Balanço do CAN é “positivo”, mas há algo a “mudar”

PorNuno Andrade Ferreira,6 fev 2022 8:27

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Especialistas fazem avaliação global positiva da participação no CAN, mas defendem mais rodagem e outra filosofia de jogo para a selecção.

Com a derrota por 2-0, frente ao Senegal, chegou ao fim a participação cabo-verdiana no Campeonato Africano das Nações 2021 (CAN 2021). Os Tubarões Azuis atingiram os oitavos-de-final da prova. Agora é hora de balanço e análise.

Avaliada como globalmente positiva, a prestação nacional também expôs algumas das fragilidades do futebol crioulo. Ex-seleccionador, Lúcio Antunes conhece em pormenor a realidade da modalidade. Esperava que os comandados de Bubista conseguissem chegar mais longe, mas destaca a qualidade de atletas e equipa técnica. Relativiza o impacto do surto de covid, durante o estágio, e problemas gástricos, na véspera do embate com os Leões de Teranga. Foi “o CAN possível”, acredita.

“Não podemos ficar ancorados na covid, na intoxicação ou em outras coisas, por não termos chegado um pouco mais longe. Sei que temos um excelente treinador, temos uma excelente equipa, muito bem organizada, o que não abunda nas restantes formações africanas. Em termos individuais, ficamos longe das boas equipas de África, que têm jogadores em Inglaterra, Itália, França, Alemanha, Portugal, e nós, os nossos jogadores, jogam em equipas de qualidade média-baixa”, assinala.

“A equipa era boa, mas em certos jogos o que faz a diferença é a qualidade boa, ou não, de cada jogador e não temos aquela qualidade. [Os oitavos], acho que é um lugar normal, não fizemos um bom CAN, também não fizemos um mau CAN”, defende.

Para Lúcio Antunes, as expulsões de Vozinha e Patrick Andrade não podem ser usadas como argumento para a derrota por dois golos sem resposta. É preciso admitir que o Senegal é mais forte.

Na mesma linha, o técnico Sérgio Rocha, que já liderou várias equipas de Santiago Sul, pede mais empenho a alguns atletas, em especial na linha avançada do terreno.

“Há jogadores na selecção que, sinceramente, do meu ponto de vista, ainda deixam muito a desejar. Há jogadores sem entrega, por mais que se veja o esforço dentro de campo, o que é de reconhecer. Falta entrega, falta muita técnica. Os jogadores que lá estão [na selecção], se for para continuarem, têm que trabalhar muito. Refiro-me a alguns jogadores do sector avançado, porque no sector defensivo estivemos muito bem”, pondera, com um elogio especial ao defesa-central Pico.

Lamentando que o afastamento precoce de Cabo Verde tenha sido determinado por questões “alheias” ao jogo, o presidente da Associação Regional de Futebol de Santiago Sul, Mário Donnay, sente que os Tubarões “dignificaram” o país.

“O que aconteceu é que houve uma equipa de arbitragem que não quis, de maneira alguma, que a nossa selecção estivesse em pé de igualdade com qualquer selecção do continente, o que é de lamentar”, analisa.

“Como cabo-verdiano, senti-me orgulhoso por, apesar de sermos um país pequeno, sem condições iguais a outras selecções, termos mostrado a dignidade e a vontade de um povo, o nosso futebol, o fair play”, complementa o dirigente.

A norte, o presidente da Associação Regional de Futebol de São Vicente, César Lima, também está orgulhoso do desempenho nos Camarões. Contudo, alerta para o trabalho a fazer para se conseguir dar o salto rumo a outros patamares.

“Acredito que a nossa selecção tem condições para fazer muito mais, mas é preciso muito trabalho. Temos grandes jogadores, bons treinadores, a direcção da Federação Cabo-Verdiana de futebol tem feito um excelente trabalho e proporcionado tudo de bom aos atletas. Temos tudo para crescer e espero que, nos próximos tempos, possamos chegar mais à frente nos campeonatos”, ambiciona.

Satisfeito com a participação na maior competição africana de selecções, o antigo internacional, Nando, realça o pouco tempo de preparação para a prova, com a pandemia a impedir a equipa de ganhar maior ritmo competitivo e melhor entrosamento.

“Não tivemos preparação, a equipa esteve muito tempo ausente, por causa da pandemia. Depois, os testes positivos. Acho que é um balanço positivo. Sabemos que há coisas que acontecem em África e que infelizmente deixam a desejar”, lamenta, numa referência particular ao jogo dos oitavos e às duas expulsões.

Para uma selecção com mais rodagem e outro tipo de palco internacional, o comentador desportivo, João Pires, só vê um caminho: repensar o futebol em Cabo Verde e conferir maior protagonismo à formação.

“Há necessidade de se incrementar as competições a nível das camadas etárias mais baixas, porque para se fazer omeletes, tem que se ter ovos”, declara.

Sobre o futebol sénior e a selecção principal, João Pires pede que seja encontrada uma filosofia de jogo que leve em conta a natureza da própria equipa.

“São vários os treinadores, as equipas técnicas, que tentam jogar de igual para igual com outras selecções. Em primeiro lugar, os nossos atletas não competem em campeonatos tão competitivos, o que será um handicap, mas também temos uma outra questão, que é a parte biológica. Temos é que praticar um futebol diferente, de jogo mais curto, mais apoiado, transições rápidas e mudanças de local”, propõe.

Depois de uma vitória, um empate e uma derrota, na fase de grupos, os Tubarões Azuis perderam por 2-0 frente ao Senegal, em jogo relativo aos oitavos-de-final do CAN 2021, competição que a covid-19 adiou para este ano. Os jogos das meias-finais acontecem hoje e quinta-feira, com um Burkina Faso-Senegal (02/02, 18h00) e um Camarões-Egipto (03/02, 18h00) em cartaz. A final disputa-se domingo, às 18:00, no estádio Paul Biya, no bairro de Olembé, cidade de Yaoundé, Camarões.

Com Fretson Rocha

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1053 de 2 de Fevereiro de 2022. 

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,6 fev 2022 8:27

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  11 ago 2022 23:28

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