Stand-up Comedy ganha espaço em Cabo Verde

PorDulcina Mendes,29 ago 2021 18:23

Cabo Verde tenta pouco a pouco cultivar este espectáculo de humor, que surgiu, inicialmente, da insistência de algumas pessoas, com o jeito para a coisa, nesta arte de fazer as pessoas darem gargalhadas.

Com muita insistência, hoje temos stand-up comedy na Praia e em São Vicente, onde tem surgido vários humoristas e shows. Na Praia há cada vez mais humoristas e os shows têm-se multiplicado. Para saber como é apareceu e evolui este tipo de evento no país, o Expresso das Ilhas esteve em conversa com os humoristas Enrique Alhinho e Ricardo Fidalgo.

Os dois humoristas têm lutado para que o stand-up comedy chegue a outro patamar em Cabo Verde. A luta começou há alguns anos, cada um na sua ilha: Enrique Alhinho na cidade da Praia e Ricardo Fidalgo em São Vicente.

O humorista Enrique Alhinho garante que foi ele quem fundou o stand up-comedy em Cabo Verde, há oito anos. “Stand up comedy’’ fará oito anos em Novembro próximo (2013). Começou comigo. Quando estava no curso, tinha dito que fazia stand-up comedy. E uns anos depois de regressar a Cabo Verde comecei a fazer stand-up comedy”. Aqui.

Foi praticamente no mesmo ano que Ricardo Fidalgo começou também, em São Vicente, depois de frequentar um curso nessa área, no Centro Cultural Português. Este comediante começou a dar os seus primeiros passos com o seu actual colega de palco, Cristian Andrade.

Depois, esteve algum tempo a fazer stand-up comedy a solo, porque Cristian Andrade teve que ir prestar serviços militares. “De vez em quando participava em algumas coisas num bar, restaurante, festas e casamentos, mas não tinha um show mesmo completo”, conta.

O primeiro show de Enrique Alhinho, recorda o humorista, foi no espaço Kebra Kabana, na cidade da Praia. As pessoas não estavam acostumadas com este tipo de evento e a experiência não foi boa, mas mesmo assim não desistiu.

“O espaço estava cheio e 90 % das pessoas foram lá para comer e não para ver show de humor, e stand up comedy, se o público não está com atenção, não tem “aquela coisa”. Há alguns requisitos que fazem com que o stand-up comedy funcione e nenhum deles estava reunido naquele dia. Foi uma experiência traumática”, conta.

Também para Ricardo Fidalgo e Cristian Andrade, o primeiro show que realizaram foi complicado, porque as pessoas não conheciam os seus trabalhos e os humoristas tiveram de tentar convencê-las a irem ao espectáculo.

“Agora é muito mais fácil, porque há muitas pessoas que vão ver stand-up comedy em São Vicente. A aceitação no início foi um pouco difícil, mas nunca foi uma batalha dura. Tinha que convencer as pessoas a assistir os nossos shows, mas quando as pessoas começaram a ir aos shows tivemos um público mais presente e fluído”, explica Ricardo Fidalgo.

Stand-up Comedy em Cabo Verde

Conforme Enrique Alhinho, actualmente há 15 humoristas a fazer Stand-up Comedy, todos impulsionados por ele, “acrescentando Ricardo Fidalgo de São Vicente que também faz. Ele é o mais antigo, depois de mim. Fazia teatro e eu incentivei-o a fazer stand-up comedy”.

Enrique Alhinho afirma que em Cabo Verde, há dois mercados de stand up comedy que estão mais avançados que os outros: a Praia e São Vicente. “Praia é um mercado criado por mim, não havia nada durante muito tempo”.

“São Vicente tem uma história de vinte e tal anos de teatro, então aquela transição foi mais fácil. Digo sempre que São Vicente é dos melhores mercados, porque lá as pessoas vão assistir ao espectáculo independentemente de quem é que vai actuar”, assegura.

Ricardo Fidalgo vai na mesma linha dizendo que o stand-up comedy está mais focado na Praia e São Vicente, “talvez porque não existe pessoal que faça aquele trabalho que já fizemos. Lutamos no início, eu em São Vicente e Enrique Alhinho na Praia, a fazer `finca pé’ e mostrar que estamos aqui”.

“Pelo menos em São Vicente, temos um fluxo maior de pessoas que vai ver os shows, é mais fácil vender e esgotar bilhetes, porque o pessoal quer mesmo ver stand-up comedy e dar uma gargalhada”, indica.

