Segundo os dados verificados que foram publicados no relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), no período referido, a violência direta perpetrada pelos gangues resultou em pelo menos 1.424 mortos e 790 feridos no Haiti.
Já as operações contra gangues lideradas pelas forças de segurança provocaram a morte de pelo menos 3.497 pessoas e 1.742 feridos, e os ataques contra gangues por parte de grupos de autodefesa resultaram na morte de pelo menos 598 pessoas e 76 feridos.
Nos últimos 12 meses, os gangues expandiram-se para além de Port-au-Prince, avançando para os arredores e para norte, em direção aos departamentos de Artibonite e Centre, referiu o relatório. Os gangues conseguiram "fortificar corredores estratégicos e manter o domínio sobre rotas marítimas e terrestres cruciais que sustentam o seu financiamento e resiliência operacional", indicou o relatório.
"Os gangues continuaram a usar a violência sexual para espalhar o medo, subjugar e punir a população", acrescentou o relatório, detalhando graves abusos numa escala assustadora.
Entre 01 de Março de 2025 e 31 de Dezembro de 2025, pelo menos 1.571 mulheres e raparigas foram vítimas de violência sexual, principalmente de violação coletiva. Outras, incluindo crianças, foram coagidas a entrar em alegadas "relações sentimentais" com membros de gangues e sujeitas a exploração e abuso sexual prolongados.
O relatório documentou também casos de uso desnecessário ou desproporcional da força por parte da polícia. Entre 01 de Março de 2025 e 15 de Janeiro de 2026, houve 247 casos de execuções sumárias, consumadas ou tentadas, de suspeitos de pertencerem a gangues ou de apoiarem gangues, resultando na morte de 196 pessoas e ferimentos a outras 51.
Desde Março de 2025, uma empresa militar privada, alegadamente contratada pelo Governo haitiano, participa em operações de segurança, incluindo o recurso a ataques com drones e disparos de helicópteros. Alguns destes ataques podem ser descritos como assassinatos seletivos, dado o aparente uso predeterminado, intencional e deliberado de força letal contra indivíduos especificamente identificados com antecedência.
"Nenhuma investigação parece ter sido aberta pelas autoridades judiciais para apurar a legalidade destas operações e as circunstâncias em que as mortes e os ferimentos ocorreram", referiu o relatório, acrescentando que "nenhum mecanismo de responsabilização parece ter sido implementado para permitir que as vítimas e os membros da população tenham acesso a recursos e justiça eficazes".
O ACNUDH destacou ainda a violência de grupos de autodefesa e multidões que praticam a chamada "justiça popular". Armados com pedras, machetes e, cada vez mais, armas de fogo de grosso calibre, estes grupos lincharam indivíduos suspeitos de ligação a gangues, bem como outros considerados criminosos. Alguns assassinatos terão sido incentivados, apoiados ou facilitados por elementos da polícia.
O relatório reconheceu alguns progressos no funcionamento do sistema de justiça, particularmente os esforços para operacionalizar duas unidades judiciais especializadas para processar crimes em massa, incluindo violência sexual.
"No entanto, o progresso judicial em casos que envolvam corrupção e financiamento de gangues continua limitado" (...), "a impunidade persiste" (...). As violações e abusos dos direitos humanos continuam a prevalecer", segundo o relatório.
O documento destacou a criação, pelo Conselho de Segurança da ONU, da nova Força de Repressão de Gangues (GSF) do Haiti, sujeita a um mecanismo de fiscalização robusto para prevenir, investigar, abordar e divulgar publicamente as potenciais violações dos direitos humanos cometidas pelos seus membros.
Foto: depositphotos
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