Electra e CVTelecom com perdas de centenas de milhares de contos : Os danos colaterais do desaparecimento do turismo

PorJorge Montezinho,12 set 2020 12:19

Com a pausa das viagens internacionais e da vinda de turistas, desde Março deste ano, acumulam-se os prejuízos na maior empresa de telecomunicações e na maior produtora e distribuidora de energia e água em Cabo Verde. Nestes últimos seis meses, 90% das perdas da CVTelecom têm origem no fecho dos hotéis e a Electra viu cair as suas receitas em mais de um milhão de contos. A retoma é esperada, mas ainda com muitas incertezas, por parte de ambos os conselhos de administração.

O turismo representava mais de ¼ da riqueza nacional e a crise do sector teve um impacto que se generalizou a toda a economia. “Só no negócio directo, que tínhamos com as empresas de hotelaria, vai-nos custar cerca de 180 mil contos”, diz ao Expresso das Ilhas João Domingos, PCA da CV Telecom, “tínhamos também vários clientes que eram trabalhadores no sector do turismo, com a perda de rendimento deixaram de ser clientes”.

Além dos impactos directos, há também os indirectos. A pandemia provocou alterações na actividade interna, trabalhadores foram colocados em teletrabalho e houve uma queda de produtividade acentuada. “Estamos a lidar com uma situação muito complexa”, explica João Domingos, “a empresa já tinha retomado o seu processo de crescimento, conforme revelam os resultados do ano 2019 que apresentámos em Assembleia Geral. Provavelmente, este ano teríamos uma continuidade dessa tendência de crescimento, mas com a queda do sector do turismo, com o fim da actividade, já não vamos conseguir atingir o resultado que atingimos no ano passado”.

O roaming internacional, o aluguer de circuito e a venda de capacidade para os operadores turísticos foram as áreas mais afectadas. A perda de rendimento das famílias também as fez descartar os serviços de telecomunicações, para se concentrarem noutro tipo de necessidades mais imediatas. E nem o facto das pessoas terem ficado mais tempo em casa, por causa do confinamento, mudou hábitos de consumo. “Não houve aumento do consumo”, sublinha o PCA da CVTelecom, “até porque algumas das pessoas que foram para casa ficaram sem rendimento. Outras levaram os serviços que tinham nas empresas privadas ou públicas. Fizemos essa leitura inicial, que poderia haver mais instalações de serviços fixos, mas não aconteceu de acordo com a expectativa que tínhamos”.

Numa altura em que a empresa está a fazer investimentos grandes, só o novo cabo submarino Ella Link custa cerca de 30 milhões de dólares, João Domingos admite que esta é a pior altura para haver quebra de rendimentos. “A empresa tem de fazer grandes investimentos olhando sobretudo para o futuro. Estamos à espera que esta situação de pandemia, que o mundo atravessa, seja passageira e não dure muito tempo. As empresas de telecomunicações, a curto prazo, conseguem ainda lidar com a situação, porque são empresas que prestam um serviço essencial para os outros sectores da economia. Caindo o turismo, sofremos com isso, mas ainda temos que estar com os serviços de pé para sustentar toda a actividade governativa, todos os negócios que ainda estão a funcionar. Podemos dizer que num espaço não superior a seis meses conseguimos fazer algum jogo de cintura e não afundarmos muito, mas se a crise perdurar por um ciclo de 12 meses, aí sim, estaremos numa situação muito difícil”.

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A incerteza tem sido mais uma grande dificuldades, para juntar às outras. No total, a CVTelecom estima uma quebra financeira, até ao momento, na ordem dos 200 mil contos, mas não se sabe como será o dia de amanhã. “Neste momento, praticamente, estamos a renascer. Com uma contracção desta envergadura, vamos ter de renascer. A falta de turismo levou o país praticamente à bancarrota. O governo tem tido excelentes intervenções, mas não vai durar por muito tempo”.