Em São Vicente, há já essa cultura instalada, muito pelo trabalho que temos feito, eu e o Cristian Andrade. “Em São Vicente, neste momento, há obstáculos por causa de espaço, técnicos e luz. Mas São Vicente é o melhor lugar para realizar um show de stand-up comedy, porque as pessoas compram bilhetes independentemente de quem é o show”, corrobora o humorista sanvincentino.

“Já fiz shows na Praia e gostei muito. Nas outras ilhas é muito complicado, as pessoas são mais reservadas. No stand-up comedy tens que falar sobre todos os assuntos sem tabu e sem medo. Nas outras ilhas, quando dizes o nome das coisas ou falas sobre sexo, as pessoas ficam ofendidas, porque não têm essse costume. Por isso é preciso pessoas nas outras ilhas a fazer esse trabalho”, explica Ricardo Fidalgo.

O humorista acredita que se começarem a fazer esse trabalho nas suas ilhas, num futuro próximo teremos stand-up comedy em outros pontos do país, à semelhança da cidade da Praia e de São Vicente. “Em São Vicente, stand up comedy já está afirmado, temos sempre sala cheia”, reforça.

Por outro lado, alerta, fazer stand up comedy não é só fazer os shows. “Tens que ter qualidade no teu trabalho. Se aquilo que fazes tem qualidade, o público não te vai deixar”.

Pandemia veio estragar tudo

A pandemia da COVID-19 teve um impacto brutal nos humoristas, a nível dos eventos.

Como conta Enrique Alhinho, o Stand-up Comedy foi muito afectado. “No final de 2019 estava numa curva ascendente. Carlos Andrade e Benji tinham muitos shows agendados na Europa, também da minha parte tinha vários espectáculos marcados e as coisas já começavam a ganhar aquele embalo normal. E veio a pandemia que acabou com todas as actividades, a todos os níveis, e o stand up foi muito afectado”.

Por outro lado, diz, tiveram a sorte de nos primeiros seis/sete meses de regresso das actividades, o stand up comedy voltou aos palcos. “Em termos de actividades culturais, só aconteceu o stand-up. Fui eu que fiz, porque não importo de não ganhar nada, porque faço isso por paixão”.

“Stand-up comedy ainda não é algo que dê rendimento à maioria, então não importa chegar àquele valor a que estava costumado, que também nunca foi muito, mas sim médio”, confessa.

Com a retoma de actividades, Enrique Alhinho voltou a apostar no stand-up comedy, tanto que trouxe humoristas cabo-verdianos que vivem na diáspora, como Carlos Andrade e Benji, para actuar cá.

E para o próximo ano, Enrique Alhinho pretende trazer Gilmário Vemba, humorista angolano, que quer unir os PALOP pelo humor, uma vez que a curto prazo não será possível, devido à pandemia.

“Ele é um humorista que tenho que levar para todas as ilhas, mas tenho ilhas como Sal e Boa Vista que mesmo durante a situação de calamidade proibiram actividades culturais, o que é ilegal. Tinha dois eventos muito grandes e, outra vez, tive perda. Por isso, por agora, enquanto não tiver certeza de que as coisas não serão encerradas, não vou investir em trazer grandes nomes do humor, principalmente dos PALOP”, explica.

Ricardo Fidalgo, por seu turno, conta que tinha acabado de agendar um show, quando a pandemia chegou a Cabo Verde. “Tivemos que cancelar tudo, os bilhetes para o show esgotaram em 24 horas e não pudemos realizar o espectáculo, porque tudo fechou”.

No meio de tudo isso, sublinha, as pessoas não quiseram devolver os seus bilhetes do show para tomar dinheiro, mesmo sem saber quando é que iriam retomar.

“Foi algo muito gratificante ver que as pessoas estão a valorizar o nosso trabalho”.

Entretanto, quando se começaram a abrir as actividades, limitou-se a capacidade de lotação dos espectáculos. “Um espaço com capacidade para receber 300 pessoas passou a receber 70. Mas quando limitaram o número de pessoas nos espectáculos, a pessoa que vai “fazer a luz” não te vai limitar também no preço, fazer por um terço daquele valor. É mesma coisa para uma pessoa que te vai fazer o som. Não vão baixar o preço dos seus serviços”.

Conforme o humorista sanvicentino, é também muito cansativo ter uma sala de espectáculo com metade da sua capacidade, “tens que fazer mais sessões por causa da procura, porque só uma sessão não chega, para o público que tens. Com isso, os custos só aumentam”.

“Tivemos dificuldades, mas mesmo assim não desistimos, porque era o momento de mostrarmos o nosso trabalho. O nosso trabalho, naquele momento em que muitas pessoas estavam a viver a pandemia, era muito importante. Se não fosse stand-up comedy, muitas pessoas iam morrer de afronta, angústia e depressão dentro das suas casas”, aponta.

