De Portugal para os quatro cantos do mundo pelas mãos de um cabo-verdiano

PorJorge Montezinho,5 mai 2019 6:17

Os paladares portugueses mais exclusivos estão à distância de um click, em qualquer parte do mundo, e o empreendedor por trás do negócio é um cabo-verdiano. Pedro Silva Baptista é o criador da loja virtual Portugal Nosso (www.portugalnosso.com) uma plataforma digital de venda e distribuição de produtos gastronómicos a quem o jornal Dinheiro Vivo chamou a “Amazon da Saudade”. Em pouco tempo, o conceito evoluiu e de uma loja E-commerce de produtos de nicho passou para uma Startup que contempla um Centro de Serviços & Consultoria, serviços que se debruçam, por exemplo, sobre Home & Executive Chef (chef ao domicílio e para eventos das empresas). Assim, para além da vertente on-line de venda de produtos de nicho, o Portugal Nosso faz a ponte entre Chefs e pessoas que procuram experiências gastronómicas diferenciadas. A outra dimensão traduz-se em Consultoria de Branding, Consultoria Vitivinícola (de vinhos) e de Produto (assessoria para quem procura produtos gastro vínicos em Portugal).

Nas palavras do criador, a plataforma Portugal Nosso não é só um conceito, é tradição e inovação, é aproximação ao país real e autêntico. Representa e reflecte o ADN da portugalidade, visto através da lente de um estrangeiro. “O Portugal Nosso resulta essencialmente do entusiasmo e da paixão que nutro, no geral, pela gastronomia, pelo mundo dos vinhos e pela cultura, neste caso também de Portugal. Por outro lado, trata-se de um país em voga, que está na moda”, diz Pedro Baptista ao Expresso das Ilhas. “Pese embora haja muita dinâmica empreendedora, num país onde praticamente todos os dias surgem coisas novas, com personalidade própria, ainda assim, constatei que havia espaço para um projecto novo, capaz de promover o país e de mostrá-lo com uma nova lente e roupagem ao mundo. Em suma, enquanto plataforma digital, Portugal Nosso nasce após um processo de identificação de algumas necessidades de mercado e da análise de oportunidades de negócio no sector gastro-vínico, não deixando de constituir também um posicionamento no domínio do E-commerce”.

Hoje, o Portugal Nosso é uma montra com centenas de produtos tradicionais portugueses, desde os vinhos da Winery Boutique, até aos queijos, enchidos, azeites, conservas, aguardentes e outras espirituosas, licores, doces, compotas ou cerveja artesanal. Mas para se chegar aqui, foram necessárias várias etapas. “o primeiro passo foi pensar e reflectir ‘como posso, simultaneamente, ser útil ao país onde estou e contribuir, preenchendo algum do vazio que resulta das tais necessidades de mercado identificadas?’. O segundo passo foi a estruturação do projecto, que contemplou pesquisas e estudos de mercado”, conta o fundador da plataforma digital. “Sabemos que não basta ter paixão, impulsos, ideias. É sempre pertinente usar uma metodologia para colher dados concretos, inquirindo os potenciais clientes sobre as suas preferências e indagando os produtores, justamente para se aferir as suas necessidades. Isto, no fundo, para comprovar as necessidades vs oportunidades de mercado”.

O mercado de nicho

Num mundo ruidoso como é o actual, há poucas possibilidades das empresas conseguirem com que as pessoas se lembrem delas. No fundo, as empresas devem ser muito objectivas tanto em relação aos seus propósitos (em termos de posicionamento, público-alvo, etc.) como muito assertivas na definição daquilo que querem (nomeadamente, sobre o que querem que se conheça sobre elas), para manterem a relevância e a vitalidade. Por norma, um caminho para a boa concretização de um projecto passa pela criação de uma marca, de serviços/produtos com os quais o consumidor se identifica.