A empresa já se viu obrigada a reduzir os apoios a eventos sociais, desportivos e culturais e um plano de recuperação específico vai depender da dinâmica económica. “Um plano não será tanto para a CVTelecom”, diz João Domingos, “mas para a recuperação económica nacional, e aí sim, iríamos alinhar estrategicamente com esse plano. Mas se tudo continuar como se encontra neste momento, daqui a seis meses a CVTelecom vai precisar de uma reestruturação de fundo, como vai acontecer provavelmente com muitas empresas de capital estatal e privado”.

Uma reestruturação que, explica o PCA da empresa de telecomunicações, não passa por apoios governamentais, mas por uma aposta maior na eficiência operacional, ou seja, fazer mais com menos. “Até porque não vejo o governo a reunir recursos para acudir a todas as empresas em situação de dificuldade e uma empresa com a dimensão da CVTelecom vai exigir muitos recursos”.

“Que a crise acabe o mais depressa possível”, resume João Domingos, “para podermos ter dados fiáveis para fazer projecções. Neste momento, não estamos seguros dos dados que temos”.

O impacto no sector energético

Como acontece em outras comunidades económicas espalhadas pelo mundo, todos os países da CEDEAO sofreram uma redução global na procura de electricidade devido às políticas de bloqueio económico da COVID-19, refere um relatório do Centro da CEDEAO para as Energias Renováveis e Eficiência Energética. A queda na procura é particularmente elevada em países mais pequenos, como Cabo Verde e Gâmbia, com economias orientadas para o turismo. Como a maior parte dos hotéis e resorts foram temporariamente encerrados, o consumo de eletricidade diminuiu significativamente. Cabo Verde, em particular, relata um declínio de 70% a 80% na procura de eletricidade nas duas ilhas turísticas: Sal e Boa Vista. Além disso, a procura de electricidade dos clientes industriais e comerciais diminuiu igualmente.

O impacto maior que a Electra sofreu foi na ilha do Sal. A retracção dos níveis de procura energética situa-se nos 45 por cento, comparando os meses de Abril a Agosto deste ano com o período homólogo. Em relação à água, também no Sal e no mesmo período, houve uma diminuição na ordem dos 30 por cento. “Os nossos níveis de cobrança reduziram-se substancialmente”, diz ao Expresso das Ilhas Alcindo Mota, PCA da empresa de electricidade e água, “tivemos de suspender os cortes por falta de pagamento e isso teve impacto enorme na tesouraria da empresa. A conjugação desses factores, de um lado as cobranças, do outro o mercado do Sal, provocaram impactos financeiros relevantes. Estamos a falar de quedas de cobrança mensais superiores a 200 mil contos. Na ilha do Sal, só para dar um exemplo, tínhamos só um hotel a consumir mais do que toda a ilha de Santo Antão”.

“A nossa preocupação”, continua o PCA da Electra, “é garantir que haja continuidade na produção destes bens essenciais. Temos uma estrutura de custos física, temos investimentos feitos, somos uma empresa de capital intensivo, temos todos os custos de estrutura e temos de fazer um exercício enorme para continuarmos a garantir todos os serviços. Estamos a aguardar a retoma, para que consigamos mitigar esses efeitos que são enormes e que serão sentidos mais para a frente”.

Já antes da pandemia, a empresa apresentava vários problemas, essencialmente ao nível de perdas e principalmente no mercado de Santiago. No último exercício tinha havido alguma recuperação, a Electra Norte teve resultados positivos, a Electra Sul continua na senda dos resultados negativos, mas melhorou face aos resultados de 2018. Agora, a crise terá efeitos nefastos sobre os resultados que se projectavam no plano de actividades para 2020. “Era nossa perspectiva termos resultados positivos em 2020, esse plano foi revisto e agora pensamos em resultados menos favoráveis. No ano passado houve um crescimento do mercado energético superior a 3%, mas este ano pensamos ter um decrescimento acentuado, que pode chegar a mais de 8% em termos do crescimento da produção”.