Quando não foi possível fazer shows, por causa da pandemia, Ricardo Fidalgo e Cristian Andrade tiveram a iniciativa de fazer lives, pois queriam animar o público em casa.

“O feedback foi muito positivo, porque as pessoas estavam fechadas dentro das suas casas e essa situação é angustiante. Então resolvemos animar as pessoas com o nosso trabalho. Era o momento para não pararmos, sabíamos que o público ficaria à nossa espera, por isso não podíamos parar. Queríamos criar e satisfazer o nosso público. As pessoas querem dar gargalhadas e nós queremos fazer as pessoas rirem”, destaca.

Stand-up Comedy na TV e Rádio públicas

Sobre um programa de stand up comedy na televisão e rádio pública, Enrique Alhinho afirma já ter apresentado uma proposta neste sentido à TCV, mas não teve resposta positiva para avançar.

“Fiz um piloto na TCV que nunca foi para frente. Naquela altura tinha um patrocinador pronto para patrocinar, talvez não num valor [necessário], mas já ajudava, mas TCV nunca fez o trabalho de marketing que deveria ter feito. E há outras questões que não vale a pena falar”, aponta.

Para o humorista praiense, é uma pena, “porque o programa mais visto nas televisões no mundo são os de humor. Não temos nenhum tipo de programa de humor puro, temos online, que é um entretenimento como “Boka Boka”, onde Elton dá o seu toque humorístico, mas não é um programa de humor puro”.

“Acho que já está na altura, porque já temos um número de humoristas considerável para fazer um programa. Pode-se convidar toda as semanas um humorista. [Também] já estive na rádio Cidade para comentar as notícias do dia-a-dia e tinha um patrocinador pronto, mas veio a desistir”, menciona.

De lembrar que nos finais dos anos 80, Nhu Puxim tinha um programa de humor de cerca de 30 minutos na televisão e rádio de Cabo Verde.

Festival Stand-up Comedy Criolo

A 1ª edição do Festival Stand Up Comedy Criolo aconteceu em Junho deste ano, no Lisboa Comedy Club, em Portugal.

Este festival juntou no mesmo palco alguns humoristas cabo-verdianos como Enrique Alhinho, Carlos Andrade, Alexandre Off, Micael Ramos, Benji, Leo Goku Youre Cabral e Gilson 100Burgonha.

Para Enrique Alhinho, este festival foi a realização de um sonho. “Logo no início da carreira tinha vários objectivos que queria atingir, um dos maiores era realizar um Festival Stand Up Comedy Criolo”.

“Hoje em dia temos um número de humoristas o que nos permite fazer isso, tanto no país como na diáspora. Foi algo muito interessante e espectacular. Foi cansativo para mim e Benji, pois fomos nós dois que organizamos. E no fim tivemos um feedback muito positivo. É interessante juntar nove humoristas no mesmo palco, porque são nove estilos totalmente diferentes. Por causa da pandemia, tivermos que fazer cinco sessões, foi muito esgotante. Mas depois de tudo, as mensagens que recebemos, e o próprio feedback do público no momento foi algo espectacular. É um festival para continuar”, garante.

O humorista praiense avisa que no próximo ano será realizada a segunda edição, ainda em Portugal.

“O primeiro festival foi pontapé de saída, tivemos muitos percalços, agora é algo para manter sempre, anualmente vai contar com o Festival Stand-Up Comedy, No próximo ano será em Bragança, depois podemos levá-lo para outra diáspora e Cabo Verde. Tenho o objectivo de fazer este festival em Cabo Verde. trazendo pessoal da diáspora, só que há muitos humoristas lá, e tudo tem a ver com custo”, explica.

Humor criolo pelo mundo

Actualmente temos humoristas como Carlos Andrade, Benji, Nelson Fernandes (CV Tep), com muitos shows na Europa. O humorista Nelson Fernandes, mais conhecido por CV Tep, que reside em Luxemburgo, antes apostava nos vídeos cómicos, hoje já sobe ao palco com o seu show.

Carlos Andrade, conta a Agendacultural.cv, subiu ao palco pela primeira vez para stand up comedy num pequeno evento promovido pela Câmara Municipal de Sintra com parceria da Embaixada de Cabo Verde em Portugal, onde fez estágio durante a licenciatura.

Apesar de estar nessas andanças desde 2009, Carlos Andrade revela que somente em 2018 é que ganhou [algum dinheiro] com o humor, quando fez o seu primeiro show. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1030 de 25 de Agosto de 2021.

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Autoria:Dulcina Mendes,29 ago 2021 18:23

Editado porAntónio Monteiro  em  23 set 2021 11:19

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