lopes

Filho de Manuel d’Novas realiza documentário sobre a vida de um dos nomes maiores da música cabo-verdiana.

Na semana em que a Morna passou a ser oficialmente Património Imaterial da Humanidade, declarada pe­la UNESCO, o público mindelense viu em ante-estreia o filme Manuel D’Novas – Coração de Poeta, do realizador cabo-verdiano Neu Lopes. Em dois dias seguidos, a 12 e 13 de Dezembro, o Auditório Onésimo Silveira, na Universidade do Mindelo, encheu-se para aplaudir de pé o documentário que recupera a obra de Manuel d’Novas, poeta e compositor, autor de alguns dos mais emblemáticos temas da música nacional. O filme é um trabalho de fôlego, desenvolvido ao longo de vários anos, resultado de uma pesquisa exaustiva, num exercício de reavivar memórias, um trabalho de grande carga emocional e de dedicação, levado a cabo por Neu Lopes, filho do compositor. Perante um orçamento reduzido, Neu foi realizador, produtor, guionista, sonoplasta, editor. Com Edson Silva, passou do papel à tela um sonho de há muito. O filme é a expressão do amor de um filho ao seu pai, mas é muito mais do que isso. Com um argumento em torno da importância do poeta para a música cabo-verdiana e identidade crioula, a obra consolida-se a partir de dezenas de depoimentos. Manuel D’Novas – Coração de Poeta vai além do filme biográfico, é mais que um tributo. O documentário é todo um país na primeira pessoa. 

Expresso das Ilhas: Neu, foram seis anos de trabalho... 

Neu Lopes: Formei-me em Ciências de Comunicação, vertente de multimédia, pela Universidade Lusófona de Cabo Verde e já no final da licenciatura tinha a intenção de me tornar documentarista. Tinha experiência de teatro, gosto pela música. A casa onde fui criado respirava cultura, arte. Este é o trabalho da minha vida. Passei três, quatro anos em pesquisas, a fazer recuperação de dados, a falar com amigos, familiares, com o pessoal que trabalhou e conheceu o Manel. Deu imenso trabalho. Mas é um trabalho que dá um duplo prazer. Por admirar, por ser filho do Manuel e porque sei que é um trabalho que vai ficar para a posteridade, algo que vai servir para a nossa geração e as gerações vindouras, para conhecerem, não só a obra do Manuel, mas o que está atrás e o que vem para a frente. A importância das nossas origens, dos nossos ritmos, da morna, sobretudo.

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Este é um trabalho que tem uma carga emocional muito particular. 

Tem a carga emocional dos que participaram nele, dos que me ajudaram a fazê-lo e a minha carga emocional. Há pessoas que me perguntam por que motivo não apareço no documentário. Eu apareço no documentário, não enquanto alguém que dá o seu depoimento, mas o filme é a minha narrativa. Conforme fui filmando, investigando, apareceram coisas novas. Depois de três anos, em que pensava que já poderia fazer a estreia do filme, notei que tinha que continuar. Até que se chega a um ponto em que temos que dizer “ok, já chega”. 

Fala-me sobre o teu processo criativo.

Não quis, em nenhum momento, fazer um trabalho sobre a vida do Manuel. Quis fazer um trabalho sobre a obra dele, sobre a grandeza, a importância de tudo o que ele investigou e investiu, de sentimento. O que ele viveu, o que estava a viver e o que previu que poderia acontecer no mundo… 

Esse lado de génio, de criador único. Entre os teus entrevistados há uma unanimidade em torno dessa ideia de um talento incrível…

Exactamente. Como viste, o filme não tem só esses depoimentos, tem também os próprios depoimentos do Manuel, as declarações que ele fez. As músicas dele influenciavam a forma como as pessoas o encaravam. Os músicos, os poetas, os analistas entrevistados, todos eles revelam essa unanimidade e unidade. Tudo o que o Manuel fez teve como ponto comum contribuir para um mundo melhor. Ele sempre viu Cabo Verde com um patriotismo que Onésimo Silveira diz ser “de gema”. Não aquele patriota somente da luta, mas o patriota da família, dos valores sociais. Aquele que vê Cabo Verde como um país importante, que quer ver Cabo Verde no mapa.

