Da música às artes visuais, da literatura à dança, passando pela memória e pelo pensamento crítico, tudo cabe no CCCV. O Centro arrancou num contexto adverso, poucos meses antes da pandemia, o que atrasou a sua consolidação. Ainda assim, paulatinamente, afirmou-se como o polo agregador que sempre quis ser, explica a gestora Ângela Barbosa.
“O maior propósito é mesmo estar perto da comunidade cabo-verdiana, fazer com que os cabo-verdianos sintam que Cabo Verde está sempre perto e, ao mesmo tempo, deixar a marca Cabo Verde em todo o lado onde haja um cabo-verdiano”, diz.
“Acho que Cabo Verde é o primeiro país africano a abrir um centro cultural, com as características de um verdadeiro centro cultural, na Europa. Há vários países que têm pequenos núcleos culturais, mas com estas características, penso que Cabo Verde será o primeiro”, acrescenta.
O Centro Cultural segue uma lógica multifuncional, acolhendo exposições, conferências, debates, tertúlias, lançamentos, entre outros. Tem um pequeno palco preparado para concertos e performances.
Desde o início, o CCCV foi igualmente enquadrado como instrumento de diplomacia cultural. A escolha de Lisboa, cidade com uma presença cabo-verdiana histórica e significativa, e a articulação com instituições portuguesas conferem-lhe essa dimensão estratégica.
“Um dos valores maiores que Cabo Verde tem é, sem dúvida, a sua cultura. Nós não temos petróleo, não temos diamantes, não temos riquezas naturais e geológicas que alguns países têm; assim, a nossa maior riqueza é mesmo o nosso calor humano”, refere Ângela Barbosa.
A criação do Centro Cultural Cabo Verde resultou de um processo longo, amadurecido ao longo de anos e tornado possível graças a um entendimento institucional com a Câmara Municipal de Lisboa.
Longe de pretender substituir o tecido associativo cabo-verdiano em Portugal, o Centro posiciona-se como uma estrutura de articulação.
“Nós não viemos sobrepor-nos ao trabalho meritório que todas estas organizações e pessoas têm feito desde finais dos anos 60, mas sim complementar esse trabalho”, observa a gestora.
Num tempo de ameaça à globalização e de edificação de muros, o CCCV promove a interconexão cultural, acolhendo iniciativas de outras geografias, em especial da CPLP e de países parceiros. “Cabo Verde é como um espaço em construção, um espaço aberto ao mundo”, estabelece Ângela Barbosa.
O funcionamento diário faz-se com recursos financeiros limitados. Ainda sem autonomia jurídica nem orçamental, o CCCV depende da Embaixada de Cabo Verde em Portugal. As parcerias e o espírito de djuntamon têm sido fundamentais para compor a programação regular.
“Tem de haver aqui muito espírito de entrega. Muito respeito pelo trabalho dos artistas. Os nossos artistas também se sentem parte do que é o Centro Cultural Cabo Verde. Muitas vezes temos aqui artistas que não cobram nada ou, quando cobram, cobram uma coisa mínima, mais para suportar despesas com deslocação ou uma refeição do que propriamente um cachet”, comenta.
A gestora faz questão de sublinhar que o CCCV não é uma sala de espectáculos, mas um projecto com identidade, acompanhamento institucional e responsabilidade cultural.
“Quando cedemos o espaço para a realização de um ou outro evento, faço questão de que o Centro e a Embaixada estejam sempre presentes”, observa.
O Centro Cultural Cabo Verde é, antes de tudo, uma casa do país fora de portas.
“Quando abrimos um centro cultural, que basicamente é uma casa de Cabo Verde, é preciso lembrar que não é um espaço para as elites; é um espaço para as pessoas, para os cabo-verdianos”, remata Ângela.
Depois de Portugal, França. Em Dezembro do ano passado, o Governo anunciou a intenção de criar um centro cultural cabo-verdiano em território francês. A aposta foi apresentada como uma forma de aprofundar as relações culturais e institucionais entre Cabo Verde e França, país que acolhe uma das maiores comunidades cabo-verdianas na Europa.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1262 de 04 de Fevereiro de 2026.
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