Porto Memória: A Escrita Ficcional Cabo-verdiana Contemporânea

PorBrito-Semedo,28 nov 2020 8:35

Existe uma relação directa entre as elites intelectuais e a sua produção literária e o sistema dos regimes políticos vigentes no Cabo Verde independente – o Regime Político instaurado com a Independência e o Novo Regime Político instituído nos anos 90 e as Liberdades Individuais.

Regime Político Instalado com a Independência versus Elite Intelectual

A forma de luta política desencadeada no arquipélago a seguir ao 25 de Abril de 1974, sobretudo na ilha de São Vicente, e o processo de independência nacional com o projecto da unidade Guiné-Cabo Verde, com a instalação de um regime de partido único (PAIGC), de orientação marxista, hostilizou a elite intelectual claridosa, que se desmobilizou e ou dispersou-se. O romance Entre duas Bandeiras, de Teixeira de Sousa, publicado em 1994, retrata esse período conturbado vivido na época.

Decorridos dez anos, mais precisamente, em 1986, o regime procurou reconciliar-se com essa elite intelectual claridosa promovendo um grande Simpósio Internacional sobre Cultura e Literatura Cabo-verdianas para assinalar o quinquagésimo aniversário da publicação da revista Claridade. Na ocasião, o Secretário-Geral do PAICV (partido surgido em 1981, na sequência do golpe de estado na Guiné-Bissau que pôs fim ao projecto de unidade entre os dois países) e Presidente da República reconheceu “o lugar e o papel assumidos pelos claridosos no percurso histórico de afirmação da identidade nacional”.

O Instituto Caboverdiano do Livro (1976-1998) reedita por essa ocasião os nove números da Claridade, em edição fac-similada, em cujo depoimento Baltasar Lopes concluía que “o movimento claridoso continua[va], com a mesma impregnação cívica, servido por outras pessoas” (Baltasar Lopes da Silva, 1986).

Em 1983, surgiria, entretanto, Ponto & Vírgula: revista de intercâmbio cultural (São Vicente, 1983-1987), uma iniciativa independente que põe em convívio a nova geração e a geração claridosa congregando-se à volta de um projecto literário e cultural moderno e aberto.

Em finais de oitenta editam-se obras que são marcantes, Odju d’Agu (1986), o primeiro romance em língua crioula, de Manuel Veiga, Cais de Pedra (1989), de Nuno de Miranda, antigo editor da Claridade e co-fundador da Certeza – Fôlha da Academia (São Vicente, 1942-1943), O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo (1989), de Germano Almeida, um dos directores do Ponto & Vírgula. De registar que logo a seguir é editado O Eleito do Sol (1990), estreia em ficção do poeta Arménio Vieira, um enredo autobiográfico e um momento antecipado em muitos séculos no qual se retrata a chegada da democracia a Cabo Verde.

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Com uma escrita e uma temática que se demarcam da geração predecessora dos claridosos por não ter como base as questões da emigração, pobreza e secas, Germano Almeida, com O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo, e Arménio Vieira, com O Eleito do Sol, constituem um marco da pós-modernidade da ficção cabo-verdiana.

Novo Regime Político instituído nos Anos 90 e as Liberdades Individuais

Nos anos noventa introduziu-se no País uma profunda mudança a nível do regime político, com uma democracia multipartidária e um novo sistema económico e social.

Em O Meu Poeta, considerado o primeiro romance verdadeiramente nacional, editado em 1990, com alguns fragmentos publicados na revista Ponto & Vírgula, Germano Almeida, através da trajetória do poeta, coloca em cena o ambiente socio-político e moral das elites cabo-verdianas, responsáveis pela derrocada da Primeira República.

No livro O Dia das Calças Roladas, de 1992, aquele autor reporta ao dia 31 de Agosto de 1981, à contestação popular acontecida em algumas das zonas do concelho da Ribeira Grande em Santo Antão face à discussão do projecto da lei de bases da Reforma Agrária que esteve na origem de atribulações, distúrbios, episódios picarescos e algumas prisões.

Já em A Morte do Meu Poeta, publicado em 1998, é a paródia correspondente ao início do período de multipartidarismo, um retrato hilariante e delirante da desorganização, amadorismo, oportunismo e incompetência, dos primeiros tempos de vida democrática em Cabo Verde.

Voltando às publicações, surgem novas revelações, sobretudo no género do conto, com destaque para as mulheres, Margarida Mascarenhas, com Levedando a ilha (1988), Ivone Ramos, com Vidas Vividas (1990), Leopoldina Barreto, artista plástica, com Monte Gordo (1994), Fátima Bettencourt, com Semear em Pó (1994) e Dina Salústio, com Mornas eram as Noites (1994). Camila Mont’rond, pseudónimo de Ondina Ferreira, publica Amor na Ilha e Outras Paragens em 2001.

No contexto das ilhas, as mulheres deram-se a conhecer como escritoras muito tardiamente, nunca antes dos cinquenta anos de idade – depois da vida familiar estabilizada, os filhos criados e a vida profissional organizada tiraram tempo para a escrita, que é como quem diz, um tempo para si próprias.

Essas mulheres começaram por se revelar nos contos cujas personagens são essencialmente femininas e constituem retratos da vida da mulher cabo-verdiana no seu quotidiano enquanto mulheres-sós, nas ilhas e na terra-longe.

Para que se tenha uma ideia mais completa da produção ficcional cabo-verdiana, junta-se o quadro síntese ”Escrita Ficcional no Séc. XXI”. 

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Entre as letras, um porto de abrigo

“O mar vagueia onduloso sob os meus pensamentos

A memória bravia lança o leme:

Recordar é preciso.

O movimento vaivém nas águas-lembranças

dos meus marejados olhos transborda-me a vida,

salgando-me o rosto e o gosto”

– Conceição Evaristo, escritora e poeta brasileira,

in Cadernos Negros, vol. 15

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 991 de 25 de Novembro de 2020.

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Autoria:Brito-Semedo,28 nov 2020 8:35

Editado porAndre Amaral  em  2 set 2021 23:21

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