Cabo Verde e São Tomé precisam seriamente um do outro

PorJorge Montezinho,10 set 2023 12:46

Leão Lopes, Reitor do M_EIA – Instituto Universitário de Arte, Tecnologia e Cultura
Leão Lopes, Reitor do M_EIA – Instituto Universitário de Arte, Tecnologia e Cultura

O consórcio Entreposto das Artes, das organizações Roça Mundo, de São Tomé e Príncipe, e M_EIA, de Cabo Verde, realizou, entre os dias 23 de Julho e 3 de Agosto, em S. Tomé, o Seminário Internacional reInventar as roças: Água Izé. Uma equipa multidisciplinar de são-tomenses, cabo-verdianos, portugueses e espanhóis, em interação com a comunidade, trabalhou o tema no terreno, recolhendo, processando e produzindo um considerável conjunto de informação, ferramentas e recomendações, que reuniram num dossier e sintetizaram numa exposição. A evolução do título do Seminário para o da exposição e dossier vinca o salto conceptual produzido e, essencialmente, um desejo sustentado: reinventar Água Izé como cidade à cabeça de um território que outrora foi roça. Uma Água Izé reinventada em cidade que se baseia no reconhecimento das suas potencialidades e recursos e cujo planeamento deverá projectá-la como centralidade do território que outrora foi uma Roça. O desafio principal é despertar o desejo de mudança nas pessoas, e o móbil da causa reside no íntimo da comunidade, que precisa ser inspirada a sonhar e vislumbrar um futuro próspero e transformador para sua cidade. Com engajamento colectivo, as potencialidades serão aproveitadas, os recursos optimizados e Água Izé afirmar-se-á como exemplo de desenvolvimento sustentável. Leão Lopes, Reitor do M_EIA – Instituto Universitário de Arte, Tecnologia e Cultura, falou com o Expresso das Ilhas sobre esta experiência que aponta um caminho para a cooperação Sul-Sul entre pequenos estados insulares.

Os objectivos do seminário internacional foram cumpridos?

Creio que sim. Mas não serei eu a avaliar, talvez outros poderão ver melhor do que eu, mas estou convicto que sim. Apurámos a metodologia que temos vindo a experimentar em Cabo Verde – um território diferente – que resultou plenamente; as contribuições de todos os colegas das várias universidades, que pela primeira vez estão aqui em São Tomé; a participação da comunidade, que foi extraordinária; os resultados físicos, como o relatório de uma centena de páginas em tão pouco tempo; uma exposição pública muito bem organizada sob o ponto de vista da comunicação, porque tenho estado a receber feedback das pessoas que têm acompanhado a mostra; a cobertura mediática que tivemos desde o início, tudo isso confere que, de facto, os objectivos foram cumpridos. Ficámos com material suficiente para continuar a fazer o nosso trabalho, que tem por finalidade estreitar os laços de cooperação, no nosso caso, académico e, sobretudo, ao nível do social, cultural e económico também, com este país. Creio que isso foi bem entendido e a presença no encerramento do primeiro-ministro e de dois outros ministros é um sinal muito forte e convicto de que apreciaram e lavaram muito a sério aquilo que viemos aqui fazer.

E além disso tudo, já ficaram coisas no terreno, já há coisas a acontecer.

Já há coisas a acontecer, sim. Já preparámos duas candidaturas de dois pequenos projectos saídos do seminário – na orla marítima e na floresta. Já negociamos um pré-convénio com a universidade de São Tomé, tripartido: Canárias – La Laguna – Cabo Verde e São Tomé. Já lançámos a ideia da criação de alguns cursos profissionais básicos, que foi já ‘amarrada’ com o ministério da educação, a partir da escola da comunidade [de Água Izé] e também há a hipótese de instituirmos aqui alguns cursos superiores, alguns profissionalizantes e um mestrado, pelo menos, na área do património e museologia, que este país está a pedir e que foi uma proposta muito bem acolhida.

Quando falamos da cooperação Sul-Sul, falamos de uma cooperação fundamental porque não há uma agenda por trás, mas apenas o intuito de ajudar. Acha que é esta colaboração, entre países pequenos, a mais genuína, um caminho para que a cooperação seja mais justa?

Penso que sim. Em vez da palavra ajuda, costumo usar cumplicidade. Essa cumplicidade é fundamental, principalmente no caso presente Cabo Verde – São Tomé, creio que estes dois países, ao mais alto nível, têm de desenhar um formato de cooperação específico e único aqui neste Atlântico. Tem todas as possibilidades. A mesma matriz histórica, compartilhando os mesmos dramas humanitários e resultantes de um sistema colonial diferenciado entre Cabo Verde e aqui, mas que ainda nos toca profundamente e que é tão visível e ainda tão sofrido aqui na carne de nós todos. Só isso, do meu ponto de vista, seria suficiente para que estes dois países, ao nível dos dois estados soberanos, sentassem a desenhar uma outra instituição de cooperação.

Não seria difícil.

Não me parece difícil perceberem que é possível e que é possível também realizar estes desígnios de cooperação entre estes dois países, sobretudo por via das instituições da sociedade civil – instituições privadas, empresários, acreditarem que poderíamos complementar-nos com vantagens extraordinárias para os nossos dois países. Desde que frequento São Tomé que vou aprofundando esta convicção. Desta vez ela é muito mais profunda do que da última vez e está nas mãos dos nossos governantes, dos políticos que tomam essas decisões, de proporcionar condições para que os povos se unam a realizar isso tudo. Penso que é uma concepção política possível de desenhar e possível de realizar.

