Ao apresentar o seu mais recente relatório perante o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, em Genebra, Richard Bennett sublinhou que "o Afeganistão enfrenta uma crise de saúde cada vez mais grave, impulsionada pelos contínuos ataques dos talibãs aos direitos das mulheres e raparigas, e por uma queda acentuada no financiamento internacional".
Apontando que os talibãs impõem "políticas opressivas de género, incluindo limites à liberdade de movimento, ao direito ao trabalho, à educação médica e à imposição da segregação de género nas instalações de saúde", o especialista da ONU salientou que "estas políticas não são medidas isoladas", mas formam antes "um sistema institucionalizado de discriminação de género que nega às mulheres e meninas autonomia sobre seus próprios corpos, saúde e futuro".
De acordo com Bennett, estas políticas opressivas "fornecem mais evidências de que os talibãs está a cometer crimes contra a humanidade".
"O sistema de saúde do Afeganistão já era frágil após décadas de conflito, pobreza e subinvestimento, bem como dependência excessiva do apoio de doadores. Mas a crise atual não pode ser explicada apenas por esses fatores. As políticas dos talibãs criaram novas barreiras que impedem as mulheres e as meninas de ter acesso a serviços essenciais", disse.
O relator especial expressou particular preocupação com a proibição da educação médica para mulheres, em vigor desde 2024, e seu impacto a longo prazo no setor da saúde.
"A proibição efetivamente fechou o canal de formação de novas profissionais de saúde mulheres. É completamente injustificável e coloca todo o sistema de saúde em risco. A menos que seja revertida, essa situação levará a sofrimento, doenças e mortes desnecessárias, podendo chegar ao feminicídio", advertiu.
O especialista salientou ainda que "os cortes massivos" no financiamento internacional também estão a comprometer programas que salvam vidas e a perturbar gravemente a prestação de serviços, levando um sistema já frágil ao ponto de rutura.
"Para as mulheres e raparigas, estes cortes estão a transformar um ambiente opressivo numa catástrofe sanitária em grande escala. Os Estados-Membros precisam de cumprir as suas responsabilidades e agir com urgência para evitar danos graves e duradouros", disse.
Por fim, Bennett defendeu que os mecanismos internacionais de responsabilização no Afeganistão devem investigar "as violações do direito à saúde e todas as formas de violência de género, incluindo a violência reprodutiva", sublinhando que, "quando as mulheres e as raparigas são privadas de educação, mobilidade e cuidados de saúde, os efeitos repercutem-se nas famílias e em várias gerações".
Foto: depositphotos
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