O CEO da Portugal Nosso conhece toda esta teoria anterior. “A terceira fase, de execução do projecto, foi precedida de um processo de definição da missão e dos valores, numa dinâmica de construção da marca Portugal Nosso, que encarei como o primeiro instrumento estratégico de afirmação. Isto, por sua vez, impunha pensar numa forma de traduzir graficamente a alma do país, corporizando não somente a identidade corporativa da empresa, mas sobretudo a identidade de Portugal. No cômputo geral, esta fase foi a mais complexa, também de identificação, triagem, de negociação com os parceiros para que, em resultado da implementação do projecto, houvesse uma plataforma que fosse intuitiva, user friendly, responsiva, com uma oferta diversificada em produtos, aliada a serviços inbound e outbound, por exemplo de transporte, que vão ao encontro das novas tendências e exigências de consumo”.

É um negócio com três dimensões. Primeiro, venda online de produtos de nicho e tradicionais de Portugal, de qualidade superior, designadamente os que invocam aromas e sabores genuínos de um país guardado na memória e produtos que se encontram fora da distribuição massificada, num portefólio que combina artigos de pequenos produtores com artigos raros de algumas casas de referência. A segunda dimensão são os serviços gastro-vínicos como Chef ao Domicílio e Chef Executivo para eventos, assim como Consultoria de Produto ou de Branding, que incluem o apoio estratégico ao lançamento de novas marcas ou reposicionamento de rótulos já existentes. A terceira dimensão resulta da representação de marcas e distribuição de produtos, numa janela de oportunidade que está a abrir-se tanto no território português como também para alguns mercados externos. “No fundo, a plataforma www.portugalnosso.com é a estrutura, a infra-estrutura, ou se quiser, a engenharia de negócio que propicia a actuação nestes três domínios”, explica Pedro Baptista.

Mas, no fundo, o que o diferencia Portugal Nosso das outras ofertas semelhantes, questionámos o CEO.Qualquer negócio, qualquer candidato a empreendedor deve ter presente o seguinte. Quem consome, quer preços justos para bons serviços, entregas céleres e uma gama suficiente de escolhas para tomar, conforme lhe convém e em cada momento, a melhor decisão de compra. Tendo estes pressupostos presente, a diferenciação de per si existe, desde logo, pela própria plataforma Portugal Nosso. Tenho por mim que a commodity mais rara do Séc. XXI é o tempo, conseguir captar a atenção das pessoas. Por isso, cada detalhe, cada funcionalidade, cada campo possui o objectivo de proporcionar uma boa experiência de navegação e de compra, levando, um pouco que seja, de inspiração ao dia-a-dia das pessoas. E neste particular, Portugal Nosso é o materializar da minha visão sobre como a tecnologia pode ter um papel positivo na vida das pessoas, usando o online para levar as pessoas a desfrutarem da vida no offline, desde que se crie um ambiente inspiracional para isso. A segunda virtude do Portugal Nosso é a montra de produtos, que se encontra de portas sempre abertas, disponível, também a distância de um clique, com serviços fiáveis de transporte. Mas essencialmente uma montra que reflecte o culminar de um processo cuidado de pesquisa exaustiva por todas as regiões de Portugal, incluindo ilhas, e do seleccionar de um lote de produtos representativos do que cada região produz de melhor em termos de tradição, inovação e boas práticas. O portfólio encontra-se apetrechado por produtos como o vinho (alguns produzidos com lotes de uvas de vinhas velhas, com estágio de largos meses em barricas de carvalho francês e em garrafa antes de ir para o mercado), o queijo da Serra, a flor de sal, a aguardente velha, as conservas (algumas das quais na sua versão mais sedutora - sem pele e sem espinha). Mas também produtos biológicos e uma nova gama de oferta de produtores, mais ousada, com destaque para o caviar de cerveja, o licor de pastel de nata, gin e chocolates de vinho, as algas marinhas da rica costa portuguesa, sem esquecer o azeite ou mel com ouro comestível. Vale referir que as escolhas têm a chancela do chef Elísio Bernardes e do enófilo José Silva, ambos com profundo conhecimento da gastronomia e do sector vitivinícola do país”.

