Dança : “A COVID-19 veio mudar tudo nesta área”, Mano Preto

PorDulcina Mendes,13 set 2020 10:50

A pandemia da COVID-19 paralisou todas as actividades que estavam agendadas para este ano e a dança não ficou de fora e muitos bailarinos viram os seus planos interrompidos.

Mesmo assim, há bailarinos e coreógrafos que tentaram fazer alguma coisa para não ficarem parados e ter algum rendimento através do programa “Empalcos100Artístas”, uma iniciativa do Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas para apoiar as pessoas que vivem exclusivamente dessa arte.

O Expresso das Ilhas conversou com o bailarino e coreógrafo do grupo de dança Raiz di Polon, Mano Preto, experiente nessa área que tem participado em vários trabalhos nomeadamente nas comemorações dos 45 anos da independência nacional num show com extractos da peça ‘Manuel d’Novas’.

“A minha nova peça a solo `Nha Fado, meu destino`, é uma singela homenagem à cantora Cesária Évora e Amália Rodrigues, com estreia prevista para Julho de 2021, em Lisboa”. A peça, conforme conta, tem vários trabalhos na área de confecção de miniaturas para o cenário e peças de artesanato.

A par disto, Mano Preto está a preparar-se para representar Cabo Verde, a convite da Câmara Municipal da Praia, na recriação da viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães, uma grande encenação a acontecer em Espanha, na cidade de Sevilha, com participação de representantes de todos os países por onde esse navegador passou. O evento acontece de 25 de Setembro a 4 de Outubro.

Mudança

Mano Preto considera que a Covid-19 veio mudar tudo nessa área, começando pela questão financeira que reduziu drasticamente as apresentações ao público. “Trazendo despesas enormes e ausência de entrada de verbas para cachet de todos os envolvidos no processo: performers, técnicos, salas, promotores e os demais staff. E como houve aumento de despesas em saúde pública, boa parte da verba que era destinada à cultura foi canalizada para isso”.

O coreografo explica que é compreensível que vários artistas tenham perdido o mote criativo devido à perda de sua renda habitual estando agora a lutar para, pelo menos, terem comida na mesa.

“E está-se a verificar uma nova abordagem na forma de fazer a dança, menos contacto, ausência do público. A nível mundial há uma grande perda de esperança no seio dos artistas que já estão a desistir desta profissão e estão à procura de novos trabalhos para poderem assegurar uma vida com mais segurança a nível financeiro”, acrescenta.

Mano Preto espera que nos próximo tempos, com a chegada da vacina, a dança volte com mais força pois há muita saudade dessa arte. “Se se continuar nestas contingências seguidas, a dança estará apenas nas redes sociais e as performances serão, na sua maioria, via web. E mais, a dança e a cultura, no geral, serão os últimos a se recuperarem. Depois da crise haverá muita coisa para se colocar de pé e a dança terá que esperar”.

Lições

Para o bailarino, com esta pandemia nada está garantido. E se, por um lado, a cultura é vista como uma das primeiras áreas a ser afectada porque é mais importante apoiar em grande escala a saúde e a segurança, por outro, os artistas devem ter sempre o pagamento dos seus impostos e a segurança social em dia, desabafa. “Mas sei que é muito difícil para um artista que, por exemplo, toca uma noite inteira num dado local, receber um cachet de cinco mil escudos e ter de pagar a segurança social”.

O coreógrafo defende que deve existir organizações de apoio ou patrocínio para que os artistas que vivem exclusivamente da sua arte possam estar inscritos e estar em dia com as suas responsabilidades com as finanças.

“Em Cabo Verde isto poderá ser viável uma vez que que não são muitos os artista que vivem exclusivamente da sua arte. Um exemplo é a Sociedade Cabo-verdiana de Música que criou um fundo de emergência para auxiliar os artistas em momentos difíceis. Haverá mais pandemias e outros flagelos e temos de tirar lições positivas que nos possam proteger em caso de futuras crises”, indica. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 980 de 9 de Setembro de 2020. 

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Autoria:Dulcina Mendes,13 set 2020 10:50

Editado porSheilla Ribeiro  em  2 dez 2020 23:21

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