Pelo menos 5.519 pessoas morreram devido à crescente violência no Haiti

PorSheilla Ribeiro,24 mar 2026 14:09

Pelo menos 5.519 haitianos foram mortos e 2.608 ficaram feridos devido à violência dos gangues e das operações das forças de segurança entre Março de 2025 e Janeiro deste ano, segundo um relatório hoje publicado pela ONU.

Segundo os dados verificados que foram publicados no relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), no período referido, a violência direta perpetrada pelos gangues resultou em pelo menos 1.424 mortos e 790 feridos no Haiti.

Já as operações contra gangues lideradas pelas forças de segurança provocaram a morte de pelo menos 3.497 pessoas e 1.742 feridos, e os ataques contra gangues por parte de grupos de autodefesa resultaram na morte de pelo menos 598 pessoas e 76 feridos.

Nos últimos 12 meses, os gangues expandiram-se para além de Port-au-Prince, avançando para os arredores e para norte, em direção aos departamentos de Artibonite e Centre, referiu o relatório. Os gangues conseguiram "fortificar corredores estratégicos e manter o domínio sobre rotas marítimas e terrestres cruciais que sustentam o seu financiamento e resiliência operacional", indicou o relatório.

"Os gangues continuaram a usar a violência sexual para espalhar o medo, subjugar e punir a população", acrescentou o relatório, detalhando graves abusos numa escala assustadora.

Entre 01 de Março de 2025 e 31 de Dezembro de 2025, pelo menos 1.571 mulheres e raparigas foram vítimas de violência sexual, principalmente de violação coletiva. Outras, incluindo crianças, foram coagidas a entrar em alegadas "relações sentimentais" com membros de gangues e sujeitas a exploração e abuso sexual prolongados.

O relatório documentou também casos de uso desnecessário ou desproporcional da força por parte da polícia. Entre 01 de Março de 2025 e 15 de Janeiro de 2026, houve 247 casos de execuções sumárias, consumadas ou tentadas, de suspeitos de pertencerem a gangues ou de apoiarem gangues, resultando na morte de 196 pessoas e ferimentos a outras 51.

Desde Março de 2025, uma empresa militar privada, alegadamente contratada pelo Governo haitiano, participa em operações de segurança, incluindo o recurso a ataques com drones e disparos de helicópteros. Alguns destes ataques podem ser descritos como assassinatos seletivos, dado o aparente uso predeterminado, intencional e deliberado de força letal contra indivíduos especificamente identificados com antecedência.

"Nenhuma investigação parece ter sido aberta pelas autoridades judiciais para apurar a legalidade destas operações e as circunstâncias em que as mortes e os ferimentos ocorreram", referiu o relatório, acrescentando que "nenhum mecanismo de responsabilização parece ter sido implementado para permitir que as vítimas e os membros da população tenham acesso a recursos e justiça eficazes".

O ACNUDH destacou ainda a violência de grupos de autodefesa e multidões que praticam a chamada "justiça popular". Armados com pedras, machetes e, cada vez mais, armas de fogo de grosso calibre, estes grupos lincharam indivíduos suspeitos de ligação a gangues, bem como outros considerados criminosos. Alguns assassinatos terão sido incentivados, apoiados ou facilitados por elementos da polícia.

O relatório reconheceu alguns progressos no funcionamento do sistema de justiça, particularmente os esforços para operacionalizar duas unidades judiciais especializadas para processar crimes em massa, incluindo violência sexual.

"No entanto, o progresso judicial em casos que envolvam corrupção e financiamento de gangues continua limitado" (...), "a impunidade persiste" (...). As violações e abusos dos direitos humanos continuam a prevalecer", segundo o relatório.

O documento destacou a criação, pelo Conselho de Segurança da ONU, da nova Força de Repressão de Gangues (GSF) do Haiti, sujeita a um mecanismo de fiscalização robusto para prevenir, investigar, abordar e divulgar publicamente as potenciais violações dos direitos humanos cometidas pelos seus membros.

Foto: depositphotos

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Autoria:Sheilla Ribeiro,24 mar 2026 14:09

Editado porAndre Amaral  em  25 mar 2026 0:21

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