“No que se refere aos serviços e consultoria”, continua Pedro Baptista, “é indesmentível que há players que atuam nestes sectores. O que se constatou antes é que a oferta estava dispersa. E devo realçar ainda que outra valência do projecto é que numa altura em que o sector agro-alimentar é dominado pelas grandes superfícies, é bom para quem compra saber que está a apoiar directamente produtores regionais de excelência, com produtos de qualidade superior assente numa escala de produção mais reduzida, coisa que o mercado de grande consumo não privilegia nem incentiva”.

A aposta nos produtos portugueses

Pedro Silva Baptista vive há oito anos em Portugal. Actualmente, para além do negócio, está a concluir o doutoramento em Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade do Minho. Mas o seu percurso de vida e académico levou-o também ao Brasil, à República Checa e a Espanha. Daí a pergunta, porquê esta aposta em produtos portugueses?

“Os produtos portugueses são frequentemente destacados entre os melhores do mundo, o que cria uma apetência, uma curiosidade em conhecer por parte dos consumidores internacionais. Por outro lado, têm uma relação qualidade/preço muito favorável para o consumidor final, principalmente em comparação análoga com produtos da mesma categoria, designadamente os com proveniência em países como Espanha, França ou Itália. Portanto, há demanda interna (de pessoas que procuram produtos e tradicionais ou de boutique, os chamados foodies e gourmands) e internacional (o designado mercado da saudade, turistas que visitam Portugal ou mesmo importadores que atuam no sector B2B). Ademais, trata-se de um país com saber-fazer, com uma tradição e cultura de produção centenárias, num mercado onde é possível encontrar diversidade e produtos que nascem verdadeiramente da inovação na tradição”.

O ambiente de negócios actual em Portugal, segundo o empreendedor cabo-verdiano, está num período de dinâmica e de retoma económica, muito impulsionada pela exportação de bens transaccionáveis, mas sobretudo pelo turismo. Há um claro aumento de consumo, transacções comerciais (por exemplo, no sector imobiliário) e investimentos. Por outro lado, a poupança tem diminuído, a dívida (das empresas e das famílias) aumentado, os preços e inflação também. Apesar de alguns constrangimentos, o ambiente global está mais amigo do empreendedor quando comparada com a situação de 3 - 4 anos atrás. “As próprias autoridades estão a criar vários instrumentos para impulsionar o nascimento de negócios”, refere Pedro Baptista, “todos os dias há uma inauguração, espaços novos, negócios, empreendimentos. Isso tudo é muito positivo, pois em última análise a concorrência tende a beneficiar o consumidor final, aumentando-lhes o leque de escolha e, por vezes, o seu bem-estar”.

Um ambiente que permitiu o surgimento da plataforma Portugal Nosso. “O financiamento que obtive teve enquadramento num instrumento de capital de risco desenhado no âmbito da promoção do investimento jovem, que por sua vez encontra-se sob a égide de um programa maior, o Portugal 20/20, que possui várias ramificações. Aqui deixo uma nota para quem procura investir/empreender: independentemente da fórmula, para além dos incentivos, nos planos de investimento deve-se perspectivar a porção de capitais próprios, para além de se estudar eventuais recursos à business angels, venture capitalists ou outra possibilidade qualquer. A par disso, devem ter presente as necessidades de tesouraria, e aqui os bancos comerciais podem ser de alguma ajuda. Mais, é preciso ter sempre presente que nenhum instrumento é feito à medida do projecto de quem empreende. Que a virtude está em fazer com sofisticação, com a perfeição possível, mas com recursos controlados (pois em ambientes de abundância é muito fácil fazer acontecer). Portanto, para todos aqueles que querem empreender, sublinho que é sobretudo um processo de ousadia, de resiliência, um exercício de conciliação de interesses, de criatividade e de negociação. Só assim os projectos conhecem a luz do dia. Digo de outro modo: para além do modelo de negócio, o segredo é identificar duas ou três ideias (de preferência, as óbvias) e forçar vigorosamente a sua execução”.