Sem gastos para os governos.

Não é preciso. Aliás, chegando aqui a São Tomé, o impacto é que está tudo aqui, de bandeja, mesmo para nós. Para mim, o desafio é: o que posso fazer aqui? Penso que qualquer cabo-verdiano poderá ter esse sentimento. Eu aqui sou estimulado a todo o momento a participar e Cabo Verde e São Tomé precisam um do outro. Precisam seriamente um do outro.

Voltando ao projecto de Água Izé, esta roça que se quer reinventada também pode ser um farol para o resto do país? Se correr bem?

Nós designámos esse seminário Reinventar as Roças, como desafio. Conhecer, investigar, aprofundar essa história. Este seminário foi pensado há muito tempo. Foi lançado em Lisboa no final do ano passado e concluímo-lo agora [início de Agosto]. Durante esse tempo houve estudo, investigação, fez-se a arqueologia da história para conseguir materiais que não tínhamos, mas que já temos – seja documental, seja histórico, etc. – e tudo isso esteve na base do desenho deste seminário e vai continuar, porque só agora afloramos os vários sectores. Penso que todos nós levamos daqui uma ansiedade de continuar. Por isso, considero que estamos a iniciar uma nova etapa. Já não será um seminário de Água Izé, propusemos uma abordagem académica, e não só, para pensar as roças a partir do estado em que estão e como reanimá-las e projectá-las para o futuro. Este paradigma que desenhamos com este seminário pode servir perfeitamente a qualquer outro contexto, de roça ou de assentamento humano, e sabemos que podemos aplicá-lo. Já o experimentámos várias vezes em Cabo Verde, tem dado algum resultado, e aqui vai dar resultado também.

Até ao próprio investimento privado este projecto pode ajudar. Ou seja, quem vier já sabe ao que vem.

Sim. Os colegas que trabalharam a parte da economia, da indústria, já têm pistas interessantíssimas que podem estimular investidores. No turismo, por exemplo, mas também na indústria do processamento alimentar, pecuária, silvicultura, há essas pistas todas levantadas. Aliás, em conversa com ministro da agricultura [de São Tomé] ele disse que estava muito contente com o facto de termos levantado pistas bem credíveis, bem fundamentadas, para atrair investidores nessas áreas.

A escola, para já, vai ser o motor do desenvolvimento, provando mais uma vez, como se fosse preciso, que a educação pode mudar a vida das pessoas.

A nossa estratégia foi pôr o foco na educação. Acreditamos, acho que a maior parte acredita, que sem este pilar o futuro é aleatório. E tivemos a sorte de poder trabalhar com uma classe docente, com um corpo docente dessa comunidade de alto nível. Seriedade, empenhamento, sempre presentes. E deixámos algumas pistas interessantes. Por exemplo, propusemos a introdução, na escola [frequentada por mais de 800 crianças] a partir do 9º ano [o último grau lecionado na escola de Água Izé] de uma formação básica profissional, com seis horas semanais e, inclusive, já deixámos o programa curricular, um dossier quase completo que já está com o ministério da educação. Temos recursos humanos, temos instalações suficientes, há vontade política, e poderá arrancar no próximo ano lectivo. Mas não vamos ficar por aí porque propusemos uma escola de artes e ofícios, para continuar depois do 9º ano. Ainda não há legislações muito claras e específicas, mas com certeza que se vai lá chegar e, pelo menos, já temos o espaço físico para instalar essa escola. Tratámos com a universidade a possibilidade de cursos superiores médios profissionalizantes, que estão a ter alguns bons resultados em Cabo Verde e que aqui ainda não experimentaram, mas a universidade está entusiasmada com a possibilidade de fazer essa experiência aqui. E já temos tudo, ou praticamente tudo, para localizar a escola: há espaço físico, recursos humanos e só faltam alguns financeiros para arrancar.

Outra questão que fica destas duas semanas é que este projecto vai ser aquilo que as pessoas queiram que seja.

Sim. Esse foi sempre o nosso discurso. Este é um gesto de amizade. Cúmplice. Nós vamos embora, não sei se voltaremos, mas o espírito de solidariedade e de cumplicidade vai continuar mesmo à distância. Penso que as pessoas perceberam, a comunidade percebeu, porque desde o início foi essa a mensagem: somos amigos, somos professores, não temos nada mais que deixar aqui se não a nossa amizade e a nossa vontade para que a partir da escola vocês possam transformar esta comunidade e vamos falar durante esses dias, trocar experiências e depois deixamos por escrito o resultado destas nossas falas. E foi isso que fizemos.

Até porque qualquer desenvolvimento que aconteça, seja em Água Izé, seja em qualquer outra roça, se não proporcionar a melhoria de vida das comunidades será um fracasso.

Naturalmente. E as pessoas têm mesmo de se empenhar nisso, indignando-se, revoltando-se, reivindicando para melhorar o seu dia-a-dia. A passividade nas nossas vidas não leva a nada, leva a perpetuar uma certa inactividade psicológica, uma pré-disposição e uma expectativa que tudo vem de fora mudar as nossas vidas. Isso não é verdade. Tem de começar em casa. As crianças têm de perceber porque vão para a escola, que vão para requalificar o seu futuro, mudar a vida. Todos os dias vamos para a escola e estamos a investir em nós. O resto, tem de se fazer para que aconteça. Não esperar que aconteça.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1136 de 6 de Setembro de 2023. 

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Autoria:Jorge Montezinho,10 set 2023 12:46

Editado porEdisângela Tavares  em  29 mai 2024 23:29

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