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Alcindo Mota admite que a crise vem atrasar os investimentos da empresa. “A nova central eléctrica, em construção na ilha do Sal, teve alguma paragem por causa da crise. A intenção inicial era que a central começasse a funcionar em Julho, não será possível e fica diferido para 2021. Em matéria de água, temos uma nova dessalinizadora para aumentar a capacidade de produção na Praia, que devia estar pronta este ano, mas isso também não vai acontecer e ficará para 2021. Em relação a investimentos de melhoria de rede, e outros, tivemos também de revisitar todo esse pacote de investimentos. Estamos a fazer o essencial para manter o nível de qualidade e de serviço, mas acabámos por fazer cortes nos investimentos que estavam previstos para um crescimento de mercado, que não teremos, e foram adiados, a aguardar por dias melhores”.

Na Boa Vista, o cenário não é melhor. A empresa Águas e Energia da Boa Vista (AEB) detém o monopólio de produção e distribuição de água e energia na ilha, no âmbito de protocolos de concessão e acordos celebrados com o Governo e a Electra. A AEB produz e distribuí tanto para os hotéis, como também para a população, com excepção das localidades de Bofareira e Povoação Velha, onde a produção e distribuição de energia eléctrica continua sob a responsabilidade da Câmara Municipal. Com o fim do turismo, a perda de receitas situa-se entre os 80 e os 85 por cento. “É brutal, os nossos maiores clientes são os hotéis e sem turismo, não há negócio”, diz ao Expresso das Ilhas Rui Cardoso, administrador executivo da AEB.

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O responsável garante que o prejuízo não terá impacto nos investimentos, porque o grosso já estava feito. O único senão é que outros investimentos poderão sofrer algum atraso. Mas, ao mesmo tempo, aguarda-se ansiosamente a reabertura da ilha e o regresso do turismo. “A retoma do turismo vai trazer-nos o oxigénio que precisamos. Já estava nas nossas expectativas uma retoma gradual a partir de Outubro, agora é ver a resposta do mercado.

“Mas há ainda muitas incertezas”, sublinha Rui Cardoso, “os operadores vão abrir todos os hotéis que tem na ilha? Vão abrir apenas um? Temos perguntado, mas ninguém nos deu certezas, porque eles próprios também não sabem como vai evoluir a procura. Mas estamos mais optimistas do que no início da crise”.

Para já, certezas, só que a empresa não precisará de nenhuma reestruturação. “Temos seguido sempre a procura da eficiência e nada nos obriga a medidas mais radicais em termos de gestão corrente da empresa. Conseguimos manter o funcionamento e vamos continuar”, garante o administrador executivo da AEB.

Como refere o relatório do Centro da CEDEAO para as Energias Renováveis e Eficiência Energética, a pandemia de COVID-19 revelou a necessidade de recursos energéticos mais fiáveis e disponíveis, a inevitabilidade de superar os combustíveis fósseis e a indispensabilidade de acelerar o desenvolvimento em todos os países da CEDEAO. Apesar dos desafios actuais, a crise proporciona também uma oportunidade única para os países acelerarem as acções e aumentarem a resiliência dos seus sistemas energéticos, a fim de evitar choques futuros. As oportunidades de utilização dos recursos de energias renováveis disponíveis localmente podem aliviar os desafios energéticos imediatos, criar empregos e fazer avançar o desenvolvimento industrial. Além disso, conclui o documento, os desafios enfrentados pelos países da CEDEAO mostram que o desenvolvimento das infra-estruturas energéticas não deve mais ser ad-hoc; devem ser bem planeados e voltados para o futuro. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 980 de 9 de Setembro de 2020. 

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Autoria:Jorge Montezinho,12 set 2020 12:19

Editado porSheilla Ribeiro  em  20 set 2020 12:19

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