Cabo Verde: mercado com possibilidades

Olhando para a realidade cabo-verdiana, quisemos saber junto do empreendedor se haverá a possibilidade de fazer algo semelhante a médio prazo para os produtos cabo-verdianos? Ou melhor, o que seria necessário ter em Cabo Verde para poder lançar um projecto semelhante?

“Creio que a possibilidade a prazo existe, e ela é latente. Quem me conhece sabe que sou um pro-Cabo Verde, que me preocupo e que posso contribuir. Respondendo à segunda parte da pergunta, diria que seria sobretudo necessária uma conjugação de timing e de precisão, que para mim são as tais coisas (na vida e nos negócios). Isto na medida em que timing pressupõe fazer, não com velocidade, mas no momento oportuno, quando a ocasião se faça. Já a precisão implica ter condições, gerais, para que a engenharia de negócio possa ser implementada sem grandes contratempos”.

“Temos um cabaz de oferta que entendo ser suficiente”, sublinha ainda Pedro Baptista. “A natureza primária de Cabo Verde recai sobre a produção mais limitada do que massificada e temos um país inevitavelmente destinado a proporcionar ofertas mais de nicho (do que o contrário), tanto de serviços como de produtos (de natureza, de lazer, orgânicos, gourmert, etc.). E temos um grande trunfo, pois se por um lado não temos ainda capacidade endógena de criação/produção em massa, por outro, há toda uma comunidade internacional (de traders e consumidores) ávida por produtos de nicho, produtos que, pela essência, possuem uma tipicidade muito própria (o que é o nosso caso). No fundo, estamos a falar de elementos de diferenciação e de exclusividade. Com isto não estou a dizer que não haja espaço para a grande produção. Da minha observação, acredito que há oportunidades no segmento de nicho, algumas que podem ser de alto valor acrescentado. Tudo isto é valorizado, tem potencial de alcance e de entrada em alguns mercados internacionais, tudo isto é, do meu ponto de vista, fazível, real. Fácil de dizer, de alguma complexidade na prossecução, mas eu acredito que temos só de trabalhar”.

Voltando à realidade lusa e ao investimento aproximado de 100 mil euros num negócio que deverá chegar ao equilíbrio financeiro entre finais de 2020, inícios de 2021, Pedro Baptista diz ao Expresso das Ilhas que, apesar de muito recente, a plataforma tem tido uma recepção positiva.Divido o feedback em três partes. Primeiro, receptividade dos consumidores, utilizadores e pessoas que visitam a plataforma, que tem sido muito positiva. É preciso muita humildade nesta fase, pois a curva de aprendizagem é ilimitada, mas a apreciação colhida é francamente encorajadora e posso confidenciar-lhe que as palavras colhidas são ‘fantástica’, ‘muito atractivo’, ‘sofisticado’... Ou seja, há uma clara validação do conceito e da plataforma por parte dos clientes, designadamente validação da experiência de navegação e de compra, tanto pela simplicidade como pela intuitividade do site. Segundo, as próprias vendas, a avaliação do processo de entrega, prova e degustação dos produtos pelos clientes, que têm sido igualmente muito positiva. Em terceiro lugar, o feedback dos parceiros/fornecedores e o engajamento deles com o projecto, com a confiança a solidificar”. 

A empresa Portugal Nosso tem sede fiscal em Braga e tem o centro de operações na Maia, tudo no norte do país.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 909 de 01 de Maio de 2019.

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Autoria:Jorge Montezinho,5 mai 2019 6:17

Editado porSara Almeida  em  6 mai 2019 13:53

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