O espectáculo de apresentação do “Legacy” aconteceu no Hangar 7 e teve casa cheia, onde o público mostrou que já conhece todos os temas do novo álbum do artista. Nelson Freitas proporcionou ao público uma experiência muito especial, dando a conhecer ao vivo as novas músicas antes mesmo de estas se tornarem amplamente populares nas rádios e plataformas digitais.
“Quis fazer diferente e apresentar ao público este novo trabalho antes de as pessoas conhecerem todas as músicas”, afirmou o artista, numa entrevista ao Expresso das Ilhas.
Com oito álbuns lançados ao longo da sua carreira, Nelson Freitas explicou que a decisão de abandonar o formato tradicional de disco está relacionada com a forma como o consumo musical mudou nos últimos anos.
“Hoje em dia, as pessoas já não têm muita paciência para ouvir um álbum do início ao fim. Os jovens escutam uma música e colocam-na numa playlist. Fazer um álbum exige muita energia e muito tempo”, explicou.
Apesar disso, o cantor garante que não pretende abandonar a música. A intenção é explorar novos formatos e dedicar-se a outros projectos artísticos. “Nunca disse que vou parar de fazer música”.
Concertos
O artista revelou ainda que gostaria de levar o espectáculo de lançamento de “Legacy” a outras ilhas do país, mas admite que a agenda está cheia, o que não permite mais apresentações em Cabo Verde.
“A ideia sempre foi fazer concertos em outros pontos do país, só que, infelizmente, a agenda não permite, porque já está cheia até ao fim de Setembro. Graças a Deus. Assim que lancei o CD, comecei a marcar lançamentos e a agenda começou a encher”, relata.
Nelson Freitas sublinha que tudo isso é fruto do trabalho. “E isso quer dizer que as pessoas estão mesmo a gostar do meu trabalho”.
Depois do espectáculo na Cidade da Praia, Nelson Freitas actuará em Portugal, seguindo depois para a Holanda, Angola e Moçambique.
Meo Arena
Nelson Freitas destacou também o concerto marcado para 27 de Março de 2027, na Meo Arena, em Portugal, considerando o evento não apenas uma conquista pessoal, mas também um marco para a música e cultura cabo-verdianas.
“O Meo Arena não é só um espectáculo de Nelson Freitas. É um espectáculo para a nossa cultura”, afirmou.
O cantor falou ainda das dificuldades enfrentadas pelos artistas cabo-verdianos no mercado internacional, sobretudo em Portugal, onde considera que os músicos lusófonos precisam de trabalhar mais para obter reconhecimento mediático.
“Temos que trabalhar três vezes mais para conseguir um terço do resultado”.
25 anos de carreira
Com mais de 25 anos de carreira, Nelson Freitas recordou alguns dos momentos mais marcantes do seu percurso artístico, desde os tempos do grupo Os Quatro até aos concertos esgotados em salas como o Coliseu dos Recreios e o Campo Pequeno, em Portugal.
O artista destacou ainda o projecto Kriol Kings, criado em parceria com o cantor cabo-verdiano Djodje, como um dos momentos de maior orgulho da sua trajectória.
“É muita coisa, muita experiência acumulada ao longo dos anos. O mais importante que aprendi é dizer não às coisas que não quero fazer. Houve momentos em que a sociedade empurrava para certos caminhos, e às vezes até os segui, mas hoje em dia já não preciso, e não quero. Se não quero, não quero. O mais importante nestes 25 anos de carreira é saber bem o que quero e o que não quero”, assegura.
Nelson Freitas realça que já conquistou muitas coisas durante esses anos, mas considera que ainda há mais por alcançar.
“Se posso conquistar mais, vou conquistar. Sou ambicioso, quero sempre mais, caminhos diferentes, palcos diferentes. Por isso digo que a música está dentro de mim; parar de fazer música não existe para mim”, declara.
Filho de emigrantes cabo-verdianos na Holanda, Nelson Freitas contou que cresceu rodeado pela música cabo-verdiana, ouvindo artistas como Cesária Évora, Ildo Lobo, Os Tubarões e Zeca Nha Reinalda, ao mesmo tempo que era influenciado pelo R&B e hip-hop de artistas internacionais como Michael Jackson.
“Então, a música estava mesmo dentro de casa, dentro da família, nos baptizados e nas festas em que o pessoal se reunia para estar junto e matar saudades de Cabo Verde, e nós, como crianças, tínhamos sempre de ir com os nossos pais. Mas foi bom e faz parte da infância”, recorda.
Nelson Freitas relatou que há muitos músicos e DJs na sua família. “Tem o Johnny Ramos, sendo o mais famoso de todos. Tenho sobrinhas que tocam violino, guitarra, flauta e cantam”.
Inteligência Artificial
Questionado sobre o impacto da Inteligência Artificial na música, Nelson Freitas reconheceu que a tecnologia pode ser uma ferramenta útil para a criação artística, mas alertou para os riscos do uso excessivo.
“A inteligência artificial é mais uma ferramenta que temos hoje em dia para fazer muitas coisas. Para fazer música, para divulgar as nossas músicas também. Mas o mal, hoje em dia, é que os jovens estão a fazer músicas só com a IA. E pior é que o mundo está a aceitar”, afirmou.
O cantor revelou ainda que utilizou ferramentas de IA durante o processo criativo de “Legacy”, mas apenas para pedir ideias.
“Usei para pedir ideias e depois transformar aquilo em algo meu. Mas não é pegar naquela ideia a 100%, porque isso já não acho certo”.
Nelson Freitas deixou uma mensagem aos jovens artistas que querem construir as suas carreiras nessa área, incentivando-os a dedicarem mais tempo ao aperfeiçoamento das suas artes.
“A única coisa que posso dizer é para colocarem mais horas nas suas artes. Para não pensarem que, de hoje para amanhã, vão ser famosos. Se gostas daquilo que fazes, tens que te dedicar mesmo. E hoje em dia, neste mundo em que tudo é rápido, rápido, rápido, a malta já não dedica o seu tempo à arte. Então, o conselho é dedicar mais tempo à arte”.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1276 de 13 de Maio de 2026.
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