É desse Cabo Verde que falam as suas letras. Esse Cabo Verde que ele desejava… 

Muitos dizem que ele retratou Mindelo. Retratou Mindelo, sim, mas também falou de Cabo Verde, no geral. “Nós Raça”, por exemplo, mostra de onde é que viemos e quem somos. É a opinião dele, mas é praticamente o que realmente somos. “Biografia dum Criol”, outro exemplo. Cantou a emigração, o amor à terra, o que somos, o que vivemos. Ele fez um apelo à sociedade e ao mesmo tempo um agradecimento, por ser ouvido, por lhe darem mais vontade de fazer, de criar, para que as pessoas continuem a trabalhar, para que o espírito dele esteja em paz, sabendo que o trabalho dele foi reconhecido e que terá continuidade, através de novas gerações, de novos músicos. 

"Ele foi mais que meu pai. Foi um grande amigo"

No teu documentário, que peso teve a relação filho/pai? 

Nem sei dizer. A nossa educação era dura, mas ao mesmo tempo aberta. Era uma pessoa que compreendia, que sabia quando levar-nos a mão à cabeça, sabia quando é que tinha que ‘dar um soco na mesa’. Soube educar os filhos e mostrar-lhes como é que deviam encarar o mundo, a vida, respeitar as pessoas e tudo o que está à nossa volta. Ao mesmo tempo, mostrou-nos, através da sua música, do comportamento das amizades, das opiniões, como é que devemos ser como pessoas, como dar valor. Eu digo Manuel d’Novas e não “meu pai”. Ele foi mais que meu pai. Foi um grande amigo. Depois do falecimento da minha mãe, aproximámo-nos muito, a nível dessa amizade, falávamos de tudo, mas de quase nada sobre as nossas vidas. Falávamos da música, da sociedade, até de política. Falávamos sobretudo do mundo, de Cabo Verde e ele dava-me aqueles conselhos, não como de pai para filho, mas de amigo. Desabafava as coisas dele, sobretudo da área artística, do que via. O humanismo que ele tinha influenciou-me muito. Portanto, não quis mostrar somente o pai. Aliás, mostro muito pouco do pai. A vida do Manel são 10 minutos, mais ou menos, o resto vai é a obra dele. Agora, é claro que a obra dele reflecte muito da vida dele. 

Tivemos a ante-estreia. Ainda faltam alguns detalhes, nomeadamente a questão da legendagem do crioulo para português, para que o filme se possa internacionalizar. E agora? O que queres fazer com o documentário?

Várias coisas. O mais importante é que seja um arquivo histórico, seja algo que vai para um arquivo de Cabo Verde, que fique para a posteridade e sirva de exemplo para novos documentários. Depois, há um circuito de festivais. Quero levar o documentário ao Doc Lisboa, quero levá-lo para onde for possível. Estou a pensar no Brasil, África, Europa, na diáspora, fazer a exibição junto das comunidades. Cá dentro, a minha ideia é fazer uma projecção na cidade da Praia, tenho um convite do Presidente da Assembleia Nacional. Quero fazer em Santo Antão, o meu pai é de Penha de França. O Sal também tem interesse, por causa da ASA, que é um dos patrocinadores. São Nicolau mostrou interesse e também a Boa Vista. O documentário está pronto mas tem de continuar. Pode não continuar por mim, se vir que está a precisar de mais uma mão, pode ser que me associe a algum produtor ou distribuidor.

  • A ousadia de fazer cinema em Cabo Verde
    Manuel D’Novas – Coração de Poeta é o primeiro documentário do realizador Neu Lopes, que já tinha percorrido outros caminhos no cinema, com curtas e longas-metragens de ficção.
    Perante a escassez de patrocínios, Neu aventurou-se praticamente sozinho na empreitada de produzir e realizar um filme com duas horas de duração. Coração de Poeta é resultado da criatividade crioula, daquele jeitinho de descobrir soluções para problemas, em paralelo com a disponibilidade de algumas empresas e a generosidade de cidadãos anónimos.
    Do orçamento inicial, fixado nos dois mil contos, foi possível reunir não mais de duzentos.
    “Este filme foi feito, a nível técnico, praticamente, graças a duas pessoas: eu e o Edson Silva. Temos feito alguns trabalhos juntos e tem funcionado bem. Não há como pagar a pessoas para fazer o som, para fazer a recolha. Eu fiz o guião, os contactos”, explica.
    “Vai ser Neu Lopes como montador do filme, realizador, produtor, tudo isso. Caso contrário, não dava. Mas é uma coisa que se passa praticamente com todos os filmes em Cabo verde”, acrescenta.
    O realizador tem em carteira vários projectos. De regresso à Osga Filmes, poderá rodar novo filme em 2020. A médio prazo, espera concretizar um novo documentário, com “outro músico importante”.
    NAF
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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,21 dez 2019 8:15

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  10 set 2020 23:21

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